a Sobre o tempo que passa: Outubro 2004

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

31.10.04

Indisciplinado, irreverente e inadaptado ao servilismo

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Em Portugal, a chamada tolerância, isto é, a possibilidade que temos de dialogar com os adversários no espaço público, bem como a própria democracia pluralista e representativa, não constituem uma concessão de alguns políticos que se consideram a si mesmos como os pais da democracia. A democracia que temos vivido, construído, reconstruído e contestado não nos veio através de uma qualquer carta constitucional emitida pelo absolutismo de um qualquer fundador do regime. Até poderíamos dizer que a presente pós-revolução foi imediata consequência da contra-revolução, tal como esta derivou mais da revolução do que do regime que esta derrubara.

Ao contrário do que começa a ser moda no discurso de certos pretensos fazedores de opinião, a chamada direita constituiu partidos e movimentos e até chegou ao poder, não por concessão da esquerda, mas por direito que conquistou através do poder de sufrágio, depois de se praticar a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e a liberdade de associação, muitas vezes, através de uma resistência viril, onde até não falataram actos de violência, contra a intolerância revolucionária.



O Dr. Mário Soares comandou a revolta da Alameda porque o Senhor D. Francisco Maria da Silva e o sr. cónego Eduardo Melo convocaram manifestações em Braga. O Dr. Mário Soares, que viveu na ilusão do frentismo popular até ao fim do primeiro trimestre de 1975, foi impulsionado para apostar no pluralismo só depois da questão da anti-unicidade sindical, liderada por Salgado Zenha, e da defesa do jornal República, assumida por Raúl Rego, e graças ao apoio de Frank Carlucci e Donald Rumsfeld.

Os católicos portugueses, liderados pelos bispos-condestáveis, são uma das principais fundações do regime democrático português, conforme foi delineado pela aliança vencedora do 25 de Novembro de 1975. Não existiria PPD/PSD se os "meninos do bispo", isto é, de D. António Ferreira Gomes, se não assumissem à maneira de Francisco Sá Carneiro. Julgo que os católicos deste regime não precisam de pedir certificados de bom comportamento democrático aos actuais historiadores oficiais do regime que, nesses anos de libertação, nos queriam conduzir para as experiências albanesas, maoístas ou polpotianas.

O confusionismo gerado pela questão Buttiglione está a fazer a renascer certa perspectiva pombalina e jacobina que conecebe um militante cristão como um inevitável fundamentalista. Ainda noutro dia fui alcunhado de pretenso liberal porque disse que grande parte das nossas instituições de direito civil derivam do plurissecular conúbio com o direito canónico, incluindo o casamento. Aliás, até poderia dizer, sem qualquer originalidade, que o próprio Estado Laico é um substituto monoteísta, tal como as duas instituições que o tornam possível, a soberania e a representação são oriundas da teologia.

Mais provocatoriamente, poderia dizer que os factores democráticos da formação de Portugal derivam dos concílios da monarquia visigótica. Que a ideia de soberania popular é, sobretudo, um produto do processo do tomismo e, fundamentalmente da neo-escolástica peninsular, principalmente das teorizações de Francisco de Vitória e de Francisco Suárez. Até acrescentaria que parte das teses de Rousseau, no que ele tem de perene, derivam do "Tractatus Theologico-Politicus" do judeu Bento Espinosa. E que muitas das tolices de Lenine são uma má adaptação dos modelos dos "velhos crentes", onde a própria estrela vermelha deriva da estrela de Belém.

Todas estas pretensas tretas talvez não caibam na cabecinha de ex-maoístas que se democratizaram rapidamente e em força ao fazerem más traduções das excelentes teorias da liberdade e da democracia do recente mundo anglo-americano. Porque importaram o conteúdo doutrinário de tais posturas metendo-o no estilo e na forma típicas da mentalidade de extrema-esquerda, não admirando que andem por aí protestantizando o catolicismo ou inquisitorializando a democracia.



Assim, não compreendem a origem da democracia-cristã, de Le Sillon a Luigi Sturzo e logo qualificam João Paulo II e Rocco Buttiglione como ultra-reacionários e ultra-conservadores, gente da bárbara extrema-direita fundamentalista. Por outras palavras, qualificam o papa que liquidou o integrismo lefebvriano e a marxistóide teologia da libertação com a estreiteza dos que querem continuar a conjugar os verbos de "Syllabus" e do "Papa-Rei".


