a Sobre o tempo que passa: Março 2005

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

29.3.05

Isto dá vontade de morrer...



Terça-feira, do sétimo dia de uma primavera, felizmente, chuvosa. Leio a jornalada e noto que começou a necessária renovação do PSD, com um discurso de Freire Antunes contra António Borges e, sobretudo, com a candidatura de Moita Flores, comentador de todas as coisas, criminologista e autor de telenovelas e séries televisivas, à presidência da câmara de Santarém. Fez um longo discurso de 18 páginas em que citou Sócrates, Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Pascal, Leibniz, Pessoa, Kennedy e... Cavaco Silva, entre muitos outros. Dizem que o espírito do velho inspector Varatojo voltou a animar a hostes escalabitanas que querem deixar de ser, definitivamente, terra dos exílios internos, à moda de Vale de Lobos.



Já o médico papal, Professor Doutor Daniel Serrão, veio aos jornais declarar que «em Portugal não se morre em paz. É horrível, mas ainda há muitos doentes que morrem cheios de dores que há décadas são desnecessárias». Por outras palavras, contra-parafraseando Alexandre Herculano, "isto nem dá vontade de morrer". Consta que o historiador terá feito o célebre e inverso comentário, precisamente, em Santarém, depois de assistir a um alegre funeral cigano. Por seu lado, um árbitro internacional, Pedro Proença, incomodado com as peripécias do "apito dourado", desceu aos jornais declarar o óbvio:"a arbitragem bateu no fundo, é a pouca-vergonha completa. E agora que sabemos de algumas das situações não podemos ficar calados". O apito, depois de silvar em certas autarquias do Norte, parece ter começado a estender os seus zumbidos para zonas bem mais a Sul, com o regresso das andorinhas aos velhos ninhos, mas que, nem por isso, parecem fazer a Primavera. Amen!



Finalmente, refira-se que o constitucionalista Professor Doutor Jorge Miranda, não glosando o patriarca-cardeal, veio defender que os referendos sobre o aborto e a Constituição europeia, que o PS tenciona realizar ainda em 2005, “só devem ser feitos depois das eleições presidenciais”. Porque, depois de termos tido “já duas revisões constitucionais no século XXI (2001 e 2004)”, “não podemos andar toda a vida com revisões da Constituição”. Mais emocionantes são os comentários, de primeira página, sobre a fortuita extensão do decote mostrado pela despenteada apresentadora da Quinta das Celebridades, antiga animadora da "Noite de Má Língua" e ex-assessora política de Joaquim Ferreira do Amaral, quando este era ministro do comércio do cavaquismo. Entretanto, o grande teórico da refundação da direita, Luís Delgado, já a definiu sociologicamente como o "eleitorado natural, moderado, centrista e de classe média", talvez por deixar o povo dos remediados e excluídos para a esquerda, enquanto as classes altas ficam repartidas entre a esquerda revolucionária, a extrema-esquerda e a extrema-direita. Resta saber se o Partido, que se diz Popular, quer manter-se como o efectivo "partido dos ricos", alargado às tias e "queques" da Linha, para citarmos Ferro Rodrigues e o PSD assumir a sua messiânica missão de libertador dos "self made men" à moda do Minho, contra os "sulistas, elitistas e liberais". De qualquer maneira, parece estar em risco a aliança que, outrora, foi simbolizada por Cinha Jardim e Avelino Ferreira Torres. Laus Deo!



Consta que o Patriarcado se sentiu deveras inco-"modado" com a circunstância de uma das obediências da Maçonaria passar a poder ter um programa na RTP2. Uma fonte geralmente bem informada sobre os assuntos de clericologia, adiantou-nos, em "off", que "se a moda pega ainda vão reclamar uma universidade idêntica à concordatária, o que seria claramente ofensivo para um país de maioria sociológica tradicionalmente católica". Ainda tentei dar-lhe o exemplo da Bélgica, onde a maçónica e plurissecular "Université Libre" sempre rivalizou com Lovaina, mas a minha ungida fonte logo me replicou que, "por cá, já temos réplicas da coisa no ensino público", onde "em vez dos maçons, estão os marxianos e os barnabés de Porto Alegre". Calei fundo. E a fonte acrescentou: "nós queremos manter o monopólio da espiritualidade e da moralidade e ninguém melhor do que a nossa instituição para endireitar teólogos da libertação, tornar ortodoxos ex-marxistas-leninistas-estalinistas, através de leituras de teólogos políticos protestantes, e transformar ex-direitistas em caça-reaccionários e caça-fascistas". Fiquei esmagado e prometi assistir ao próximo programa televisivo da Grande Loja Regular de Portugal. Como homem livre, mas sem a ficha do livre-pensamento. Aleluia!

