a Sobre o tempo que passa: Heréticas reflexões de política internacional, em dia de raiva

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

17.2.11

Heréticas reflexões de política internacional, em dia de raiva


1
Ben Ali está doente. Mubarak, idem, aspas, aspas. Já no Bharain, na Líbia, no Irão, enquanto eles não estão em comas, vai de malhar. É tudo um problema psicossomático, sobretudo para quem não tem jogos das ligas europeias, logo à noitinha, nem eternos processos de faces ocultas, sem Berlusconi nem repúblicas de juizinhos...


2
Está mais do que demonstrado o irrealismo dos chamados realistas que reduziam a política internacional a simples bolhas de bilhar no tabuleiro geopolítico dos Estados em movimento. Esses que conceberam o progresso como mero teleponto de conclusões discursivas de uma cimeira intergovernamental.


3
Durante mais de duas décadas confundiram o fim da história com essas promessas de uma ilusão de bem estar a que deram o nome de globalização e desenvolvimento, pensando que a coisa era tão fatal como o nascer do sol, todos os dias.


4
Protegeram tiranos com subsídios, conselheiros militares e escudos de espionagem, sem quererem saber de povos, pensamentos e suas identidades. Até pensaram que podiam substituir cartilhas de marxismos por outros quaisquer comprimidos empacotados, não querendo saber dos mitos que movem as civilizações.


5
Alguns chamaram a tal patranha ciência da estratégia e quiseram transformá-la em recinto esotérico para deleite de falsas elites que nem os bois à frente do palácio conseguem topar... E até deixaram que parcelas fundamentais da cidadela universitária fossem assim assaltadas, clamando contra os hereges.


6
E muitos nisso continuam entretidos, julgando que assim podem conter os feitiços que engendraram, essas criaturas que, libertando-se dos pretensos criadores, estão a pôr em causa a bela ordem que a todos os pariu.


7
Já chega dessas servas de uma nova teologia, onde legiões de novos clérigos, mancomunados com o diabo do pretenso irmão inimigo, vão brincando a revoluções, contra-revoluções, armamentos outros tráficos, dando uma falsa imagem do ocidente, só porque nos proíbem de o pensar e de o vivermos como pensamos. Acorda, Europa!


8
Pobres de nós, simples coitados, se nos deixarmos ser mero mercado de notícias enlatadas, cotações de juros e blindados, tudo reduzindo a manuais de instruções e procedimentos de quem, sendo agente, não nos deve comandar.


*Imagem de Qal’At Al-Bahrain. Antiga fortaleza portuguesa lá do sítio, quando ainda pensávamos pela nossa própria cabeça.