a Sobre o tempo que passa: Maio 2008

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

31.5.08

A corrente de gerações desta maravilha da humanidade faz com que as mortes nos permitam ascender à eternidade



Hoje, abrindo a caixa do correio electrónico, que estava encerrada há dias, deparei com o seguinte : Nasci em Cernache em 1934, neto de moleiros, mas com a idade de 7 anos vim para Coimbra onde frequentei o Liceu D. João III e em 1957 terminei a licenciatura em engenharia electrotécnica na FEUPorto. Após a passagem à reforma dediquei-me ao estudo da minha ascendência donde resultou um trabalho policopiado com o tìtulo Genealogia da Família Machado. Acabo de publicar, em edição da Câmara Municipal de Coimbra um livro intitulado “Moinhos e Moleiros de Cernache”. Do primeiro trabalho constam parentes como José Horácio Maltez... Parei. O primeiro nome é o do meu avô. Tenho que ler o livro de Carlos Machado...





Ontem, cruzei-me nos corredores da SIC com uma jornalista conhecida. Ela apresentou-se como Ana Paula Almeida que devia ser também Maltez, com . E apresentou-se: "sou neta de Adelino Maltez", antigo mineiro de Aljustrel, a quem dedicou um dos primeiros contos do seu livro Códigos de Silêncio. Apenas me foi dado concluir que a corrente de gerações desta maravilha da humanidade faz com que as mortes nos permitam ascender à eternidade, quando assumimos o passado como semente de um futuro com saudades do amanhã. Eu, neto de moleiros e padeiros, primo de mineiros, apenas tenho que continuar a honrar aquelas gentes de uma ilha do Mediterrâneo que, no século XVIII, para aqui emigraram e me deram o nome.

30.5.08

O súbito desaparecimento de uma pessoa do meu círculo íntimo leva-me a que tenha sido mobilizado para o cumprimento da minha missão pessoal, pelo que fiz um breve interregno nesta reflexão militante. Apenas isso. Outro valores mais altos me obrigam a estar ausente por uns dias deste segmento da praça pública.

27.5.08

Esta espécie de infracapitalismo de Estado com que o Bloco Central restaura o pior do velho mercantilismo...


Hoje, no DN, há alguns pedaços de uma conversa que mantive com Paula Sá, sobre o interregno do PSD: "Diga-me qual vai ser o preço do barril de petróleo daqui a um ano e eu dir-lhe-ei qual será o melhor candidato para ganhar a liderança do PSD e defrontar o Governo de José Sócrates." Este repto retórico ao DN do professor José Adelino Maltez visa demonstrar que sem se saber a incidência da crise económica internacional é difícil escolher o candidato social-democrata que irá ao encontro das preocupações dos portugueses. "Depende do dramatismo com que a classe média sentir essa crise", que, na sua opinião, já fez o "primeiro- -ministro perceber que tudo aponta para que perca a maioria absoluta". Se a crise não atingir em cheio o bolso dessa classe média, José Adelino Maltez considera Manuela Ferreira Leite a melhor candidata para lhe roubar a maioria absoluta. "Afinal, o socratismo é um subcavaquismo..."Mas se as dificuldades económicas forem mais sérias, "nesse caso o PSD devia ter outro tipo de liderança, menos passadista, capaz de um rasgo de criatividade". Neste contexto, Pedro Passos Coelho e Pedro Santana Lopes teriam vantagem em relação a Ferreira Leite.


Por mais palavras, assinalei que esta tendência de todos mandarmos sentenças para o interior do PSD, sem dúvida, o partido com mais militantes em Portugal, revela o desrespeito que quase todos manifestam face à soberania dos militantes. A faceta socratista da governança, acirrando a ilusão de controlo social através da manipulação da engenharia social do "agenda setting" até faz sair aquela fuga de informação que colocava Manuela Ferreira Leite como a melhor candidata do PSD para o PS, porque assim levaria a que os descontentes do PS deixassem de votar no BE e do PCP!!!!


Quase faltava dizer que Manuela seria melhor ministra das finanças de Sócrates do que Teixeira dos Santos, no âmbito da estratégia "porreiro, pá", com a restauração do estado de graça entre Belém e São Bento, naquilo que Manuel Alegre poderá continuar a qualificar como socialismo de plástico feito por uma agência de comunicação. Coisa equivalente a dizermos que Paulo Portas torce por Santana Lopes, tendo em vista a eventual criação de um novo partido de direita com as suas quintarolas de PP e PSL e a eventual adesão de Manuel Monteiro. Porque, se assim fosse, qualquer histórico da resistência do partido fundado por Sá Carneiro teria que optar por Pedro Passos Coelho, numa espécie de Manuel Monteiro, revisto e acrescentado, mas sem a benção de Adriano Moreira contra Basílio Horta... Se assim fosse, até Sócrates poderia convidar Passos Coelho para a pasta da inovação e candidatar Santana aos Paços do Concelho de Lisboa num grande Bloco Central, face ao cerco do PCP e do BE.