28.3.05

Fronteiras já! Com testes de gravidez e tudo!



Já não sei onde li a entrevista do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, onde este sugeria ao seu rebanho, através de uma recomendação pastoral, que iria votar "sim" no referendo sobre a Constituição europeia, ao mesmo tempo que apelava ao "não" no caso do referendo sobre a liberalização da IVG. Fiquei sem saber em que secção dos jornais veio a prancha. Na da política, talvez não, porque a Igreja não actua como os partidos, os grupos de pressão e os grupos de interesse. Na dos assuntos internacionais, também não, porque a matéria não é concordatária e a entrevista não veio no jornal do Vaticano. Talvez na da cultura, por causa das recensões ao livro de Dan Brown. Certamente na da sociedade, onde finalmente a encontrei.

Meditei mais uma vez em tão isentas palavras do condutor do povo católico lusitano e fiquei cheio de dúvidas sobre a segura hermenêutica usada pelo cardeal quanto à leitura atenta da letra e do espírito do chamado tratado constitucional, que já nada tem a ver com a vaticana proposta de Schuman, Adenauer e De Gasperi. De outro modo, o patriarca teria de notar que os adversários confessos do actual modelo giscardiano de construção da Europa não coincidem com "os anti-europeístas do costume", como demagogicamente afirmou. A não ser que continue a ter a lógica dos martelos dos heréticos e dos inquisidores que, dividindo o mundo entre o preto do diabo e o branco do divinal, tornaram tudo cinzento.



Esse maniqueísmo a que nem Santo Agostinho foi fiel, porque disse que a Cidade do Diabo podia circular no interior dos que se pensam institucionalmente como Cidade de Deus, porque dentro do bem há pedaços de mal, tal como, no mal, há pedações de bem, não se coaduna com o bordão a que deve segurar-se um pastor isento. Basta rodar a coisa para a questão da interrupção voluntária da gravidez e verificarmos como uma Europa giscardianizada levará inevitavelmente a uma unidade de legislações sobre a matéria e ficará sujeita a recomendações de órgãos supranacionais que entrarão inevitavelmente nessa área anteriormente reservada às soberanias estaduais.

De qualquer maneira, numa Europa sujeita, como actualmente, e ainda bem, à liberdade de circulação de pessoas, conservarmos as fronteiras para efeitos de IVG soa a ridículo. E se levássemos até às últimas consequências os actuais ordenamentos jurídicos e considerássemos como absoluto o conceito patriarcal de defesa do direito à vida, teríamos que, imediatamente, suspender os acordos de Schengen para pessoas do sexo feminino, em idade fecunda. Com efeito, para salvarmos os fetos potencialmente existente nas barrigas em causa, seria obrigatório dotar todas as nossas fronteiras aéreas, marítimas e terrestres de postos de teste de gravidez, a fim de evitarmos deslocações a clínicas de IVG sitas noutros locais da degenerada Europa, nomeadamente em Badajoz.



O senhor cardeal não percebeu que, ao dizer "sim" a uma coisa e "não" a outra, está a deitar pela porta fora aquilo que tentou impedir, ao querer fechar uma janela. Basta fazermos uma leitura rápida dos mapas comparados das legislações europeias sobre a criminalização da IVG. Basta consultarmos as várias recomendações das instâncias europeias em matérias de não-discriminação. E compreendermos as razões politiqueiras que o não levaram a apoiar a postura de Rocco Buttiglione, quando este foi saneado de comissário europeu. E não estamos a ver a Conferência Episcopal Portuguesa a ter um novo ministro da defesa eurocalmo que mande fragatas evitar a atracagem de muitos barcos das "Women on Waves"...