A escala mental do dogmatismo é bastante semelhante à da ignorância que não é douta. O simplicismo dos primários que tudo reduzem ao preto e branco não consegue admitir a complexidade do arco-iris. E tudo se agrava neste Portugalório onde a mentalidade de quintal faz agravar os vícios do corporativismo, do doutorismo, do fidalguismo e do sectarismo, onde muitos escrevem as linhas justas daquilo que decretam como a direita, o centro e a esquerda.



Depois, até exigem autorizações eclesiásticas, com o devido "nihil obstat" para que cada se possa declarar desta ou daquela posição. Por exemplo, quem como eu se diz quintimperialista, devoto de Agostinho e Pascoaes, corro o risco de ser pretenso, só porque não presto menagem a assinados maçons que pensam ter o poder de determinar quem pode citar e invocar tais mestres, só porque pensaram atravessar a via do iniciático e têm os segredos de tal ritual. E nem sequer me posso declarar pessoano sem pedir autorização para tal ao presidente da câmara municipal de Lisboa que tem poderes para nomear directores da Casa-Museu do poeta, os quais, em nome desse decretino qualificativo, se arrogam como supremas autoridades nas interpretações políticas e literárias dos escritos guradados na arca do amigo de António Ferro.

Se, por outro lado, me digo liberal, logo me acusam de nunca ter ido a Oxford, de não sido aluno do mestrado do Doutor Espada, ou de não ser suficientemente ateu ou agnóstico, ou descendente, primo ou afim de um qualquer desses vultos do devorismo ou do rotativismo. Aliás, ai de mim, que sou um confessado admirador do Padre Casimiro, de António Ribeiro Saraiva e do Visconde de Santarém e que elogio integralistas como Sardinha ou Luís de Almeida Braga.



A intolerância é tanto que não tardará que proponham o meu internamento imediato num desses centros de desintoxicação de ideias. Qualquer dia, até posso ser demitido porque aqui tenho verberado a maneira como os reponsáveis pelo nosso ensino superior têm conduzido as questões. Mas seria ridículo que um Ministro ou um Secretário de Estado concluíssem pela indisciplina, irreverente e grave conduta, que revela, de facto, impossibilidade de adaptação às exigências da função que exerce, só porque tenho escrito o que penso, mesmo contra um ministro de 1962 que assim demitiu um professor catedrático e que agora sentencia todos os dias o que deve-ser uma universidade e um professor.

30.10.04

Palavras de um anónimo atento



A propósito do encerrado caso do bode expiatório Buttiglione, defendido publicamnete pelo papa, mas curiosamente silenciado pela igreja lusitana, recebi de pessoa amiga, com pergaminhos antifascistas, uma enriquecedora nota que aqui publicito. Infelizmente, não posso incluir um editorial de António José Teixeira no "Jornal de Notícias", porque o mesmo desapareceu da edição "on line", onde, muito deliciosamente, o italiano e, consequentemente, o polaco, eram enfileirados entre os "inimigos da democracia". Pobres católicos que queiram ser cívicos, coitados dos islâmicos e dos protestantes... Só se formos todos Cohn-Benedict é que poderemos obter adequado certificado de bom comportamento democrático...

E aqui vai a nota:

E eis que o Expresso descobriu que:

O Senhor Rocco Buttiglione é doutorado em filosofia, companheiro de tertúlias com o Papa e que é assessor de uma comissão pontifícia do Vaticano para além do Berlusconi não gostar dele do Durão ter que o aceitar porque mais ninguém queria ser Comissário ao lado de entidade tão convicta e de o tal Rocco ter um sangue que dá nos resultados: “clerical-positivo”.

Isto é o máximo da cultura jornalística do jornal que se entende ser leitura de gente culta de pseudo-esquerda ou moderada direita envergonhada e de jornalistas cultos e inteligentes…

Como dizia o Xico B. de Holanda na sua canção, “diz que Deus diz que dá, diz que Deus dará, dará, e se Deus não dá? ó negra o que é que a gente faz?”