De qualquer maneira, o cerco ao situacionismo pode vir a acirrar-se, com mais uma crise importada, equivalente às vacas magras que liquidaram o marcelismo por causa do primeiro choque petrolífero, acelerando a chegada do 25 de Abril de 1974. E talvez não chegue o "agenda setting" ou essa subtil forma de controlo social que resulta da difusão do crédito hipotecário, por causa da compra da casinha que faz dos portugueses servos da gleba bancária e, consequentemente, gente que teme os riscos da mudança e despreza a criatividade, dado que grande parte dos rendimentos vai direitinho para angústias dos juros, já sem a barateza que nos deu o euro e o Banco Central Europeu.


Gerou-se assim uma nova casta bancoburocrática, reforçada com as companhias das "golden share", bem representadas pela Galp e pela Edp, para onde os governos mandam alguns restos de certos prebendados pelo sistema, criando-se uma espécie de infracapitalismo de Estado, dentro da tradição do mercantilismo e do absolutismo e das novas formas de sociedade de corte, onde até ninguém repara que os mexias foram ministros do santanismo, dado que a face empresarial deste, santificada pelo dinheirinho, não tem o cheiro dos santaneiros da politiquice.


De qualquer maneira, a campanha do PSD, onde até tem brilhado Patinha Antão, revela como a politiqueirice atingiu um nível pouco recomendável à necessidade que os portugueses têm de criadores de sonhos, capazes da necessária mobilização cívica, coisa que nada tem a ver com estes sucedâneos de sebastianismo, em que se enreda o populismo, o tal que é tão hipócrita que até consegue encenar a própria autenticidade, fingindo que é verdade a própria mentira dos que não vivem como pensam e andam sempre a pensar como vão parecer que vivem. Como ontem dizia Alegre, falta muita poesia à política. Talvez porque os ex-revolucionários frustrados se terem convertido à mera faceta burocrática e estatística da democracia dos homens de sucesso, mas mantendo o ditame do velho criador da nossa esquerda revolucionária, para quem um bom revolucionário nunca poderia ser um humanista... Por isso é que continuaria a preferir o calvinismo.

26.5.08

Os principais culpados da escravatura são os escravos que não se revoltam, como já dizia Beaumarchais.


Lá vi quase todo o debate dos quatro candidatos de um partido, bem representativo de certo Portugal dos Pequeninos com a mania das grandezas, os tais artistas mediáticos que se sujeitaram ao imediato comentário de Vasco Pulido Valente, sem direito a réplica. Tudo aconteceu quando os números do sismo chinês apontam para a morte de um drama equivalente ao súbito passamento de todos os habitantes de uma cidade média portuguesa, quando também ficaram sem tecto tantas pessoas quantas as que poderiam ser mais de metade da população portuguesa. Ao mesmo tempo, reparamos que, na África do Sul, a república de Mandella, há massacres anti-estrangeiros, no que uns qualificam como racismo e outros, como xenofobia, quando o governo lá do sítio, dito de esquerda, fala em manobras da extrema-direita. Pelo menos, não tem havido notícias de mais atentados terroristas no Iraque...


Felizmente que, em Portugal, a situação e a oposição são mesmo de esquerda, e há muitas décadas, desde que domina o politicamente correcto dos revolucionários frustrados do Maio 68, os tais que se entusiasmam com premiados filmes de Che Guevara e agora detestam o "Tirofijo". Os discursos prometem.... Mas sempre em sucessão de oportunidades perdidas, porque, conforme estatísticas recentes, continuamos a ser o país da UE com mais disparidades sociais, apesar dnotas oficiosas e decretinos preâmbulos com inúmeras boas intenções socialistas e sociais-democratas. Estou farto dos preconceitos de esquerda e dos fantasmas de direita. Esta sociedade de casino já não consegue dar música celestial ao lema de Guizot do "enrichez-vous". Nem com uma mais meticulosa candidata a ser boa aluna do comissário Almunia que nos desgoverna, para que o porreiro pá continue comissário.