Só depois de todas estas meditações é que percebi a razão de ser desse patriarcal apelo ao "sim" a Giscard. Queria ser finalmente elogiado pelo Professor Doutor Vital Moreira que, lendo apenas a parte euro-entusiasta da peça cardinalícia, veio agora declarar que se tratou de "uma clara desautorização da utilização da religião para combater a Constitução, como tem sido insinuado por alguns círculos católicos tradicionalistas, pretextando a ausência de uma referência à 'herança cristã', em que o Vaticano se empenhou, sem êxito". No fundo, trata-se daquela velha técnica da bissectriz, ou da equidistância, da clerical postura dos situacionismos, onde a esquerda da espada e a direita do báculo levam a que os rebanhos, muito à maneira da parábola de Platão, compreendam que a política se tornou complexa desde que os carneiros deixaram de ter os deuses como pastores e passaram a ser autogovernados, em leviatânica alma artificial. Amen!

PS: Qualquer referência aos ovinos e caprinos, no texto supra, não passa de mera metáfora, que, antes de ser da Igreja Católica, já pertencia aos textos profanos da politologia greco-latina.

Lançamento na quinta-feira, dia 31



Nós crescemos oitocentos anos e não saímos da infância. Ou já teremos decrescido tanto que chegámos ao infantilismo da velhice. Mas, nesse caso, do que precisamos não é de um país mas de um asilo

(Vergílio Ferreira, 1981)


Na próxima quinta-feira, dia 31 de Março, pelas 19 horas, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias, no Campo Pequeno, será lançado o segundo volume do meu "Tradição e Revolução", abrangendo o período que vai de 1910 a 2005. A edição cabe à Tribuna da História, de Pedro Avilez (351-213150438; tribunadahistoria@iol.pt). A apresentação do texto caberá ao Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Venho, por este meio, convidar os meus amigos e amigas a estarem presentes.

Neste segundo volume, abrangendo os períodos da I República, do Estado Novo e da chamada III República, do abrilismo a Sócrates, há uma introdução onde se tenta uma caracterização do Portugal contemporâneo, ou a tradução em calão do jacobinismo concentracionário; um elenco dos erros sem tragédia na constituição a que chegámos, ou a procura das leis fundamentais; a teoria do revolucionarismo permanecente, ou a procura frustrada da Idade de Ouro; o elenco da guerra civil fria, ou as sociedades secretas e a questão político-religiosa; e um balanço do compadrismo e da corrupção.

De resto, um império que já não há, uma língua que é futuro, dois regicídios, outros tantos magnicídios, três guerras civis, campanhas de ocupação e guerras coloniais em África, uma permanente guerra civil ideológica, três bandeiras, uma guerra mundial, seis constituições escritas, sete presidentes eleitos pelo povo, oito monarcas, a separação de nove Estados independentes e, muito domesticamente, quinze regimes, com duas monarquias e três repúblicas, sem que voltasse D. Sebastião, apesar dos heróis do mar e do nobre povo. Mais: oitenta eleições gerais, cento e vinte e tal governos, 13 233 dias de salazarquia, duzentas turbulências golpistas, cinco revoluções, outras tantas contra-revoluções, com restaurações, nostalgias, utopias e reviralhices. Oito dezenas e meia de chefes de governo, cerca de meio milhar de partidos e facções, várias congregações e outras tantas maçonarias, muitas fragmentações de um todo que resiste, com mais de cinco mil factos políticos seleccionados. E sempre a frustrada modernização de um Portugal Velho que quis ser reino unido e armilar, entre antigos regimes e jovens democracias. Graças à balança da Europa: desde El-rei Junot ao estado a que chegámos, com passagem por Évora-Monte, Gramido, Ultimatum, Grande Guerra, neutralidade colaborante, Vaticano, CIA, KGB e integração na CEE. Sobretudo, um povo sem rei nem lei e até sem sinais de nevoeiro.

