a Sobre o tempo que passa: Fevereiro 2011

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

28.2.11

As novas opções políticas. Por Teresa Vieira.


Julgo que quem analisar ao vivo um conjunto de mecanismos como os que perscrutam e se infiltram nas atmosferas politicas dos dias de hoje, depreenderá que, afinal, tinham surgido, pelo menos duas opções muito claras por entre os regimes e os sistemas políticos existentes e em relação aos quais, qualquer voto bafeja e até mesmo a abstenção.

Referimo-nos à possibilidade de se poder optar por entre uma ditadura arejada ou uma democracia abafada, ou ainda por uma osmose das duas, se abandonarmos de vez tudo quanto constitui um princípio em si mesmo.

O papel destas opções, quais energias curativas da intranquilidade das sociedades, são edificadoras de um estilo de pensar à sombra do sol.

Ainda assim, as opções que acima referimos, ou mesmo a união de ambas constituem um infalível caminho de destruição da liberdade. Ao menos da responsável liberdade criativa, única que, no nosso entender responde à altura pelo nome.

Aliás, exactamente por essa razão de bem se orgulhar esta liberdade do seu nome e do que representa, é que nasceram estas opções a que acima nos referimos, numa aproximação artística de destruir autor e peça ou cansar ambos, ao ponto de confundir humanidade e expectativas, mas seguro ser o controlar de feição supostamente aternurada de qualquer esfera de vida.

Como refere o Professor Doutor Paulo Otero no seu magnífico livro A Democracia Totalitária, o totalitarismo surge (…) reunindo todo um conjunto de dogmas radicalmente opostos do modelo do Estado liberal então vigente na Europa e, deitando mão das palavras de Nicólas Pérez Serrano acrescenta, o quanto o totalitarismo comporta em si um verdadeiro esforço de divinização do Estado.

Ora, como não chegasse ter acontecido ao mesmo tempo, entre mim e o Professor Paulo Otero a comunhão de pensamentos e de investigação sobre a temática que se aborda no presente texto, a verdade é que ontem, ao relermos as palavras de Albert Camus na Peste e outras por nós escritas num texto publicado no Jornal Euronoticias sob o título O Tirano Que Sulca A Democracia, concluímos o quanto o bacilo da peste de facto nunca morre, mas antes se transforma numa suposta possibilidade de ditadura arejada e perversamente aberta a eventuais fenómenos democráticos que logo castra e, uma democracia abafada, igualmente perversa e sedutora por entre as naftalinas que tanto matam bicho como apodrecem ilusões e forças.

Em rigor o espaço de uma vida é curto para lutar contra as tais novas opções que a realidade nos demonstra existirem, e igualmente pouco o tempo necessário para que os homens acreditem que estão mais aptos à não liberdade do que ao desafio que ela consigo traz.
Referimo-nos à tal liberdade criativa e responsável, grande caminho que muitos seres não vêem ou dele se arredam para que se cumpram as vidinhas no descanso podre de um jornal matinal que mecaniza o pensamento até que à noite de novo o leve o sono.

Afinal, troca-se, como dizia Hobbes, a obediência pela protecção obediente quando se aceita o tal pacto de sujeição nele se englobando o direito de pensar e decidir.

Assim, quando no exercício da docência procuro transmitir aos meus alunos o quanto se inquinam gerações vendendo-lhes por comerciáveis os direitos inalienáveis, apenas os estou a alertar para os perigos dos modernos autoritarismos que, bem sabem dividir entendimento e resistência, soluções e salvaguardas numa proximidade de uma interpretação de Maquiavel, quando transfere para a imensa burocracia o poder anestésico de eliminar o homem.

Todavia, lembremos que também do Homem faz parte o fogo grego, único que arde debaixo de água, único que herda e transmite o quanto a dignidade humana é inviolável, o quanto qualquer forma de desprezo pelo ser humano subverte os fundamentos da própria democracia ao ponto de sob ela se erigirem os tais supostas novas opções politicas.

M. Teresa Bracinha Vieira
27.02.11
Sec.XXI

26.2.11

Um interregno desertificado, onde a caravana não passa

1
Debate quinzenal na nossa casa da democracia: foi 31 de boca contra 31 de boca, para glosar Silva Pereira... Pena faltar o discurso da palavra posta em razão ("logos" em grego). Mais um dos palcos desta campanha eleitoral permanente para efeitos sondajocráticos e de sessão de esclarecimento para as directas do PS...


2
E o PSD com tantos ex-líderes como treinadores de bancada quase parece um clube de ausentes-presentes, os que não jogam mas não saem de cima de todas as jogadas, como Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Pedro Santana Lopes e Luís Filipe Menezes, a que se vai juntar Jardim e onde não vão faltar outros Zandingas, como diria Durão....


3
Até as principais notícias da informação portuguesa são as de transferências de jogadores nos grandes órgãos de informação, naquilo a que se costuma chamar é poca do defeso, onde pouco interessam as cores da camisola, desde que saibam cativar desempregados políticos, à boa maneira dos velhos diários oficiosos dos antigos regimes e dos seus protectorados das forças vivas.


