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Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

9.1.05

Vence a razão do Estado, morre a do afecto...



Dou tua consciência em minha prova.
S’os olhos de teu filho s’enganaram
Com o que viram em mim, que culpa tenho?
Paguei-lhe aquele amor com outro amor,
Fraqueza costumada em todo estado.


A pré-campanha eleitoral, depois da guerra dos cartazes, entrou, definitivamente na era das ideias e no domínio da cultura. Não tem assim razão Francisco Louçã quando criticou hoje a "falta de ideias" e o "espectáculo absolutamente degradante" das listas do PS e do PSD: "Há por aí cartazes azuis, verdes, laranjas. Há muitos cartazes, mas rigorosamente não há ainda dos nossos adversários nenhuma ideia". Da mesma forma, outro político que, desde sempre se caracterizou por luminosas ideias e pouca utilização da picareta falante, Marques Mendes, replicou: "Guterres e Sócrates são as duas faces de uma mesma moeda (...) Ambos falam bem e depressa, dialogam muito, mas são exemplos da falta de ideias e de soluções para Portugal»



Se contra Deus pequei, contra ti não.
Não soube defender-me, dei-me toda,
Não a imigos teus, não a traidores.
A que alguns segredos descobrisse
Confiados em mim, mas a teu filho,
Príncipe deste Reino. Vê que forças
Podia eu ter contra tamanhas forças.


Pedro Santana Lopes, influenciado certamente pelo "tsunami", utilizou a metáfora para que um muro de ideias e cultura permita que o bom povo português resista ao maremoto socialista que se anuncia. E logo o líder coligado o secundou: "Está o CDS preparado para as reformas e consensos que têm de ser feitos para repor a credibilidade do sistema político, porque é um partido com equipa, com cultura de governo, um dique contra as crises"



Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito...


Perante tão febril culturalismo, apareceu finalmente nos palcos a ministra da área em causa para, como cabeça de lista do PSD por Évora, declarar que a cidade-sede de distrito será a Capital Nacional da Cultura em 2006, mas apenas no caso do PSD vencer as eleições. Maria João, muito febrilmente, também foi a Alcobaça anunciar o apoio do governo às comemorações dos 650 anos da morte de Inês de Castro, considerada "uma grande mulher, capaz de viver uma grande paixão, que a faz sobressair entre tantas figuras históricas". Mais justificou a aposta neste projecto devido à cooperação com as autarquias de Alcobaça, Coimbra e Montemor-o-Velho, e com a Quinta das Lágrimas, numa "parceria exemplar", liderada pelo proprietário particular desta última instituição, nomeado comissário das comemorações. Apenas destoaram as palavras de Leonor Machado de Sousa, para quem "nunca a questão política vai prevalecer, porque a questão amorosa é muito mais bonita".Tenhamos fé, ou viajemos para São Tomé com Morais Sarmento! Temos que vencer o "esoudo" das regiões lusitanas devastadas pelos incêndios, para utilizar o som das palavras do ministro Arnaut que não sabe pôr um acento em "êxodo"...