Gaivotas em terra, guitarras no mar



Nesta segunda-feira de Páscoa, em que "no news, good news", ficámos a conhecer, por científica sondagem, a verdadeira dimensão do estado de graça do socratismo. O ministro que mostra ter mais confiança dos portugueses é Mariano Gago, talvez por ser professor catedrático, talvez por ter aquele ar enigmático e atómico de Professor Pardal, suspenso dos aros oculares, feitos de partículas atómicas, talvez por não ter gasto palavras pelo uso, prostituindo-as pelo abuso. Já o sacrificado Pedro Silva Pereira, o porta-voz de Sócrates, é de quem os portugueses esperam menos. Isto é, nestes pós-santanismo e pós-portismo, pela boca morre o peixe, porque a regra passou a ser que quanto mais falas, menos eu gosto de ti.



Cientista e catedrático é outro professor que comanda a suprema avaliação do reino em matéria de escolas superiores e, conforme pode ler-se no jornal "Público", ei-lo que desceu da Internet à tinta no papel, para nos brindar com um artigo de defesa da sua dama e ganha-pão. Basta ler o dogmático da primeira frase, para tudo se compreender de processo cientifico-burocrático: "Há pessoas que considero a ponto de usar o meu tempo a discutir e argumentar com elas. Outras não merecem sequer resposta...". Qualquer especialista em diálogo e tolerância, se ler os parágrafos seguintes compreenderá o que era o estilo e a gramática de uma nota oficiosa em regimes autoritários, marcados pela hipocrisia do princípio da legalidade e pela eficácia da vontade de poder.



Abstemo-nos de falar da benção "urbi et orbi" de João Paulo II de ontem. O patético pode destruir a imagem do dramático, na Igreja-Espectáculo da televisão global. Prefiro notar que o mar galgou ontem a costa na minha querida praia de Buarcos, enquanto mais a Norte, noutras areias apareceram mortos alguns golfinhos. E termino com uma página de honra deste nosso "telurismo oceânico": o compositor e músico Carlos Paredes legou duas das suas guitarras a Coimbra, instrumentos que deverão ficar expostos na Torre do Anto. Que fique para sempre este "movimento perpétuo". Não há Portugal sem ti!

27.3.05

O clero, a nobreza, os fidalgotes e a falta de povo




De há uns tempos a esta parte, grande parte dos comentadores e analistas lusitanos vem observando que Portugal continua a estar dependente das corporações. E cada um, conforme as suas, deles, tendências freudianas, atira, para cima do respectivo fantasma dilecto, o labéu dessa feia palavra que nos evoca a Constituição de 1933 e o salazarismo, de más memórias. Aos costumes, apenas diremos que, apesar de sermos um país relativamente pluralista, uma sociedade relativamente aberta, uma democracia relativamente competitiva e um Estado relativamente de Direito, falta-nos muita boa educação para atingirmos os níveis das comunidades de homens livres e da autonomia das pessoas, enquanto indivíduos que pensam o sentimento pelas próprias cabeças e troncos, actuando com os membros em conformidade, sem porem os pés no sítio da testa. Tentemos uma explicação sócio-satírica, sem marxianos liberalismos, mas com alguma historicidade viva.



Julgamos que a sociedade de ordens e a sociedade de Corte do "Ancien Régime" absolutista não foram suficientemente decepadas pelo individualismo regenerador do movimento liberal que, desde o início, se viu a braços com um longo conflito entre o partido da tropa e o partido dos becas, juristas ou magistrados, com o primeiro a querer conservar a função clássica da nobreza e o segundo a querer usurpar a missão inerte dos clérigos e teólogos.

E, a partir de então, quase todas as nossas chamadas revoluções viveram esta tensão, desde o 28 de Maio, onde o partido da tropa indicou o venerando chefe de Estado e o partido dos becas nomeou o tal Salazar que acabou por instaurar o clericalismo de uma autêntica república dos catedráticos, transformando as faculdades de direito, isto é, a união da faculdade de cânones com a faculdade de leis, nos verdadeiros seminários do regime.



Também com o 25 de Abril, o conflito entre a vigilância militar revolucionária e os chamados constituintes e constitucionalistas manteve o pano de fundo que atingiu o clímax quando o presidente-tutor, político-militar, se civilizou pelos votos e recebeu, nos costados, a agressividade dos Soares e Sá Carneiro, herdeiros dos velhos becas, fortemente apoiados pelos cultores do Texto. Isto é, por uma classe política dominada pelos novos teólogos que, entretanto, multiplicaram as escolas de becas pelo quase infinito das três dezenas, mantendo, contudo, o rigoroso controlo do restrito corpo de doutores que, durante décadas, deixou intacto o "numerus clausus" herdado do salazarismo e do caetanismo, quando apenas existiam duas escolas de leis.