4
Entretanto os juros da dívida estabilizam o seu curso ascendente no normal anormal que todos os nossos truques e falsos consensos nacionais já não conseguem colmatar nem com o lastro dos sacrifícios.


5
Entre profetas da desgraça, os que pensam que isto é 1926 ou 1910, e o nacional-porreirismo, assim se vai degradando o situacionismo. Apesar de estarmos à beira do abismo, não conseguimos as tradicionais mobilizações que nos deram as legitimidades pós-revolucionárias de um rotativismo mais ou menos devorista que nos dava facturações....


6
Há um longo interregno de decadência, onde os excessos de acomodação da cobardia geram o voluntarismo do principado governativo, apesar de alguns ainda invocarem um presidente que não quer nem pode sidonizar o regime...


7
Foi mais uma vez Sócrates contra a Eloísa dos Verdes, tal como antes, a Passos Coelho, respondeu o ministro da presidência. Coitado, o Pedro foi excluído das listas pela antiga líder e actual deputada, e, involuntariamente, contribui para colocar a sede do poder fora do parlamento.


8
O PS, em excesso de principado unificacionista, embora menos esclarecido, tem de gramar a escolha que os marechais do rotativismo fizeram numa jantarada na Curia, pensando que o Zé apenas seria um líder de transição para a travessia do deserto. Enganaram-se, não sabiam que ele operaria uma espécie de cavaquização eucaliptal da instituição outrora pluralista.


9
O PSD, apesar de caminhar na via cavaquista, tem o barco pesado demais, com tanto marechal sem adequado senado, não podendo jogar flexivelmente com os velhos recursos autárquicos e regionalistas, nem consegue federar os muitos "clusters" de descontentamento existentes na dita sociedade civil...


10
Para o PSD, de pouco valerá a reedição de estados gerais, ao ritmo das comissões de honra, ad hoc, das candidaturas presidenciais. Porque ainda não encontrou suficientes dissidentes da esquerda, principalmente do PS, que queiram fazer o papel dos reformadores, como no tempo da AD de Sá Carneiro.


11
O velho e novo patronato não aposta no liberalismo a retalho, em época de potencial descida do FMI ou de outro fundo europeu. Faltam "opinion makers" com o ritmo de Miguel Relvas. Não há uma vaga de fundo de apoio à alternativa na opinião independente. E nem sequer é suficientemente democrata-cristão para convencer o altar. Muito menos os corporativismos à solta. Um choque de coragem, precisa-se!


12
Os grandes partidos continuam simples máquinas de conquista e manutenção do poder. Não sabem, ou não conseguem, exercer as funções de mobilização política e de comunicação política. E estão sitiados pelo indiferentismo e pelos processos de compra do poder, ou corrupção. Confundem a mobilização com as campanhas eleitorais e a comunicação com a propaganda.


13
A presente decadência, já patente, pode levar a uma crise de regime. Isto é, a uma má relação da sociedade com um determinado sistema de valores e que lhe dava legitimidade. Por outras palavras, mesmo sem magnicídios, podemos caminhar para um republiquicídio.


14
Podem não suceder dramatismos de opereta, das bancarrotas aos golpes de Estado, incluindo os provocados por uma explosão social, sendo bem mais previsível a tradicional antecipação das derrotas, onde os detentores do poder máximo invoquem o tabu nunca desfeito, o pântano nunca esclarecido, ou uma ascensão ao Olimpo supra-estadual, para não terem que aturar os bárbaros.


15
O nosso deserto continua a ser a sociedade civil e a opinião livre. Até a revolução de 1974 foi hierárquica, com majores arvorados em generais para que a pirâmide estadual continuasse, em movimento de revolução "vinda de cima para baixo". Até o processo revolucionário que esteve em curso foi uma espécie de subversão a partir do aparelho de poder, como o descreveu Sottomayor Cardia...

24.2.11

Líbia, ou o vazio de república universal



28
Só há arremedos de república universal quando os altos desígnios de salvação da humanidade coincidem episodicamente com os interesses de uma das grandes potências, a quem convém fingir-se de polícia do universo. As frases que hão-de salvar a humanidade já estão todas escritas. Falta apenas salvar a humanidade, como dizia Almada Negreiros.


29
A indignação retórica da comunidade internacional face a eventuais crimes contra a humanidade, nomeadamente o democídio, apenas demonstra como a justiça sem força é impotente, depois de se desperdiçarem forças nas areias de outros desertos. Rezemos para que a metodologia diplomática e a pressão multilateral metam medo ao tirano. Não quero ter vergonha do meu próprio tempo.


30
A Líbia está, mais ou menos, no meridiano da "Mitteleuropa" e quase no paralelo da Madeira, entre o Mediterrâneo e o deserto. Isto é, apesar de já ser africana, do resto do mundo tem de ser perspectivada como o quase Ocidente europeu, mesmo diante de Roma. Isto é, é tudo menos periferia...


