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Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

15.1.08

Quando os cavalos e burros andam pelas ruas, em completa e altiva liberdade


Quando o ministro Santos Silva eleva Santana Lopes à categoria da respeitabilidade estadual e a televisão faz um frente a frente, entre a direita e a esquerda, pondo, num lado, Zita Seabra e, no outro, Mário Lino, nada melhor do que voltar a ler Platão e a sua hierarquia de regimes e desligar a televisão quando a Paula Teixeira da Cruz disserta sobre a engenharia das pontes da "pantouflage", em defesa do seu camarada Ferreira dito do Amaral.

Em primeiro lugar, a Kallipolis (é o governo dos homens mais sábios e mais parecidos com os deuses; é o mundo sem tempo das formas e das Ideias, a cidade do céu, onde se faz uma descrição idealizada a partir das antigas constituições de Creta e de Esparta; uma polis que não tem necessidade de leis, nem está dependente da opinião popular).

Em segundo lugar, a Timarquia (é o governo dos nobres que buscam a honra e a fama; os nobres já estão divididos ao contrário do que acontecia no estado anterior; a desunião é produzida pela ambição; o conflito é entre a virtude e o dinheiro)

Em terceiro lugar, a Oligarquia (é o governo das famílias ricas, sempre em risco de guerra civil com os pobres; a cidade enferma em luta consigo mesmo; é uma forma de governo, onde o censo decide sobre a condição de cada cidadão; onde os ricos, por consequência, exercem o poder sem que os pobres nele participem).

Em quarto lugar, a Democracia (é o regime da liberdade ou da ausência de leis; nasce a democracia... quando os pobres vencem, matando uns ... banindo outros, e compartilhando com os restantes dos direitos de cidadania e dos cargos públicos em termos de igualdade).

Finalmente, em quinto lugar, a Tirania (é o governo da violência e da coerção).

A cada uma destas formas corresponderia, aliás, um certo tipo de homem. Porque todas elas ocorrem dentro de cada um de nós, a partir da tensão entre a parte da alma que é dotada de razão e a outra a parte, animal e selvagem. Porque existe, em cada um de nós, uma espécie de desejos, terrível, selvagem e sem leis, mesmo nos poucos que parecem comedidos.

Logo, há que fazer coincidir cada regime a um tipo de homem, porque o homem tirânico é feito à semelhança da polis tirânica, o democrático, da democracia e os restantes, do mesmo modo. Só pode, portanto, avaliar-se um regime como se avalia um homem, isto é, em pensamento. E só deve avaliá-lo quem, em pensamento, for capaz de penetrar no carácter de um homem e ver claro nele.

Porque há três espécies de homens: o filósofo, o ambicioso e o interesseiro, movidos, respectivamente, pelo saber, pelo prazer das honrarias e pelo lucro. E dessa fricção é que surgiria a dinâmica dos regimes.

Segundo vários autores, nota-se nesta classificação um certo fascínio pelo regime de Esparta, especialmente na crítica à democracia ateniense, a mesma que condenara Sócrates à morte.

Julgamos que, mais do que a crítica à democracia, o que Platão faz é uma crítica à classe política que a dominava, marcada pelo facciosismo. Uma classe política onde primava a ignorância e a incompetência e que vivia da adulação das massas. Porque os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados a uma liberdade completa e altiva, embatendo sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saiam do caminho. Sobretudo, a falta de respeito pelas leis acabam por não se importar nada com as leis escritas ou não escritas, como sabes, a fim de que de modo algum tenham quem seja senhor deles.

O perigo deste modelo está na circunstância de, na má democracia, nascer sempre a tirania. Porque é do cúmulo da liberdade que surge a mais completa e a mais selvagem das escravaturas, porque o excesso costuma ser correspondido por uma mudança radical, no sentido oposto, quer nas estações, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nas cidades.

Assim, na degenerescência democrática, cada um deixa de cumprir a sua função: louvam e honram em particular e em público os governantes que parecem governados, e os governados que parecem governantes.


Do mesmo modo, surge o professor que teme os discípulos e o velho que quer parecer novo: o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em acções; ao passo que os velhinhos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários.

O antídoto proposto por Platão é o esforço filosófico, estético e poético. E lá temos o aristocrata a antepor-se à ignorância e à incompetência dos políticos. Para evitar o aparecimento do protector que se transforma em tirano. Para evitar que o povo, ao tentar escapar ao fumo da escravatura de homens livres, não caia no fogo do domínio dos escravos da escravatura de escravos que é a tirania.
Como dizia Almada Negreiros: este nosso desgraçado país, onde ninguém, a ninguém, admira e todos, a determinados, idolatram....