Vale-nos que o "agenda setting" das candidaturas do PSD manda falar na necessidade de acabarmos com os novos pobres, quase repetindo uma velhinha argumentação que notava a existência de uma nova questão social, conforme os não revistos manuais de campanha eleitoral de outras realidades europeias. O pós-moderno já cheira a bafio. O cavaquismo é o pai do socratismo e todos se cruzam na Galp, entre ex-ministros e ex-assessores de primeiros-ministros, do PS e do PSD, porque o Bloco Central, como o grande partido da mitificada classe média, acabou por ser usurpado pelos novos ricos que têm sido donos do poder, mesmo agora, quando a mesma média classe se proletariza com os impostos que pagam os vencimentos e as reformas dos que conquistaram o poder.

Vale-nos que as massas são arrastadas para Viseu, para os discursos de Scolari e para as conferências de imprensa da madailização, onde os anúncios da petrolífera de bandeira põem os lusitanos de Viriato a empurrar um autocarro, quando a crise do petróleo amedronta o consumidor e as regras do jogo da globalização especulam com o preço dos bens alimentares, condenando à fome cerca de metade da humanidade. O desenvolvimento sustentado é uma treta. A nossa encruzilhada decadentista está para durar, mesmo sem lavar. Resta-nos seguir o trilho de Cadilhe e ir para o BPN, ou o de Paulo Teixeira Pinto e fazermos estágio para ministro de cultura da direita de sempre. O socratismo não passa de um subcavaquismo retroactivo e o PSD que resta tenta copiá-lo. Chama-se ASAE e EMEL, os símbolos dos "Statejackers" da classe média baixa, proletarizada, a tal que está prestes a recorrer ao SOS do rendimento mínimo garantido.

A nova questão social é haver cada vez mais ricos e cada vez mais novos pobres, com cada vez menos ilusões nesta sociedade, onde PSL pensa que tem uma quinta eleitoral de dez por cento e Paulo Portas, uma reserva de índios de cinco por cento, para que o resto do meio fique no mais do mesmo e o PCP e o BE atinjam a europeia média dos vinte por cento. Somos, na União Europeia, a lanterna vermelha das desigualdades sociais e quem as fez, ou permitiu, não se envergonha nem pede desculpa pela falta de autenticidade. Esperemos que, desta, o povo não lave as mãos para que eles durem. Os principais culpados da escravatura são os escravos que não se revoltam, como já dizia Beaumarchais. O Vieira já arranjou novo treinador. Tenhamos fé!


21.5.08

Sobre o estilo decretino e quase hierocrático...


Tal como prestei depoimento ao semanário "o Diabo", também hoje, "O Semanário" traz um depoimento meu. Dado que alguns detectores da minha liberdade de expressão podem não ter acesso ao documento, aqui o transcrevo, para os devidos efeitos. Tem a ver com recentes declarações de generais:


Parece que vão além da mera autodefesa corporativa, tendo algo de recado dos pais fundadores do regime face à presente decadência de um sistema que vai amarfanhando o regime. Mais grave parece ser a intenção governamental de lei da rolha, num processo de compressão da liberdade de expressão que também afecta certas secções universitárias, onde alguns conselhos directivos e certas inspecções parecem reduzir instituições marcadas pela honra e pela inteligência a dependerem dos discursos oficiosos da hierarquia verticalista de certo estilo "decretino" e quase hierocrático...


Continuo farto dos que aprenderam cultura nos bancos torquemadas de pregações e homilias contra as heresias que fogem do situacionismo politicamente correcto. Desses que continuam à espera da chegada daquele laico ofício que possa mandar queimar em efígie os dissidentes. Continuo farto destas cadaverosas persigangas vestidas de tecnocracia neopositivista, onde ebriamente se deslumbram fascistas, estalinistas e ressabiados, só porque passaram a respeitáveis donos do poder, assentes na engenharia distribuidora dos fluxos orçamentais que os pombalizaram, especialmente quando aplicam, agora, ao sector não privado, o exercício falimentar e cogumélico da privatização dos lucros, com nacionalização dos prejuízos, métodos que os fizeram homens da esquerda baixa e prebendada, ou da direita cobarde e colaboracionista.