31
Politicamente, Kadafi não passa de um subproduto do nosso colonialismo de ideias, principalmente da nostalgia da revolução perdida, como alguns dos nossos "maitres à penser" tentaram exportar para um qualquer lugar exótico de estranhas gentes, onde o poderiam exportar sem sofrerem as consequências...


32
Há por aí muitos que continuam, à boa maneira dos "philosophes", procurando um lugar de conselheiros de déspotas que os não podem unidimensionalizar. Daí que proponham revoluções em comprimido, como se os catecismos pudessem ser livros de receitas de outras carnes para canhão...


33
Há certas ideias de vulgata que acabam por ser mortíferas, quando geram laboratórios vivos de genocídios e democídios, mesmo que invoquem a impunidade revolucionária das boas intenções e a literatura de justificação das ideologias...


34
Todos os Estados que não são produto de uma cultura enraizada trazem consigo a semente do terrorismo, quando a respeitabilidade internacional confunde a segurança com a paz dos cemitérios e um qualquer monopólio da violência, mesmo que não seja legítima...


35
As nossas direitas e as nossas esquerdas têm os armários cheios de esqueletos, pelo que lamento as cenas do nosso parlamento de hoje, perdidas em jogos florais. Isto é, continuamos a ser enganados por nominalismos, plenos daqueles fantasmas e preconceitos que tanto santificam como diabolizam situações que nos continuam a falsificar...


36
A tirania não é de direita nem de esquerda. É uma besta a abater. E o nosso regime tem pelo menos a legitimidade de poder exigir que outros façam o que temos praticado no domínio dos direitos exigidos pela dignidade da pessoa humana. Kadafi não é dos etéreos da utopia, para ser tratado como uma hipótese académica, aquilo que no ensino do direito se dizem "casos práticos".


37
E importa recordar que o maquiavelismo, além de uma má moral, também é uma péssima política no médio prazo, mesmo quando pareça ter razão no curto prazo do negocismo e da diplomacia. E pior ainda quando se dedilham palavras como carisma, socialismo ou nacionalismo...

23.2.11

Entre um PREC em comprimido e uma Europa de bunga-bunga



1
Entre a Cirenaica e a Tripolitânia, o deserto aqui tão perto. Já não há mouro na costa, apenas exportação de consultadoria em betão e importação do petróleo, no carrito, no esquentador, ou no fogão. Ao pé dos bombardeamentos aéreos do despotismo, os camelos de Mubarak até parecem cordeirinhos...


2
Quanto mais intensa for esta repressão dos fósseis do costume, mais sangrenta será a viradeira, eventualmente marcada por dinâmicas tribais e teocráticas. Ou de como quem com ferro mata, com ferro pode morrer...


3
Deste despotismo iluminado, que se dizia terceira via e livro verde, quantos intelectuais lusitanos não houve que com ele confundiram a atracção pelo exótico a que chamam a utopia... Desde os adeptos nacionais-revolucionários aos que foram a teatro comicieiro no anfiteatro da Reitoria da Universidade de Lisboa, de tudo se viu.


4
"Vemos, ouvimos e lemos", mas continuamos a "ignorar"... Até os pretensos omniscientes não esperavam "tanta volatilidade no mundo árabe". Mas não faltam os que acreditam nestas manifestações de revolução contra a revolução, para que o pensamento científico possa derrubar os "dogmas religiosos" (relatos de um debate radiofónico de há pouco).


5
Os ilustres consultores das multinacionais do petróleo, do betão e da informática, os que nunca se indignaram com proibições de cultos e minorias votadas ao ostracismo, deveriam ter reparado na impossibilidade de exportações de conceitos abastractos sobre democracia, autoritarismo e totalitarismo, que os manuais de transicionologia até para nós continuam a traduzir em calão...


6
É uma estupidez pensar que é possível exportar o nosso Estado dito moderno e racional-normativo. Apenas por lá ficaram segmentos de Estado-Aparelho de poder (burocrático, militar e de coordenação empresarial) sem Estado-Comunidade. Ficaram os principados da personalização do poder, do clientelismo e da corrupção, numa sucessão de volatilidades fósseis...


7
Os exagerados custos de consultadoria nessas exportações oportunistas, nunca compreenderam o segmento do chamado risco político. Mandaram-no prrencher à pressa pelos novos licenciados em engenharia política que acham essa coisa da legitimidade comunitária mero engodo...


8
Todas as revoluções são pós-revolucionárias, sobretudo quando a transmissão dos poderes dos queridos líderes cai no mero hereditário e clientelar. Os brilhantes assessores e comedores da nossa estúpida eficácia contratual foram além de suas chinelas analíticas...


9
Todos continuamos com as nossas cabecinhas enfiadas nas areias de um deserto de ideias, onde apenas emitem opinião os conhecidos cobradores de comissões, percentagens e subsídios que sempre considerarm os violentados como meros danos colaterais...