Entretanto muitos dos alunos de direito, muitos mestrandos e doutorandos vão entendendo que quem dá “matéria” nestas universidades do jus é quem conhece os nºs dos artigos dos códigos de cor e que muito se cinja no que tem a dizer porque o resto não interessa à vida da ampulheta do tempo que rende milhões futuros se o artigo do dito cujo código for o 69 em qualquer posição ou possível interpretação material ou formal adjectiva ou substantiva ex ante ou ex post facto dotado de coactividade ou coercibilidade ainda que possa haver falta de vontade CC 240º?, incapacidade do agente , CC 120º?, ou a necessidade de alguma providência cautelar não especificada que deve estar lá para as bandas do direito processual e tudo omnis potestas a Deo que depois nos doutoramentos se dirá qualquer coisa sobre a pandectística alemã do século XIX e que Savigny é que a sabia toda do lado activo e do lado passivo do sujeito em relação à sua capacidade de gozo e exercício de por si definir as relações com as pessoas colectivas entrando-lhes na esfera com toda a força de um direito potestativo e corpóreo ainda que todos despidos do seu imperium mas com progenitor comum via procriação em linha recta e desde que todos saibam o que é um acto de comércio na vertente da primeira ou segunda parte do artigo a que ele se refere e que crime ou delito ou honra ou ética são noções a interpretar por normas de conflitos doseadamente hermenêuticas e que sempre constituem aditamentos de estudo não obrigatório.

Acresce que todo o curso de direito bem como qualquer saber titulado pode ser interpretado a contrario sensu tendo em conta a vastidão de todos os trabalhos preparatórios para qualquer legislação que se preza de ter em si elementos históricos próximos e remotos e daí a occasio legis que a todos estende a mão da hipnose através da atribuição de um qualquer canudo ou título que sempre opinará nos casos omissos nas lacunas rebeldes com efeitos retroactivos e que a constituição tenha em si a interpretação autêntica de que se A pagou a B 500 e só deveria ter pago 100 então que se estabeleça outra coisa mas que B nunca devolva os 400 isto acima de tudo porque só se deve trabalhar com leges favorabilis correspondendo esta situação àquela em que se sustenta a aplicação das leis no espaço onde dada a altura se não reconhecem hierarquias.

Diga-se por fim e a jeito de resumo que sempre a parceria pecuária 1121º e ss se trata de um contrato não solene mas que implica a repartição de lucros havidos como no caso de A entregar a B uma vaca em parceria “de meias” e ainda que tudo redunde num contrato de empreitada tão-pouco se confunde com a separação judicial de pessoas e bens e muito menos com a teoria dos instintos dos sofistas principalmente as teses Tucídides sobre o direito natural dos mais fortes.

Eis que Hobbes supera todas as expectativas ou não fosse o direito positivo autoritário o único direito soberano sem que se faça qualquer esforço de racionalidade.

Acresce que qualquer vaga ocorrida intempestivamente em órgãos do poder deverá ser de imediato preenchida pelo cidadão imediatamente a seguir na lista de espera tratando-se de coligação ou não e a fim de que o mandato conferido não constitua precedência de instabilidade institucional conforme a interpretação do mais alto dignitário da urbe

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29.10.04

Os desvios antidemocráticos dos pretensos democratas



O caso Buttiglione e assinatura do Tratado da União Europeia constituíram excelentes reveladores dos estados de alma dos nossos rotativos comandantes da partidocracia, Presidente da República e ex-candidatos a Presidente da República incluídos. Comecemos por estes últimos, especialmente pelos argumentos de Diogo Freitas do Amaral, segundo os quais Rocco Buttiglione não tinha condições para exercer as funções de comissário europeu devido às respectivas posições sobre a homossexualidade e a visão da mulher no casamento, porque tais perspectivas ofenderiam tratados europeus contra a não discriminação sexual.

Não temos os pergaminhos teológicos do ex-presidente da União Europeia das Democracias-Cristãs e, muito menos, nos queremos imiscuir nas polémicas de sacristia que o dito cujo tem com o movimento "Comunhão e Libertação", nessa quase reedição das divergências de Salazar face a João XXIII, pelo que nos absteremos de considerar qual dos dois, nesse domínio de relações com o transcendente, é mais reaccionário ou mais progressista. Diremos apenas que, no plano político, seguindo o actual raciocínio de Diogo Freitas do Amaral, nunca ele, como anti-socialista, poderia ter sido ministro de um regime constitucionalmente socialista, ter fundado um partido democrata-cristão, ou ser líder partidário num regime contra cuja Constituição ele tinha corajosamente votado.



Se o que Diogo Freitas do Amaral proclamou corresponde ao que ele, na verdade, pensa, somos obrigados a concluir que o antigo líder partidário tem um entendimento intolerante da tolerância, porque quer fazer aos outros o que os conselheiros da revolução abrilistas não lhe fizeram a ele. Até poderíamos concluir que o respectivo centrismo reúne o que há de mais intolerante na esquerda e na direita. Apenas espero que os meus ouvidos estivessem com cêra a mais e que a culpa tenha sido minha, pelas dificuldades de captação divinal.