20.5.08

Importa um "new deal", para evitar que os coveiros do sistema passem a coveiros do regime


Quase todos os que se apresentam como candidatos ao protagonismo estadual, partidário ou das pequenas quintarolas burocráticas, que permitem o micro-autoritarismo da mesa do orçamento ou da engenharia dos subsídios, utilizam a invocação, directa ou suliminar, de serem homens de esquerda. Uns, pelo oportunismo do politicamente correcto, para melhor se inserirem no situacionismo. Outros, como literatura de justificação para todos dos desmandos, esquecendo-se que Estaline e Pol Pot também eram homens ainda mais à esquerda, quando não invocavam as novas tecnologias da guilhotina positivista.


Feliz, ou infelizmente, a direita começa a ficar reduzida ao espaço do berro e do "soundbyte" populista, com alguma dela à espera que o PSD a repesque para a dignidade do estadão e da consequente vantagem negocista. Entretanto, os mais destacados marechais do CDS, face às duas emergências de Cavaco, o tal que os secou, parece que optaram pelo PS, que assim os reduziu à veneranda postura de senadores colaboracionistas, a nível do ministerialismo ou da prebenda elogiosa. Mais do que isso: o PSD, quando não se assume em birra populista ou caciqueira, fica-se pela memória do estadualismo paternalista a que chama neokeynesianismo, mas que não passa de mais uma versão do salazarismo democrático, vestido de respeitabilidade tecnocrática, dita prestígio.


É por estas e por outras que Pedro Passos Coelho se arrisca a ter um resultado tão razoável que até o pode levar à São Caetano à Lapa. É, pelo menos, esse o voto de Domingos Duarte Lima, Paulo Teixeira Pinto e de tantos outros, de mal com o outro Pedro e com Dona Manela. Ainda não assumimos que importava, antes de chegar a Grande Depressão, um "new deal" à esquerda e à direita, um baralhar e dar de novo, para que estes coveiros do sistema não sejam coveiros da morte lenta em que o regime se enreda.


Como observava Fernando Pessoa em 1928, também António de Oliveira, estabeleceu imediatamente o seu prestígio quando tomou posse, através de um discurso que é tão diferente dos discursos políticos habituais que o país aderiu a ele de imediato. E o público é incompetente para apreciar uma coisa tão profundamente técnica como as suas reformas financeiras. Ao fim e ao cabo, o prestígio é sempre não-técnico.

19.5.08

Valha-nos Calvino que bem podia ser santo!


Reparo como a pequena política se encarquilha no "fait divers", perdendo-se em muitas pequenas cascas de árvore que nos ocultam a floresta da grande política. Daí que todos comentem a cena de Sócrates e Pinho, apanhados com cigarrito, no voo que os levava em visita oficial à Venezuela, onde Chávez invocou a protecção da Virgem de Fátima. Coisa de somenos, porque tudo pode ter sido inteiramente lícito e petroliferamente correcto, com resmas e resmas de Razão de Estado, dado que o príncipe nem sequer precisou de usar o absolutista princípio do "princeps a legibus solutus".


Reparo na intervenção presidencial sobre a matéria, dizendo que, no tempo dele, nos aviões fretados para viagens do primeiro-ministro, ele nunca fumava, embora não pudesse saber o que se passava por trás das cortinas, quando ainda não havia a lei proibicionista que nem sequer o Presidente tem poderes para a mudar...


Emociona-me a resposta Sócrates, pedindo desculpa por desconhecer as normas que ele próprio propôs, mas prometendo que, a partir de agora, vai mesmo deixar de fumar. Infelizmente, quando quis defender-se, revelou um velho fantasma, ao denunciar como "calvinistas", os denunciantes da liberdade de fumaça. Podia ter usado outros nomes diabólicos, como os de "fascista", de "puritano", de "inquisitorial", ou de "fundamentalista". Mas preferiu confessar, à boa maneira socialista, que está contra a ética protestante, fundadora do capitalismo, deste ar que todos respiramos na globalização, cometendo um pequeno deslize anticonstitucional, quando ofendeu as concepções do mundo e da vida nascidas na pátria de Jean Jacques Rousseau.


Vale-nos que a ministra que nos trata da saúde já arranjou meios para nos operarem às cataratas, sem recurso a Cuba, apenas com a mobilização dos meios do sector público da saúde, depois de ter criticado um acordo da ADSE com um hospital privado. Por outras palavras, certos preconceitos de esquerda que marcam os nossos socialistas acabam por dizer que as coisas só são públicas se o patrão for o Estado, não reparando que o título pode não corresponder ao conteúdo.


Não há meio de perceberem que não é o hábito que faz o monge, tal como não é o órgão que gera a função, quando o que interessa é ter o órgão ao serviço da função. Logo, não devemos continuara a julgar que só é público o que mede verticalmente, de cima para baixo, conforme a tradição absolutista do centralismo e do concentracionarismo.