Terá escapado ao atavismo a brevíssima I República, dado que, ao lado de becas-politiqueiros, como Afonso Costa, surgiram inúmeros médicos, segundo o paradigma de António José de Almeida. Também com a passagem do abrilismo para o cavaquismo deu-se aa emergência dos cultores da "rainha das ciências sociais", como mestre Aníbal, coisa que desviou muito do nosso falso messianismo para o mito da macro-economia. Acabou, contudo, por acontecer aquele desespero da erosão do poder que nos obrigou a chamar um "engenheiro", desde o chamado "picareta falante" ao presente de Sousa, ainda sem alcunha adequada, porque ainda se não abriu o melão. Entretanto, começam a mostrar os ímpetos conquistadores outras corporações, desde a eterna casta banco-burocrática, reanimada pela engenharia financeira, à novíssima fauna dos patos bravos e da futebolítica, esse sucedâneo de povo, com muita pronúncia do Norte.



Acresce que emergiu também o pequeno núcleo dos catolaicos que, apesar de dispersos por mais de uma centena de seitas neocatólicas, conseguiram manobrar brilhantemente nos meandros das chamadas elites, confirmando o que ainda hoje foi observado por um antigo professor na Universidade Católica, Vasco Pulido Valente: "em 1980, os velhos ministros de Salazar já ensinavam na Universidade Católica, que desde essa altura se tornou na principal escola de quadros da direita" e "não por acaso aumenta constantemente o número de políticos que exibem com clamor o seu catolicismo. Eles sabem que precisam de uma referência ao mesmo tempo popular e sólida para moderar ou conter o 'politicamente correcto'".

Aliás, o mestre dos comentaristas, antigo secretário de Estado da cultura e deputado do PSD, nem sequer referiu que Paulo Portas e Manuel Monteiro são dois dos brilhantes exemplos dos graduados pela entidade em causa. O que talvez explique as confiantes palavras do conformador da mesma, o actual presidente da Conferência Episcopal: "não tenho razão para recear as relações entre a Igreja e o Estado em Portugal, além daqueles assuntos que voltam, de vez em quando, à agenda política, como é o caso de uma possível lei referendada sobre o aborto".



Apenas acresentaremos, à maneira de Garrett, que a sociedade já não é o que foi, nem pode voltar a ser o que era. A velha nobreza militar acabou por ter Portas como o grande comprador de todos os brinquedos para as próximas décadas. E os velhos clérigos legistas, produtores dos Durão e dos Santana, com tantos doutores das privadas e outros mais produzidos nas Espanhas e araganças dos doutorados por correspondência ou permanência sazonal, que aqui apenas precisam de registo, conforme decreto inspirado por Freitas do Amaral, até correm o risco de ter como colegas um qualquer Marçal de Elvas ou uns desses que, discretamente afastados, por suspeita de plágio, conseguiram obter o título na concorrência lucrativa que aceita a norma do princípio de Pedro, onde os acasos nominativos não são simples peles de coincidência. E a casta banco-burocrática nem sequer parece ter força para deitar abaixo uns sobreiros, dado que o Ministério da Agricultura não autorizou o corte de sobreiros em Benavente, na golfíca Herdade da Vargem Fresca. Valha-nos o espírito que ainda é santo, não comercial, nem de Lisboa...

E no meio de tanta penumbra e desemprego de jovens licenciados em ciências ocultas e engenharias de província, apenas se confirma que a Olivedesportos passou a mandar na comunicação social e que continuamos a ser algemados, nos interstícios transicionológicos, tanto pela gerontocracia como pelo partido dos fidalgotes, isto é, não pela nobreza da função, mas antes pelos "filhos de algo", isto é, pelos que, tendo nome de família, não precisam de pagar cem euros por mês para poderem frequentar um estágio de pós-licenciatura num desses hospitais estaduais, agora dominados por gestores profissionais que ganham mais do que o próprio Presidente da República. Quando é que o povo acede ao poder, sem ser pela via dos empreiteiros, futeboleiros e quintareiros das celebridades?