10
A dita volatilidade do mundo árabe tem ligação directa com o nosso potencial regresso às vacas magras e ao consequente risco de evaporação das vacas sagradas de certa direita dos interesses e das suas alianças com os artistas de circo da pretensa esquerda moderna...


11
Bastou que o vento das areias entupisse uma estabilidade dita institucional, feita de fidelidade tribal e verniz teocrático, para que a ditadura dos factos começasse a ameaçar a tradicional banha da cobra que marca o ritmo da nossa informação espectáculo, com os nossos telejornais fazendo reportagens em directo de mentirosos fins da história.


12
Os velhos paradigmas dominantes que permitiam a facturação petrolífera e em materiais de segurança parece não aguentar o desabar da tenda e das esporádicas visitas...


13
Quando os ditos realistas de catecismo proclamam que fora deles só há as sombras do normativismo e do idealismo, estão a vender ideologia disfarçada de cientificismo.... Quem disse que os teóricos o podem ser sem experimentação? Outro argumento da habitual adjectivação diabolizante dos pseudo-realistas, para que se eliminem os dissidentes, incluindo aqueles que sabem de navegação, desse saber de experiência feito, só porque lhes dizem que não.  E há os que só são teóricos depois de serem práticos...


14
Voltem ao velho, mas não antiquado, paradigma de perspectivarmos o universal através da diferença. O que aí vem é aquele médio prazo de um diálogo onde vão participar os fiéis das grandes religiões universais e das tradicionais forças morais. Não haverá viragens históricas de telejornais em cimeiras intergovernamentais.


15
Espero que algumas das principais forças da minha civilização, nomeadamente os norte-americanos, aproveitem as boas relações provocadas por inimigos comuns, nomeadamente com a Rússia, para compreenderem o que se passa em democracias islâmicas como a Turquia ou a Indonésia. E que a Europa tire rapidamente a lição das circunstâncias.


16
Aconselho a todos que estudem a biografia de dois ocidentais convertidos ao islamismo: um, René Guenon (1886-1951); o outro, Roger Garaudy (n. 1913). Grande parte da geração que assumiu o poder em Portugal, neste regime, bebeu seus mitos neste ex-comunista francês e ex-patriarca dos cristãos ditos progressistas da nossa praça. Sobretudo a "Biographie Du XXe Siècle", Paris, Tougui, 1985...


17
Outro conselho: ler o Livro Verde do Coronel que bombardeia o seu próprio povo. E reparar como este enlatado catecismo não passa de um subproduto de nossas nostalgias revolucionárias, transformadas no definitivo de um PREC posto em comprimido


18
Eu sou contra essa das transições...Qualquer mudança não é regresso ao pretenso caminho de um processo histórico que outros nos escreveram, com os habituais guiões encomendados. Não é a história que faz o homem, são os homens que  fazem a história, mesmo sem saberem que história vão escrevendo. A história não é o resultado das intenções de alguns nem de planeamentismos, sejam económicos, politiqueiros ou securitários. O pior da história real do século XX foram esses ditos das boas intenções de que o inferno da realidade está cheio. Só há mudança e até progresso na epigénese, não na distribuição de antigos factores de poderes, mas na criação mobilizadora de novos fins políticos mobilizadores. Eis meus comprimidos epistemológicos, onde sigo tipos como Tocqueville, Hayek e Etzioni, os tais que já não citar porque falam por mim dentro.


19
Falem dos homens como eles realmente são e das leis como elas devem realmente ser (conselho de Rousseau, no começo do Contrato Social)...


20
Kadafi é uma das caricaturas de ocidentalismos que abrasaram o mundo. Tal como as revoluções do marxismo em comprimido que, no sol posto, instrumentalizaram os retratos de Marx, Engels e Lenine, para que um Estado Terrorista de exportação fabricasse o Terror, esmagasse as Vendeias internas e ocupasse as "républiques soeurs", chamando libertação à chacina!


21
O processo kadafiano é clássico. Primeiro, a libertação pela via de um golpe militar da federação de médias patentes. Depois, a junção da personificação verticalista do poder, com o propagandismo dos comités populares de base. No fim, a invocação de um terceira via de um qualquer "ismo" original.


22
Pelo caminho dos quarenta anos, Kadafi transformou o terrorismo interno, claramente inquisitorial, num modelo de exportação selectiva, com avanços, recuos e sucessivas chacinas. Um tirano clássico, pouco arabesco, mas com transmissões directas pela TV do respectivo teatro de Estado, de tenda armada... Felizmente não "libertou" os árabes nem África, apenas negociou com uma Europa berluconizada!


23
Reconheçamos que a ocidentalização globalista com que quisemos conquistar o mundo depois das descolonizações falhou. Tanto na "marxização", aparentemente eficaz com os seus catecismos e canhões, como pelo "doux commerce", com os seus ministros das finanças em "tratamentos de choque" à merceeiro. Tolstoi, através de Gandhi, ou o diálogo de civilizações à João Paulo II, são bem mais credíveis, embora de médio prazo.