Porque, se viajarmos pelo fundamento da velha república romana, notaremos que o máximo da coisa pública estava na horizontalidade dos pactos, nomeadamente quanto à qualificação de uma lei, que só era verdadeiramente pública quando os magistrados a propunham num comício do povo. Com efeito, só é efectivamente público o que reside na horizontalidade dos consensos pactistas. Porque a comunidade é superior ao principado, dado que a república vale mais do que o aparelho de poder e a nação é superior ao Estado.

Por outras palavras, não devemos trazer para a praça pública aquilo que, para ser eficaz, não deve sair do espaço da intimidade familiar e, muito menos, passar para o largo do pelourinho. Como jurista que continuo a ser, embora dessa ciência não faça modo de vida, até diria que a melhor sociedade é aquela onde todas as regras são espontaneamente cumpridas, nomeadamente aquela onde as tais questões de consciência não precisam do "casse tête" da guarda, dos manuais e códigos de processo penal e das grades prisionais...


Os bons situacionistas encontram-se sempre no sindicato dos elogios mútuos. E a Razão de Estado sempre seguiu a máxima maquivélica, segundo a qual os fins superiores da governação permitem a literatura de justificação dos homens de sucesso.


Tudo depende dos exércitos disponíveis e do desespero dominante. Apenas acrescento que em encruzilhadas onde não se vê luz ao fundo do túnel, o populismo é directamente proporcional aos sucedâneos messiânicos, mesmo que usem vestidos fora de moda, mas com muitos lacinhos de tecnocracia...


Entretanto, alguns generais têm feito declarações muito críticas sobre o défice de democracia e liberdade no país. Parece que vão além da mera autodefesa corporativa, tendo algo de recado dos pais fundadores do regime face à presente decadência de um sistema que vai amarfanhando o regime. Mais grave parece ser a intenção governamental de lei da rolha, num processo de compressão da liberdade de expressão que também afecta certas secções universitárias, onde alguns conselhos directivos e certas inspecções parecem reduzir instituições marcadas pela honra e pela inteligência a dependerem dos discursos oficiosos da hierarquia verticalista de certo estilo "decretino" e quase hierocrático...


15.5.08

Prometo que já deixei de fumar há uns anos, mas que bem apetecia, agora, uma cigarrada oposicionista, nesta varanda voltada para o Tejo


Quando o autoritarismo pseudo-moralista dos salazarentos ainda mexe na política e na academia, mas esfumando-se em reles cobardia, lado a lado com os estalinistas que se diluem no carreirismo e na procura do tacho, prefiro reconhecer a atitude de gajo porreiro, com que um dia qualifiquei José Sócrates. Porque essa de prometer deixar de fumar, é d'homem, carago! Apenas o aconselho a estudar os mínimos de Estado de Direito e de Estado de Legalidade, nomeadamente o princípio geral, até aplicável em ditadura, segundo o qual a ignorância da lei não serve para pedir desculpa.

Reparo apenas que Jardim meteu a viola no saco da sua microgovernança autárquica, que Menezes não se lhe seguiu nos apoios, preferindo ir a uma jantarada com o homónimo do seu antigo líder parlamentar, e que tudo como dantes, com Miguel Relvas fora de Abrantes, a mostrar que ainda mexe. Por cá, lá dei uma aulinha e ainda meti conversa com um alto hierarca universitário que me confirmou que, na prática, o choque reformista de Gago, depois de traduzido em conservação sistémica dos corporativismos e mandarinatos vigentes, só começará a aquecer nos começos do próximo ano lectivo e que posso passar as minhas férias sem me preocupar com a emergência dos novos-velhos donos do poder, com muitos discursos sobre o bem comum e a salvação pública, em ritmo de ofício e nota oficiosa.


Entretanto, pelos meandros da fauna onde circulo, está tudo mais interessado em saber o que aconteceu ao respectivo pedido de bolsa. E não me farto de os aconselhar para que arregimentem um qualquer profe das estranjas, bem cotado entre o painel, mesmo que ele não diga nada e nunca tenha sido visto, ou então, o parecer de um desses "opinion makers" sistémicos que nada sejam em termos académicos, mas com a hipótese de voltarem à ministerialice. Porque o que interessa é garantir a implantação das "policies" não declaradas pelos hierarcas das entidades oligárquicas, as tais que pretendem monopolizar o conceito de instituto dito de alta cultura, a que agora se chama laboratório estadual associado. Porque, mesmo com o nome de ciência verdadeiramente científica, o que interessa é a burocrática distribuição autoritária de valores, ao serviço da eterna dedução cronológica e analítica em que o socialismo vigente se vai pombalizando, sem qualquer "ratio studiorum".