Espero também ter ouvido mal o que foi declarado, hoje, pelo Primeiro-Ministro de Portugal em Roma, sobre a circunstância de o nosso governo ir organizar uma campanha de propaganda oficial pelo Tratado Constitucional europeu, visando esclarecer o povo para este possa votar a favor do mesmo. Ou que o Presidente da República possa apelar à participação dos portugueses, para estes aprovarem o Tratado, naquilo a que dão o vergonhoso nome de discussão séria da Europa, em nome dos princípios do debate e da cidadania.



Se assim for, passámos a viver em verdadeiro estado de sítio democrático. Porque, mesmo que Pedro Santana Lopes, Jorge Sampaio, José Sócrates e Paulo Portas se entendam, eles não são os donos da democracia. Mesmo que oitenta por cento das forças políticas portuguesas sejam unânimes, o contraditório tem de existir e um referendo ainda não é o mesmo do que era um plebiscito na URSS ou do que foi o plebiscito que aprovou a Constituição de 1933. Se continuar este propagandismo, onde os jogadores são os próprios árbitros, insinuando-se que os outros, os que duvidam ou estão contra ao presente tratado, são maus europeus e , logo, maus portugueses, ficamos sem saber para que serviu o 25 de Abril. Ou então, temos que pedir ajuda a instituições internacionais que aqui venham impor um acto referendário que obedeça ao princípio onusiano das eleições "fair and free". Que o ex-presidente Carter, depois de controlar o acto eleitoral no Burkina Fasso dê aqui uma saltada para sugerir que se acabe com esta bombochata que se anuncia.

A pretensa tolerância intolerante, ou o anti-dogmatismo neo-dogmático, poderá até determinar, misturando os princípios de Diogo Freitas do Amaral com os entusiasmos discursivos de Pedro Santana Lopes e Jorge Sampaio, que:
- ninguém poderá ser político patriota, caso não subscreva o Tratado Constitucional europeu;
-ninguém pode ter princípios religiosos num Estado Laico;
-ninguém pode ser liberal num regime socialista;
-ninguém pode ser socialista num regime liberal.

Tenham juízo e sejam democratas pluralistas. Quem é do contra não é traidor à pátria nem a anti-nação. Ou então façam uma lei como a de Salazar, dizendo que os que se abstiveram serão considerados apoiantes do tratado em causa. Mas se, em vez de Salazar, quiserem ser como os partidários de Afonso Costa, façam como nas primeiras eleições da I República, dispensem os cidadãos da ida às urnas nos círculos onde não se apresentar a oposição. Aqui d'el rei!.. Oh! da guarda!

Contra esta Constituição Europeia!



Os 25 chefes de Estado ou de Governo da União Europeia acabaram de assinar hoje, em Roma, o Tratado Constitucional, numa cerimónia ensombrada pelo atraso da entrada em funções da Comissão Europeia chefiada por Durão Barroso. Apenas as esperançosas palavras de Jorge Sampaio vieram dar luz a este dia cinzento, quando considerou que "a via mais adequada para melhor envolver os portugueses no projecto europeu" é realizar um referendo, apelando"para que façamos do referendo pela Europa uma causa comum" e que "este exercício represente uma ocasião para fazer de cada português um europeu convicto". Como português convicto, rejeito a pressão exercida pelo meu Presidente. Dizendo não ao referendo posso continuar a ser um europeu convicto.

Julgo que importa furar o bloqueio de um sistema político em degenerescência, onde o oligopólio partidocrático instalado continua a abusar do poder. Porque Sócrates está neste ponto coligado com Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa com Rui Gomes da Silva, tal como Sampaio se não diferencia de Cavaco e Buttiglione bate palmas a António Vitorino. Há que não entregar a soberania individual a entidades que apenas nos pedem que plebiscitemos os partidocratas instalados. Há até que temer alguns dos vícios do rotativismo, a fim de se poder regenerar o sistema político. É urgente que apareçam aqueles que querem um Portugal com efectiva independência política e que estão dispostos a colocar a mais velha nacionalidade no próprio centro da Europa, reagindo contra a hipótese de nos tornarmos em mera região autónoma de certos conceitos de uma Europa apátrida, dominada pelos Estados-Directores do neo-imperialismo da razão do Euro-Estado. É urgente lutar por uma Europa vista como unidade na diversidade, reforçando as famílias políticas que subscrevem as liberdades nacionais, sem as quais não existirá a Europa.

