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Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

18.12.04

Os recortes genealógicos da nossa extrema-esquerda



O lancinante apelo de Cavaco Silva no sentido de regenerarmos as nossas elites tem um pouco a ver com a verdadeira história dos herdeiros da extrema-esquerda lusitana.



Nos começos da década de setenta, podemos notar como na fotografia ainda figuravam, além do pai dos povos, o António, depois ministro do PSD, o João, depois ministro do PS, o Manel, depois delegado do Ministério Público e o Roberto, depois director de diário de grande circulação.



A fotografia recortada, depois da saída de António, actual administrador de um grande banco comercial.



O segundo recorte, depois da saída de João, um dos principais administradores de uma multinacional ibérica de salsichas, já cansado da militância socialista.



O terceiro recorte, pouco depois de Manel começar a destacar-se como delegado do Miniistério Público na Beira Alta.



A quarta revisão, com Roberto a ser comentador televisivo, em defesa do pluralismo democrático.



O pai dos povos, em solidão do poder clama pela unidade perdida.



O regresso da família ao seio da revolução perdida. Foto clandestinamente obtida neste fim de semana.

O meu amigo e antigo colega do CDN85, José Mateus, respondeu directamente a esta provocação, com este comentário que transcrevo:
Convém compreender que desde o fim da segunda guerra até meados dos anos sessenta, este país chamado Portugal foi um verdadeiro condomínio da aliança tácita Salazar-Cunhal, os dois irmãos inimigos mas irmãos na partilha de um mesmo horizonte tacanho, provinciano, rural e totalitário. E também anti-democrático, anti-liberal, anti-americano... e centralista, estatista, autarcista e continentalista (no continentalismo de Cunhal, a Roma Vermelha de Moscovo, a tal que era o "sol do mundo", substituía a Roma católico-sacrista de Salazar).

A partir de meados dos anos 60, este duopólio vai ser quebrado. Uma extrema-esquerda anti-moscovita (muito portuguesa e democrática no caso da LUAR, pró-albanesa no caso da miríade grupuscular UDP e pró-chinesa aprendida em Macau no caso do MRPP...) vai conseguir ganhar a guerra que, em 1958/1962, um homem, o saudoso general maçon Humberto Delgado, não pudera vencer, talvez por ainda haver jogado no quadro do regime, acabando vítima de fraudes, entendimentos KGB/PIDE e outras trapaças que culminaram no seu assassinato. Depois do crime de Badajoz, era claro que um homem jogando no quadro do regime ou nas suas margens não era o suficiente para vencer e quebrar o duopólio Salazar/Cunhal. Só uma verdadeira "operação caos", jogando fora do sistema, multiplicando células e organismos, utilizando novas metodologias de organização e de trabalho, novos discursos para novos alvos, novos métodos de propaganda e novas técnicas de rua, o poderia fazer. Foi essa a função histórica da extrema-esquerda que a desempenhou de modo notabilíssimo e triunfou onde todos tinham falhado! Em 1973/74, o duopólio político-cultural não existia mais e tanto o salazarismo como Cunhal estavam obrigados a jogar à defesa perante uma extrema esquerda que dominava a violência política, as universidades, os liceus, bairros populares e penetrava nas fábricas e empresas a grande velocidade.

Quebrado o duopólio por esta "operação caos", criara-se o espaço político e o campo de manobra para a criação do PS e para o avanço dos "capitães de Abril"... Os jovens dirigentes dessa extrema-esquerda que quebrara o duopólio tinham pela sua frente um magnífico horizonte, bastava-lhes, para saltarem para dirigentes do País, deixarem passar uns anos, acabarem os cursos e... mudarem de partido, sempre com a consciência de que eles eram a élite vitoriosa que havia ganho onde todos haviam perdido. E foi o que aconteceu!