a Sobre o tempo que passa: Neste vazio de pátria e de bem comum, entre o crepúsculo do salazarismo e o estado a que chegámos

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

9.8.07

Neste vazio de pátria e de bem comum, entre o crepúsculo do salazarismo e o estado a que chegámos


Contrariando as minhas boas intenções de férias livres de livros, eis que, depois de ler de um fôlego e em diagonal o "voyeurismo" de Zita sobre os meandros da clandestinidade do PCP e o comando vanguardista do PREC, reli-o anotadamente neste remanso de férias, por empréstimo de alguém da nossa companhia de travessia da ria. Concluí que se trata de mais uma peça de literatura de justificação do situacionismo e dos novos donos do poder, um pouco à imagem e semelhança das quase-memórias de Filomena Mónica, onde Vasco Pulido Valente, o ex-militante do Movimento de Acção Revolucionária, é topos, ou lugar comum de ex-actor feito agora revisor de nihil obstat. Porque nele, no livro, dito de ajuste de contas por Jerónimo, não circula o chamado povo comum ou o valor máximo que nos dá república e pátria e a que, desde sempre, chamámos justiça. Para que possamos cultivar aquela vontade de sermos independentes, aquela comunidade das coisas que se amam e à qual pretendo continuar a dar o nome de Portugal.


Com efeito, o livro de Zita é uma bela demonstração de como ainda somos vítimas dos dois principais déspotas iluminados do século XX português: os irmãos-inimigos Salazar e Cunhal. Aliás, a própria Zita que, para derrubar o fascismo (de Salazar) se assumiu como clandestina guerrilheira do comunismo (de Cunhal), revela que, para se livrar deste duplo universo concentracionário, precisou, mais recentemente, de aliar-se aos refluxos intelectuais de ex-esquerdistas de ex-maoístas e ex-"m-l" que, outrora, erigiram o "social-fascismo" como inimigo principal.


O livro de Zita é, de facto, um excelente revelador deste vazio de pátria e de bem comum, provocado por um pano de fundo de autoritarismo absolutista e de bufaria inquisitorial, onde o desespero da saída revolucionária e violentista acabou por nos conduzir ao mais do mesmo. Com efeito, as metodologias vérmicas da subversão dos aparelhos de Estado, feitas de sucessivos centralismos conspirativos e de facciosismos propagandísticos, com muito discurso eficaz, acabaram por gerar sucessivos césares de multidões, intelectuais orgânicos, correias de transmissão e enormes rebanhos de idiotas úteis.


Consegue, contudo, fazer certo retrato da minha geração, daquela que fez a passagem do crepúsculo do "ancien régime" para esta "pós-revolução" que transitou das RGAs dos saneamentos para os plenários da banca, com o mesmo sentido manipulador. É assim natural que transforme a nostálgica rebeldia de uma burguesinha numa enxertia artificial de revolucionária profissional. Agora, sentada no sofá da sala, ou sob os toldos de praias finas, a mesma geração talvez não repare que não é senão uma massa informe, moldável pela batuta dos gestores de "share" e de "agenda setting", mesmo quando passou da esquerda dura para a direita ou a esquerda moles, sob a égide de um governo de esquerda com temperamento de direita, ou de um governo de direita com preconceitos de esquerda e fantasmas de direita.


Até porque ambos os dois últimos modelos deste mesmo sistema de Bloco Central, apenas dependem dos apetites daquele utilitarismo que tem como primeiro mandamento a obtenção do máximo de prazer com o mínimo de dor, ao mesmo tempo que subscreve o ditado maquiavélico, segundo o qual tem razão quem vence. E entre as operações de guerrilha de salão e heróis das tias de Cascais e da Foz do Douro, acaba por dominar a clássica aliança dos feitores dos ricos com os moralistas de sacristia.


Foi assim que passámos de um ambiente de PIDE e União Nacional, para novo esquema onde continuam a pontificar os grandes "filhos família" de certa classe social devorista que sempre soube controlar os meandros ocultos da fabricação dos donos do poder, onde o estado a que chegámos é, sobretudo, uma consequência daqueles sobreviventes que, entre o salazarismo, o marcelismo, o PREC e a pós-revolução, passaram do marxismo-cunhalista, ou maoísta, para o socialismo da direita dos interesses, com o pé-atrás das memórias esquerdistas e o bico de pé do beatério possidente, à espera de abichar mais uma prebenda do estadão ou outro qualquer favor decretino.


João Carlos Espada, o conselheiro presidencial de Soares e Cavaco, com intervalos doutrinários na universidade concordatária, é o seu profeta. Manuel Dias Loureiro, o autor de todas as moções, poemas e programas do PSD, é o seu engenheiro do moções. Paulo Teixeira Pinto não passa do filho que as tias gostariam de ter casado com a Paula Teixeira da Cruz. E Vital Moreira, o intelectual capaz de pôr em lei este equilíbrio hipócrita, para que Pina Moura mobilize o José Eduardo Moniz para nova telenovela que nos adormeça.


Por mim, prefiro o eterno retorno a um simples poema da Mensagem de Fernando Pessoa, para tentar compreender o milenarismo, meio malhado, de mestre Agostinho da Silva, quando nos procurou recordar que o grande construtor do quinto império, do poder dos sem poder, foi el-rei D. Dinis, esse plantador de naus a haver para o Portugal poder-ser.
Infelizmente, o nosso conceito de herói anda muito por baixo, especialmente se o perspectivarmos de um lugar que não abarca a floresta, mas apenas as pequenas árvores vizinhas dos amigos de seita, com muito sindicalismo de citação mútua e literaturazinha de cordel, nesse universo politicamente correcto que se auto-configura como correcto e que passa de São Lenine para São Churchill, de acordo com as desavenças burguesóides e o misticismo reaccionário que faz dos principais partidos do Bloco Central a foz de todos os filósofos da traição.