Para os devidos efeitos, se informa que várias universidades e institutos politécnicos, públicos, publicamente privatizados, concordatários e lucrativos, abriram, na raia de Espanha e arredores, vários cursos rápidos de introdução à leitura de declarações teológico-políticas, emitidas pelo episcopado lusitano. Na Universidad Luso-Andaluza dos Sinais dos Tempos de Ayamonte, o Professor Paulo Portas fará a hermenêutica das seguintes palavras de D. José Policarpo, tão transcendentalmente politiqueirezas: "As pessoas que vão fazer campanha pelo não são os antieuropeístas do costume...Nada obrigava a optar pelo modelo de tratado constitucional como não era necessária uma introdução, invocando a cultura da Europa. Não terem reconhecido que o Cristianismo é uma dessas estruturas culturais é um problema de objectividade cultural, não é uma questão de fé". Na Universidade Leonesa Gaita de Foles, de Miranda do Douro, com a orientação do Professor César das Neves, glosar-se-ão outras da mesma entidade: "esta moda de reduzir a figura de Jesus a um homem é o resultado de um contexto cultural que dificilmente aceita a dimensão transcendente da vida". Já na Universidade Luso-Galaica D. Teresa, de Tuy, será comentada, pelo Professor Engenheiro Jardim Gonçalves, uma frase célebre de D. Armindo Coelho: "o neo-pelagianismo que vigora na mente de quantos - e são tantos - não querem outra salvação senão a que eles idealizam e entendem conseguir por si mesmos".

Segundo consta, o pelagianismo é uma teoria alegadamente defendida pelo monge Pelágio (360-435), originário das Ilhas Britânicas, que, segundo os seus detractores, defendia que o pecado original não contaminava a natureza humana porque ela tinha sido criada por Deus e era por isso divina. Esta doutrina foi condenada como herética pelo Concílio de Cartago, em 417.

Todos os cursos, patrocinados pelo Millenium BCP, são equivalentes aos mestrados portugueses, bastando, para tanto, um mero registo, de acordo com a legislação em vigor. Dan Brown não será usado como bibliografia, o eurocepticismo de Paulo Teixeira Pinto não será recordado e os participantes receberão, para além do adequado certificado anti-herético, um indulgente argumentário, com fotografias a cores, para ser usado na próxima campanha do referendo sobre a IVG. Outros anti-europeístas do costume, como o professor da Universidade Católica, Doutor Jorge Miranda, não foram convidados. Cerca de metade do eleitorado europeu corre também o risco de excomunhão. Amen!

26.3.05

Anuncia-se nova viagem do Titanic



Tanto o nosso Senhor Feliz do PS como o nosso Senhor Contente do PSD, totalmente euro-entusiastas, uns em graça de estado, pelo governo, outras em estado engraçado pelo Cavaco, não querem ler, nem ver, nem ouvir como um simples "não" ao referendo europeu em França pode mandar para as malgas mais de metade do respectivo cimento ideológico. E na pátrica de Chirac, as sondagens vão dizendo que o tal "não" que, há um mês, estava nos 35%, passou recentemente para os 51% e, agora, para os 52%. O diabo, agora, chama-se directiva Bolkestein e adesão da Turquia.

Mas a dita directiva foi adoptada em Janeiro de 2004, quase sem oposição, praticamente da mesma forma como Durão Barroso ascendeu ao vértice desta abóbada dos "amanhãs que cantam", unindo as direitas e as esquerdas dos grandes partidos multinacionais, como são o PSE e o PPE, com o primeiro a recrutar, para o governo de Lisboa, um militante do segundo, nessa prova máxima de hipocrisia, onde, contra o tal ministro democrata-cristão de um governo social-democrata, se ergue a denúncia de um partido social-democrata, inscrito numa central de conservadores, democratas-cristãos e liberais, mas que, depois de uma derrota eleitoral, tem todas as candidaturas a proporem o regresso à matriz social-democrata da esquerda moderna, talve para poderem retomar a intenção original da matriz que era a inscrição na Internacional Socialista.