24
Outro exemplo a assinalar está no referido René Guenon, quando, depois de pesquisar o que chamou de tradicionalismo, decidiu diluir-se no outro e misturar a respectiva via iniciática com o islamismo, no Egipto onde morreu, e no preciso ano em que eu nasci, representando toda uma geração de ocidentais que, indo às raízes, procuraram o exótico dos orientalismos.


25
Os encontros de Assis podem relembrar-nos a lenda de São Francisco, quando quis converter o sultão no Egipto. Este, disfarçado, revelou-se e disse admirá-lo, até porque lhe fazia lembrar os franciscanos do Islão, os chamados "sufis", até pelos hábitos, embora estes nem sempre façam os monges...


26
O universalismo ocidentalista não ganha nada com a emissão de generalidades e abstracções da habitual engenharia de conceitos que pretende unidimensionalizar as identidades. O universal só se atinge respeitando as diferenças, nunca com as conversões do Palácio dos Estaus, baptizando à força magotes de judeus que, depois, foram condenados a cristãos-novos, hipocrisia que não foi boa para as duas comunidades.


27
O multiculturalismo à londrina e o assimilacionismo à francesa, tanto se assemelham às nossas antigas judiarias e mourarias, como ao posterior inquisitorialismo de caça aos hereges. Vale mais integrar a Turquia na União Europeia ou admitir o crioulo como língua oficial portuguesa.

Síntese. De Teresa Vieira



Se este mundo e o outro se encontrassem a meio caminho
Ouvir-se-ia uma música cheia de olhares e sentidos
Entender-se-ia uma possibilidade
Um território
A partir do qual se queimariam todos os finais não desejados.

Teresa Vieira
23.02.11
Sec.XXI

21.2.11

Em nome de mestre Rousseau. O que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido...





Muitos dos que vivem da facturação protectiva desta anarquia ordenada, em nome de um securitário de pronto-a-vestir, estão agora a dizer que a democracia corre o risco de ficar dependente da vontade das maiorias, atirando a culpa para o velho Jean-Jacques, conforme rezam algumas vulgatas contra-revolucionárias, as dos tradicionais inimigos da mesma democracia. Por mim, admirador incontido de Rousseau e do seu "Contrato Social", uma das maravilhas da teoria política, resta-me reler as interpretações que dele fazem um Eric Weil, reconciliando-o com Hegel, ou um Karl Deutsch, que o faz conjugar com Kant.


Até em Portugal, o nosso melhor teórico da democracia do século XX, António Sérgio, retomando a senda, não deixou de assinalar a enorme diferença que vai da quantitativa "vontade de todos", quando todos decidem motivados pelo interesse de cada um, à sagrada "vontade geral", a única verdadeiramente soberana, quando cada um, ascendendo ao próprio todo, através de uma conversão cívica, abdica dos seus próprios interesses, transformando a sua própria conduta num exemplo moral, numa máxima universal, naquilo que Kant, o verdadeiro discípulo de Rousseau, vai qualificar como o imperativo categórico.


Por outras palavras, a verdadeira democracia só existe quando, através da liberdade do indivíduo, este lhe dá as raízes morais da sua própria autonomia. Logo, não há democracia sem esse esforço de cada um dar regras a si mesmo, no sentido de procura da perfeição e da consequente compreensão da coisa pública como um "moi commun".


É dessa sucessão de decisões individuais, onde cada um se assume como o próprio todo, que nasce a norma fundamental das comunidades políticas democráticas, casando-se o impulso liberdadeiro com o profundíssimo sentido da igualdade, através daquela comunhão identitária que é exigida pela virtude da fraternidade. Sempre foi este o sonho girondino que o activismo minoritário de certos jacobinos procurou dissipar com o curto-circuito do terror e, depois, com a usurpação bonapartista. Pelo menos, até Alexis de Tocqueville.


Foi esta a revolução francesa que triunfou a partir de 1815 com a moderação cartista da balança de podres, ou com a Revolução de Julho de 1830, quando a racionalidade liberal se casou definitivamente com a procura maioritária da igualdade. E mais não dizem os mais recentes consensos das democracias pluralistas, entre a poliarquia, o sufrágio universal e o Estado de Direito, conforme também subscreveram um John Rawls ou um Habermas, já depois da queda do Muro. Isto é, a democracia há muito que é demoliberal, com séculos de experimentação e de conciliação da revolução atlântica com velhos contraditores, como o foram, a partir de 1848, o socialismo e a democracia cristã. E como o poderão ser ex-comunistas e ex-fascistas, se tiverem a humildade de, para tanto, contribuírem.