Por isso, às vezes quase apetece subscrever o senhor D. Pedro V quando este denunciava os "pretensos progressos materiais", quando estes encobrem "uma grande corrupção e uma grande chaga moral", recordando que "os nossos homens públicos odeiam a inteligência porque é um título de superioridade". E repetindo o mesmo monarca, importa assinalarmos que "uma nação como a nossa tem tudo a perder e nada a ganhar no jogo dos grandes". Logo, no contexto europeu, não podemos voltar a ser a tal "nulidade em que nos colocamos voluntariamente".

Quando grande parte da revolta contra o presente decadentismo situacionista pode levar à abstenção ou ao desespero de uma aposta em representantes de ideologias revolucionárias, há que assumir uma espécie de patriotismo científico e apoiar as individualidades e as forças políticas e morais que defendem uma Europa diferente para o Portugal de sempre, garantindo a fibra multissecular que continuarmos a prosseguir a nossa vontade de sermos politicamente independentes.

É fundamental que os portugueses que o querem continuar a ser politicamente independentes e que estão descontentes com algum dos desvarios de um situacionismo que nos transformou em mera consequência do paralelograma de forças da balança europeia e mundial, mantenham os princípios da tradição portuguesa de resistência. Subscrevo, pois, Pacheco Pereira, quando este, no Abrupto, denuncia: a falta de pluralismo no debate português sobre a Europa vai inquinar toda a discussão para o referendo. O falso consenso PSD-PP-PS tende a empurrar para as margens da política os defensores do “não”. Por outro lado, a maioria dos jornalistas, que cobrem a questão europeia. são eles próprios militantes europeístas radicais. O resultado é que de há muito se perdeu qualquer pluralismo efectivo, em que os debates se fazem dentro dos partidários do “sim”, e das suas diferentes sensibilidades. Recordam-se de, a não ser por absoluta excepção, e fora do PCP, terem ouvido nos grandes órgãos de comunicação social criticar a Constituição europeia? Estou ao lado de António Barreto quando este defende uma Europa da pluralidade radical: Esta é a minha Europa; não é o federalismo europeu, que destrói a pluralidade das culturas. A Europa que está em construção pode ser travada com a não aprovação da Constituição. Ao contrário do que se pensa, as coisas nunca são irreversíveis na vida: as nações vão por certos caminhos e de repente podem fazer marcha atrás.

28.10.04

Marcelo no DN e Balsemão PR



O meu amigo Giraldo, que ainda é militante do PSD, acabou de me desinformar sobre o que circula, nos circuitos laranjas de aconselhamento lisboeta, sobre essa boa nova para a grande família social-democrata, segundo a qual Santana vai abandonar a táctica da pega de cernelha e passar imediatamente à pega de caras. Parece que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa será convidado para o cargo de director do "Diário de Notícias", com categoria plenipotenciária. Terá carta branca para a mobilização de colaboradores, dado que Luís Delgado será o próximo embaixador em Washington, mesmo que vença Kerry.




Para cúmulo da nova estratégia que levará o Congresso do PSD ao rubro, consta também que Pedro Santana Lopes já endereçou um convite a Francisco Pinto Balsemão, para que este assuma a esperada candidatura presidencial. Desta forma, se inverterá o negro ciclo que se avizinhava, dado que, em vez da anterior via que levou o partido, de vitória em vitória, até à derrota final, teremos agora a justa linha que, de derrota em derrota, levará os laranjas à vitória final. Para o efeito, por sugestão de uma conhecida astróloga, vai ser erigida uma modesta, mas simbólica, capelinha a Santa Eva Monroe, num pequeno monte alentejano onde, ao que parece, havia uma ruína de quarenta metros quadrados de um megalítico monumento. A capela devidamente licenciada, apesar de ter cento e vinte metros quadrados, não ofenderá o regulamento do parque natural, graças à colaboração de um recente satélite espião de uma empresa russa subcontratada por uma multinacional norte-americana, especialista em carne para canhão.



Com estes dois furos postos no ovo complicado da actual conjuntura política, as legiões laranjas voltarão a mobilizar-se para uma nova onda vitoriosa que, do fundo da província à emigração, conduzirá o bom povo lusitano ao máximo de prazer com um mínimo de dor. Ao que parece, a grande entrevista concedida por Diogo Freitas do Amaral a Judite de Sousa não demoveu as intenções do líder laranja, face a algumas gralhas ocorridas, desde a que incluiu Rocco Buttiglione como militante do "Opus Dei", à silogística demonstração feita pelo antigo líder democrata-cristão sobre as posições tomadas pelo seu companheiro italiano da democracia-cristã, com base nos "soundbytes" e nas parangonas recolhidas pelos jornais, quando um simples telefonema para o movimento "Comunhão e Libertação" cá da praça lhe poderia fornecer o texto e o contexto. Quando começou o programa sobre Salazar e Franco, desliguei o aparelho, por razões de higine mental.


