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Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

20.12.05

Alguns culinários conselhos a Soares e Cavaco, para o "soufflé" de logo à noite. Receita caseira...



Derreta o candidato com conselhos dos assessores, polvilhe com algum socialismo democrático e deixe cozer sem ganhar cor de muito à esquerda ou muito à direita.

Regue com contributos em dinheiro fresco e mexa com uma vara de arames comunicacional, de modo a obter um preparado heterogéneo que não saiba a carne nem a peixe.

Deixe ferver um pouco com o calor dos debates e das visitas ao país profundo e muitas memórias da prévia saltada ao Brasil.

Retire do calor, tempere com republicanismo, laicismo e visitas ao cardeal, bem como com uma pitada de apoio político-militar.

Junte os caça-assinaturas partidários e os notáveis das comissões de honra, principalmente catedráticos grosseiramente picados, alguns artistas sem discos pedidos e meia dúzia de velhas glórias futebolíticas que só jogam nas almoçaradas.

Bata o preparado em castelo bem firme e junte-o a histórias de muitas glórias políticas passadas, uma porção de cada vez, e em movimentos envolventes sem bater em más recordações, tipo luta contra as portagens ou salários em atraso, tudo no distrito de Setúbal.

Deite o preparado numa forma de soufflé muito bem untada e leve-a cozer em televisão quente (pense em mais de 50%, nas sondagens à boca das urnas) durante cerca de dois meses, com 5 minutos diários por telejornal.

Tome posse imediatamente, antes que lhe suceda o que levou Tancredo Neves a libertar-se da lei da morte. Mas não tente comer o resultado. Cheira a esturro e a cadáver adiado que procria imbecilidades.