Não haverá democracia como valor universal se não reinterpretarmos o sentido regulativo do contrato social de Rousseau, à boa maneira da procura do melhor regime (politeia) de Platão, ou da ideia romana de república, segundo o ritmo de Cícero. Foi o que semeou São Tomás de Aquino, até que Leão XIII emitiu a "Rerum Novarum", mas em 15 de Maio de 1891. Julgo que pode ser essa a linha de novas coisas novas que os choques de rua na Tunísia e no Egipto acabem por desencadear. A um alargamento da base de consenso universal da democracia. Sem exclusão do Islão.


Ai de nós se pedirmos ao mundo islâmico uma mera tradução em calão desse valor universal. Daí a minha esperança, porque a melhor forma de dialogarmos com os nossos vizinhos da outra margem do velho mar interior, mediterrâneo, talvez passe por nos expatriarmos nas nossas próprias origens, procurando os lugares comuns donde brotámos. E aí, Platão e Aristóteles, tal como Maimónides e Averróis, poderão voltar a ser pontes para que conjuguemos deuses comuns.


Como já o fizeram os construtores do Estado de Israel. Como o Mahatma aplicou na Índia, através de Tolstoi. E como Confúcio está recuperando na China. Basta registar a via da actual Indonésia, ou o percurso da Turquia. Porque todas as civilizações universais são filosoficamente contemporâneas no intemporal, todas têm as mesmas raízes do político e todas podem encontrar experimentações similares, em termos de mais liberdade, mais igualdade e mais fraternidade. Se houver homens de boa vontade que admitam o regresso dos deuses do espírito às nossas cidades antigas, pode voltar a ser conjugado o velho princípio tomista do QOT, adoptado pelas Cortes de Coimbra em 1385: o que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido.

20.2.11

Pedro Mantorras: o sonho interrompido. Por Teresa Vieira


O tempo de cumprir um caminho é muitas vezes radicalmente injusto. Deveria ser possível castigá-lo se acaso num segundo se vira contra o detentor da asa que assinala a surpresa das manhãs.

Mantorras entrava em campo em sofrimento, sem resignação.

Mantorras proprietário das fábulas derrotou qualquer cópia dele mesmo e ganhou a irreprodutibilidade do lance.

Derrotou de vez a possibilidade ser imitado.

Assim cada um de nós no nosso pedaço de espaço ou fragmento de vida possa compreender a dimensão de alguém que impediu a coragem de lhe levantar a voz.


M. Teresa B. Vieira
20.02.11
Sec. XXI

18.2.11

Um dia de Polska, cá na Lusitânia. E treze notas de teoria sobre a subsidiariedade e o federalismo, com a Dona Europa em fundo


1
O dono do Pingo Doce, Soares dos Santos, foi amargo, ao teorizar os truques de Sócrates e ao anunciar, não que mudaria a sede para Varsóvia, mas que enviaria para a Polónia 80% dos investimentos do grupo. Talvez sem ser por acaso, o professor Jerzy Buzek veio aconselhar-nos a novas políticas de "reformas estruturais" e alinharmos numa "grande coligação". A cara do nosso primeiro diz tudo. Estava a pensar nas 14 000 algemas chinesas e na apreensão de material sonoro em Murça.

2
Buzek, ilustre presidente do Parlamento Europeu, histórico militante do Solidariedade e representante do Partido Popular Europeu, tem um currículo de resistente e de governante democrático que merece a nossa profunda admiração. Mas as suas palavras, desinseridas do contexto e transformadas em frases soltas podem contribuir para que se agrave a nossa esquizofrenia.

3
Com efeito, um dos princípios básicos da nossa organização europeia é o princípio da subsidiariedade, um lugar comum que tanto é defendido pela primeira doutrina social da Igreja Católica como pelas teses do pluralismo inglês e do institucionalismo. 

4
Num corpo político, as parcelas, apesar de relacionarem hierarquicamente, cada uma delas desempenha a sua função, ou o seu ofício, e, para tanto, são dotadas de autonomia, a base da diversidade onde a união é conseguida pelo movimento de realização do bem comum. 

5
O poder político não está apenas concentrado na cabeça do corpo político. Pelo contrário, reparte-se originariamente, constituintemente, por todos os corpos sociais dotados de perfeição. Deste modo, cada corpo social tem um certo grau de autonomia para a realização da sua função. 

6
E o corpo político não passa de uma instituição de instituições de um macrocosmos de microcosmos e macrocosmos sociais, de uma rede de corpos sociais, de um "network structure". Porque há uma diversidade que apenas se une pela unidade de fim, pela unidade do bem comum que a mobiliza. 

7
Portanto, uma sociedade de ordem superior não deve intervir na esfera de autonomia de uma sociedade de ordem inferior, da mesma maneira como uma sociedade de ordem inferior também pode transferir funções e consequentes poderes para uma sociedade de ordem superior. Porque o princípio da subsidariedade é o mesmo que o princípio da subjectividade da sociedade. 

8
Segundo tal princípio, cada sociedade é perspectivada como um sujeito e não como um objecto ou como um contrapoder. Que vários níveis de sociedades políticas podem coexistir sobre a mesma multitudo. Porque sendo a "polis" mera essência relacional, cuja essência substancial é o indivíduo, pode este desdobrar-se participativamente, conforme os interesses e os bens comuns que lhe dão comunhão com os outros. 