Qualquer semelhança entre o texto emitido e as actuais circunstâncias não é apenas coincidência. A história constitui, na verdade, o género literário mais próximo da ficção. E quando se repete tanto redunda em tragédia como na presente comédia.

A propósito deste "post", recebi o seguinte desmentido:


Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso


Caro Professor Maltez,

Escrevo-lhe a presente missiva para desmentir o seu post sobre a putativa sinecura do inefável e intangível Marcelo (o da TVI - não o cônsul romano conquistador de Siracusa e matador de Arquimedes). Marcelo (o da Alta Autoridade - não o derradeiro cônsul do Estado Novo) só espera a eleição presidencial de Pinto Balsemão (o da SIC - não o aclamador d'El-Rei Junot) para obter o lugar vitalício de Chefe da Casa Civil.
Marcelo (o dos comentários - não o galã italiano das telas de cinema) sabe bem que os «tachos» em conglomerados empresariais da comunicação social se tornam rapidamente em verdadeiras «fritadeiras» que transformam celebridades em efemérides e personalidades em notas de rodapé.
Marcelo quer ser o pai do novo regime que aí vem, como demonstrou na sua inquirição-comentário-ensaio-narrativa-folhetim ao pretender inventar em directo, urbi et orbi, o conceito politológico de «partidos de cartel».
Marcelo quer ficar na história deste país como o homem que, formalmente fora da política e graças a um simples gesto, demitiu o Governo e dissolveu o Parlamento onde o partido a que pertence (mas que considera, acima de tudo, seu) ainda é maioritário.
Marcelo realiza a sua estética nihilista servindo-se do surrealismo quotidiano que nos é imposto pelas mediocridades palacianas que nos dirigem do alto dos seus cargos e do segredo dos
respectivos privilégios para prosseguir a sua guerra santa privativa contra tudo e contra todos.

Marcelo não tem fim e é por isso que não tem remédio.

Ora aqui na única secção do PSD de Lisboa e Vale do Tejo que não elegeu qualquer delegado ao próximo congresso de Barcelos, aguardam-se notícias acerca do relatório de Artur Portela sobre a «marcelada» e já se adivinha que a montanha bem pode parir um rato: o Sr. Conde da Anadia
acabará por pagar alguns encargos e empenhos do inquiridor/ex-jornalista/ex-cronista
para evitar a abominável cassação do seu alvará televisivo...


Almourol, 29 de Outubro de 2004

Giraldo, o último wahhabita lusitano

A queda dos anjos



Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, nascido em 1955, foi eleito deputado com 44 anos, por Miranda do Douro, quando na Câmara os "sociais-democratas" estavam na oposição.

Agora, ele que era "santo homem lá das serras, o anjo do fragmento paradisíaco do Portugal velho caiu" .

"Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quase todos os outros, e com mais algumas vantagens que o comum dos homens".

Os adversários chamaram-lhe reaccionário e acérrimo. Respondeu: "sou social-democrata do século XXI no rumo em que o farol da civilização alumiava com mais clara luz".



Mais disse que escolhia "o seu humilde posto nas fileiras dos governamentais, porque era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a ordem só podia mantê-la o poder executivo, e não só mantê-la, senão defendê-la para consolidar as posições, obtidas contra os cobiçosos delas. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe discípulos convictíssimos, que ainda agora pugnam por todos os governos, e por amor da ordem que está no poder executivo".

Depois de se "enlevar nas delícias dos States" de se flagelar na "ciência pós-moderna" e na leitura de "livros pós-modernos" e fechada a legislatura, "foi agraciado com a comenda da Ordem da Liberdade, e carta de conselho. Sondou o ânimo de alguns influentes eleitorais do PSD local para reeleger-se pelo seu círculo como delegado ao Congresso. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilizava a candidatura, emparceirado com o boticário. Arranjou o comendador duas propostas de colaboração com a Lusomundo, que fez entregar com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na volta do correio foi-lhe asseguarada a eleição. Que, de mais a mais, o Governo apoiava".

De Camilo Castelo Branco, com a devida vénia, texto de 1866