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Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

9.7.08

Estou com saudades dos velhos debates republicanistas de um PS que caiu nas teias da personalização do poder e do propagandismo de ex-maoistas


Sempre que tento compreender as intervenções cívicas de um Baptista Bastos ou de um Manuel Alegre, sofro com a falta de um debate cívico enraizadamente identitário em Portugal. Sempre que noto o propagandismo dos ex-militantes da extrema-esquerda, nomeadamente os membros da redacção dos muitos jornalecos que se confundiam com nomes de partidos, reparo como eles se instalaram como "opinion makers" e directores dos grandes jornais e semanários, passando para o extremo oposto, mas mantendo o mesmo facciosismo. Pior ainda: quando se pintam de congreganistas e recebem a unção de doutrina social, tanto da igreja dominante como das suas entidades para-episcopais, acrescentando, à herança inquisitorial, a manha de monopólio da inteligência das seitas, como foi timbre daquela esquerda revolucionária que só se converteu à democracia pluralista depois do 25 de Novembro de 1975.


Por mim, sem aquela limpeza de sangue que passou pelo apoio à invasão busheira do Iraque, ou pela passagem pela salsicharia ideológica das conversões anglo-americanas de antigos maoístas, confesso que continuo marcado pelas influências de certos subsolos filosóficos francesistas, pelo que andei relendo certas provocações de Alain Renaut, no sentido da restauração do que designa por republicanismo de um povo livre. Daí também ter revisto Serge Audier (ver recensão aqui) e recordado algumas das sementes de Luc Ferry (basta passar os olhos por este discurso ministerial).


Num povo como o nosso, onde o António Ferro de Sócrates passou a ser o Jaime Silva, é difícil descobrir a comunidade (to koinon) e o bem comum (to koinon agathon), bem como distinguir os assuntos comuns (to koinon) dos assuntos dos particulares (to idion), ou das famílias e empresas (oikos), dado que continua a confusão entre o doméstico (despotes) e o público (politikos). Porque também desliguei a televisão quando falaram os ministros Santos Silva e Manuel Pinho, fiquei com saudades dos velhos debates republicanistas de um Partido Socialista que caiu nas teias da personalização do poder e do propagandismo de ex-maoístas e já não sabe ler a Virtuosa Benfeitoria do Infante D. Pedro. Basta carregar no video abaixo, para medirmos o efeito das delícias do situacionismo.

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