9
Trata-se de um pluralismo que se distingue tanto do individuaalismo atomicístico como do holismo colectivista, dado que pretende conciliar os contrários da diversidade, sem fragmentação, e da unidade, sem negação da autonomia das parcelas que integram o todo. 

10
Indo mais fundo, podemos dizer que o princípio da subsidiariedade retoma o conceito de bem de Aristótoles, segundo o qual todas as coisas tendem para a perfeição tendem para a realização do seu bem, da sua causa final, São Tomás de Aquino estabeleceu a noção de bem comum como a síntese da ordem e da justiça. Francisco Suárez fala, depois, num "bonum" "commune societatis civilis", que constitui uma realidade distinta tanto da felicidade natural.
  
11
Logo, mesmo quem defenda uma perspectiva federalista da Europa não a pode conceber senão como uma democracia de muitas democracias, pelo que nunca será verdadeiramente democrática e pluralista se nos tentarem obrigar a um "pronto-a-vestir" que pode ter servido para outros, noutras ocasiões, mas que, por enquanto, está na esfera de autonomia da democracia dos portugueses.

12
O presidente do Parlamento Europeu pode e deve defender defender o federalismo constante do programa da multinacional partidária a que pertence, isto é, deve assumir a necessidade de uma governação económica da Europa, principalmente na zona da moeda única. Não pode é dar a imagem de pôr o carro à frente dos bois, invertendo o princípio da subsidiariedade. Isto é, sugerir uma governação política de um dos Estados Membros, segundo o ritmo conveniente para o eixo que nos hegemoniza.

13
Julgo que essa imagem, talvez involuntária, tanto desprestigia a presente Europa, como confunde os próprios princípios do federalismo. Porque nos pode afunilar numa via estreita de mero entendimento interpartidocrático entre as duas principais multinacionais de um sistema de directório. Exactamente o que, entre nós, tem como secções nacionais o PS, de um lado, e o PSD e CDS, do outro. Isto é, faz com que o soberanismo saia do nível nacional, pela porta do tratado, e entre pela janela do eixo intergovernamental, de forma clandestina.


*Imagem da Europa  de 1592, da biblioteca Strahov.


17.2.11

Heréticas reflexões de política internacional, em dia de raiva


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Ben Ali está doente. Mubarak, idem, aspas, aspas. Já no Bharain, na Líbia, no Irão, enquanto eles não estão em comas, vai de malhar. É tudo um problema psicossomático, sobretudo para quem não tem jogos das ligas europeias, logo à noitinha, nem eternos processos de faces ocultas, sem Berlusconi nem repúblicas de juizinhos...


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Está mais do que demonstrado o irrealismo dos chamados realistas que reduziam a política internacional a simples bolhas de bilhar no tabuleiro geopolítico dos Estados em movimento. Esses que conceberam o progresso como mero teleponto de conclusões discursivas de uma cimeira intergovernamental.


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Durante mais de duas décadas confundiram o fim da história com essas promessas de uma ilusão de bem estar a que deram o nome de globalização e desenvolvimento, pensando que a coisa era tão fatal como o nascer do sol, todos os dias.


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Protegeram tiranos com subsídios, conselheiros militares e escudos de espionagem, sem quererem saber de povos, pensamentos e suas identidades. Até pensaram que podiam substituir cartilhas de marxismos por outros quaisquer comprimidos empacotados, não querendo saber dos mitos que movem as civilizações.


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Alguns chamaram a tal patranha ciência da estratégia e quiseram transformá-la em recinto esotérico para deleite de falsas elites que nem os bois à frente do palácio conseguem topar... E até deixaram que parcelas fundamentais da cidadela universitária fossem assim assaltadas, clamando contra os hereges.


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E muitos nisso continuam entretidos, julgando que assim podem conter os feitiços que engendraram, essas criaturas que, libertando-se dos pretensos criadores, estão a pôr em causa a bela ordem que a todos os pariu.


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Já chega dessas servas de uma nova teologia, onde legiões de novos clérigos, mancomunados com o diabo do pretenso irmão inimigo, vão brincando a revoluções, contra-revoluções, armamentos outros tráficos, dando uma falsa imagem do ocidente, só porque nos proíbem de o pensar e de o vivermos como pensamos. Acorda, Europa!


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Pobres de nós, simples coitados, se nos deixarmos ser mero mercado de notícias enlatadas, cotações de juros e blindados, tudo reduzindo a manuais de instruções e procedimentos de quem, sendo agente, não nos deve comandar.


*Imagem de Qal’At Al-Bahrain. Antiga fortaleza portuguesa lá do sítio, quando ainda pensávamos pela nossa própria cabeça.