Vale-nos que, por Lisboa, o grão-mestre do europeísmo, o tal que assinou a adesão nos Jerónimos, depois de "meter o socialismo na gaveta", já tem a solução para a eventual derrota deste europeísmo continentalista: levar a que Cabo Verde seja a vanguarda da adesão de todos os países crioulos da Euráfrica e Oceânia à União Europeia Armilar, pela Humanidade contra o Neoliberalismo. Que assim ninguém mais fala em Frankenstein, otomanos, romenos, búlgaros, croatas e macedónios..... O Senhor Feliz e o Senhor Contente, apoiados pelos eurocalmos e os eurameres transatlânticos, do CDS/PP, além de serem rolhas, sempre à tona de água, desde que o poder lhes dê um tacho, nunca gostaram de viajar no Titanic!

Cavaco aliviado, patriarca politiqueiro, um estalinista resistente e morgadinha feita super-polícia



Neste sábado de aleluia, quando os relógios adiantam uma hora, mas não mentalmente, os portugueses confirmam que António Guterres não será candidato a presidente de todos os portugueses, dado que já recebeu o patrocínio para o exílio doirado por parte de figuras do PS com a dimensão de José Sócrates, Jorge Coelho ou Maria de Belém, as quais, certamente, não dariam tal solidariedade de forma irreflectida e não concertada. Daí que Cavaco Silva recobre de energia, talvez suspeitando como à segunda pode ser de vez.

Ficámos também a saber que o conhecido bilionário George Soros foi considerado culpado de um caso de «insider trading» que ocorreu há 16 anos atrás e onde terá registado um lucro de 2,2 milhões de euros, que terá agora de restituir. A coisa passou-se, naturalmente, longe das nossas fronteiras de justiça morosa, dado que, por cá, os ricaços caseiros da engenharia banco-burocrática, só depois da nomeação de Maria José Morgado para um cargo de coordenação na área das polícias, é que poderão a começar a fazer contas às vida.



Mais coerente parece ser Francisco Martins Rodrigues, o "xico" estalinista, criador da primeira dissidência anti-revisionista no PCP, que, ainda hoje, em "A Capital", e bem, vem declarar que não se considera um humanista, mas antes um revolucionário. Por outras palavras, vem admitir que qualquer revolução, tendo em vista o fim superior da humanidade, pode usar os adequados meios, nomeadamente o limpar o sebo aos contra-revolucionários. Já do outro lado da barricada, o porta-voz eclesiástico, o cardeal D. José Policarpo, fazendo o voto de não confusão entre a política e a religião, começou a campanha eleitoral para os próximos referendos. Disse, ao "JN", que votará “sim” no Tratado da Constituição Europeia e “não” no da interrupção voluntária da gravidez, a que acintosamente chamou de aborto. Não disse se dará a comunhão aos que digam "não" ao dogma de Bruxelas. Espera-se que um jornalista manhoso, ao serviço do futuro candidato socialista a Belém, faça Cavaco Silva confessar que posição pública tomará no caso da IVG, não vá o magno chanceler da Católica despedi-lo, ou requerer que se lhe abra um um canónico processo de excomunhão, para a salvação da cristandade.



No meio de todos estes choques noticiosos, bem apetecia voltar aos tempos em que, na minha santa terrinha, a miudagem assistia à queima do Judas, um boneco de trapos içado no Largo da Praça, onde lhe metiam no corpo muitas bombinhas de Carnaval e algumas bichas de rabiar. Por mim, no meio de todos estes choques, só sei que sei alguma coisa, porque, afinal, nada sei. Porque, querendo o que não posso e não podendo o que, na verdade, quero, fico, assim, bem preso na encruzilhada, temendo perder as forças para resistir, mas conservando o largo espaço daquela esperança que sempre foi o contrário da utopia, que sempre preferiu a revolta à revolução. Nunca fui revolucionário nem arrependido, prefiro a tradição à contra-revolução, mas nem por isso quero construir a Europa de báculo e espada. Aleluia! Prefiro a samaratina de Sicar à Maria Madalena de Dan Brown... Que, Dos amores do Redentor/ Não reza a história sagrada /Mas diz uma lenda encantada /Que o bom Jesus sofreu de amor...