16.2.11

16 de Fevereiro de 2010


16 de Fevereiro é dia de memória. Quem me conhece sabe porquê. Não querendo confundir os planos, mas ousando quebrar o silêncio, apenas agradeço a quem compareceu às cerimónias, primeiro, em Díli, depois, em Lisboa, na Basílica da Estrela. Todos olhámos o céu e de lá veio o sinal de sempre. Um beijo, Ana!

Coca-cola, pirolitos avariados, Berlusconi e geração-viagra



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Afinal, isso da cola não era coca, mas tanga, ou melhor, golpe de "Marketing" da marca. Por cá, só golpe de "Merkl", com o Teixeira a dar entrada em Belém e o Costa do banco a reconhecer que já estamos em recessão. Passos, de cruz em bruxas, diz que só se chegarmos a um Beco sem saída. Deve ser o do Chão Salgado, ao lado dos Pastéis...


2
Uma das principais conquistas da liberdade de a bebermos, a tal que, primeiro, se estranha e, depois, se entranha, dizem, perdeu o mistério da receita. Ainda não tentei ir à cozinha experimentar o modelo, mas "se non è vero, è ben trovato."


3
Também havia o general coca-cola, conforme o PCP de então... Depois de Abril, houve um candidato coca-cola, quando passou da esquerda para a direita. Aceitam-se palpites. Mesmo que seja um desmentido do próprio.


4
Os serviços de saúde pública cá da Lusitânia, julgo que em 1928, decidiram interditar o produto. Consta que o respectivo hierarca terá determinado: "se o produto corresponde ao título, é droga; caso contrário, é publicidade enganosa".


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Quando o produto foi, de novo, lançado no mercado, era eu um jovem técnico-jurista da extinta Direcção-Geral do Comércio Alimentar e participei na coisa com um parecer: propunha o cumprimento integral da lei da rotulagem. E a coisa lá teve que vir, por vezes na "carica". No velho processo em arquivo, até cunhas do Cardeal Cerejeira estavam...


6
E faço, desde já, uma declaração de interesses: gosto mesmo dessa água choca... Mas também gostei dos pirolitos, os dos berlindes em vez de caricas ou rolhas...que se abriam com um pau...Também estes foram adequadamente proibidos pela antecessora da ASAE, a tal que chegou a ser dirigida pelo futuro chefe da PIDE, o Silva Pais...


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Agora os pirolitos andam todos avariados... O salazarismo era aquele regime no qual se dizia que o pirolito era a medida de todas as coisas...agora são os pirómanos-bombeiros...


8
Deixo o "slogan" da proibição da Coca Cola: "beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses". O problema é que era quase verdade... Ainda não havia Alentejanos... Também tenho um "zê" em Maltês... Isto é, sou um erro ortográfico desde que nasci


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A hermenêutica do futuro não se confunde com a mera interpretação autêntica do decretino, onde parece ter razão quem vence. Quem se unidimensionaliza pelo hierarquismo vertical engana-se. Pode ser que os dissidentes tenham com eles a força da razão, contra a razão da força


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Há uma certa geração viagra que, de forma revisionista, julga que apenas se registarão os epitáfios que todos os dias vão esculpindo, julgando que controlam a mera história dos vencedores. Como se ela fosse uma espécie de biografia autorizada pelos autores, onde apenas se irão ler as actas que eles próprios escreveram....


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Suas ministeriais excelências são muitos infernos cheios de boas intenções que o raio das cotações, das taxas e dos mercados, dia a dias, nos desmentem, mesmo que se vistam de zorrinho e se conjuguem à manel pinho, no "dominus vobiscum"...


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Berlusconi vai mesmo ser submetido a um tribunal. Nem tudo o que o príncipe diz tem valor de lei; e o príncipe está sujeito à própria lei que edita...


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Deixem-no lá estar. Assim não teremos, por cá, as direitas e as esquerdas mais estúpidas do mundo. Apenas confirmaremos que ele é um dos rostos da Europa a que chegámos. Não é porreiro, pá! É uma vergonha...


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O povo são as camionetas de turismo para a terceira idade com que vão enchendo de figurantes as récitas capitaleiras do sindicato do elogio mútuo e os sucessivos cenários das homilias com que reelegem a oposição que lhes convém...


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A razão de Estado, sem Estado-razão, continua no tem-te, não caias. Têm o apoio das oligarquias que, por eles, continuam a facturar, a legislar, a regulamentar e a interpretar as vírgulas com que conjugam o pretenso monopólio do interesse nacional...


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Os adjuntos de certos descendentes dos negreiros pensam que o povão apenas come e cala, enquanto o pau vai e vem e lhe folgam as costas. Mas há quem não queira ser gladiador de certas castas que se vão adaptando ao devorismo dos vários regimes, entre música celestial e discursos de fazerem chorar as pedras da calçada.


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Por cá continua a gestão de interesses e pressões que tentam fazer dos intelectuários meros decoradores de salão de uma decadência típica dos fins de regime, onde feitores de ricaços alienígenas continuam a instrumentalizar adesivos e viracasacas, esses porta-vozes dos donos de seus costumes que nos continuam a escravizar.