Por mim, bem me lembro dos termos em que rejeitei o convite do Primeiro-Ministro Durão Barroso, quando me sondou para a alta hierarquia distribuidora da ministerialice científica. Foi com os mesmos argumentos com que não aceitei os convites do guterrismo para consultadoria na reforma das prisões ou do plano nacional da água. Exactamente os mesmos que me levam a excluir do "curriculum" o ser académico de número e ex-secretário-geral de uma academia formal, integrada no Ministério da Cultura, ou a não ter incluído no cartão de visitas, que também não tenho, funções de ilustre coordenador pedagógico e científico de uma veneranda instituição estatal. Prefiro a solidão criativa do viver como penso, sem ter de pensar como vivo, ou sem ter que aturar certos figurões do estadão...

14.5.08

Baralhar e dar de novo, entre fumaças e Cícero. Porque nem tudo o que é lícito é honesto...


Com Sócrates e Pinho, apanhados com cigarrito, no voo que os levava em visita oficial à Venezuela, tudo foi inteiramente lícito, dado que o príncipe nem sequer precisou de usar o absolutista princípio do "princeps a legibus solutus". Apenas se confirmou o bem pregas Frei Tomás da falta de autenticidade de certos políticos profissionais, coisa que apenas se situa no plano moral. Daí que ligue a matéria à audição, ontem ocorrida, no parlamento, dos grandes do BCP, e deseje que não surja o terceiro princípio do absolutismo, segundo o qual, o que o príncipe diz tem valor de lei, sem forças de bloqueio... Sim, claro, a empresa de meios aéreos cumpriu rigorosamente todos os preceitos legais, o nosso primeiro, o fumante, também. Não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto...


Reparo que, hoje, Alberto João, vai quebrar o tabu da pescada, da tal que antes de o ser já o era, quando a questão não está na Dona Manela ou nos dois Pedros que restam. O problema não é apenas do PSD, mas da globalidade do sistema partidário, onde somos o país mais à esquerda da Europa Ocidental, com sondagens revelando que os ex-sovietistas mais a extrema-esquerda são quase 20% e a direita, quase toda, se diz ideologicamente social-democrata. Logo, é inevitável que se apontem caminhos para uma reengenharia sistémica. Não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto...


Depois desta campanha, pode acontecer que o PPD entre em confronto com o PSD. O grupo populista pode ficar farto e avançar para um PPD-PSL, dado que, garantidamente, tem cerca de o dobro dos votos do PP-Paulo Portas e até pode recolher apoios no pós-fascismo, bem como monteirismo e noutras navegações do mesmo teor, bastando recordar o episódio dos estados gerais ditos da direita, organizados pelo Professor Paulo Otero, onde Santana Lopes foi o principal discursante. Não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto...


Se outra for a decisão do eleitorado PSD, pode ser que os barões do Bloco Central caiam na tentação de um verdadeiro partido do centro, capaz de conversar com um PS que não queira alinhar com os seus canhotos, na mobilização dos que, em sondagens, dizem que votarão no Bloco de Esquerda. Resta saber o que vai fazer o velho PC, sujeito à boa gestão de Jerónimo de Sousa e com a hipótese de ser reforçado por Carvalho da Silva, dado que o Nogueira dos professores pode substituir este último na CGTP. Não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto...


Tudo depende do povo nas próximas eleições. Tudo depende do que vai acontecer à carteira do eleitor médio. Tudo depende da imagem que a nova liderança possa transmitir, nomeadamente se conseguir vender a boa ideia eleitoral de um Estado Social conservador, capaz de reduzir o diabo do défice, mas sem afectar os direitos adquiridos dos funcionários públicos, dos professores e de outros blocos sociais corporativos que as más reformas do PRACE lançaram contra Sócrates, depois de venderem o mesmo produto à Madeira natal do jardinismo. E, sobretudo, tudo também pode depender do intervencionismo de Cavaco, dado que o Presidente já não vai alimentar o estado de graça do primeiro fumador, dando-lhe cobertura em medidas eleitoralistas, contrárias às boas práticas financeiras. Não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto...

13.5.08

De como os homens do teatro devem ser desterrados


Hoje li, num determinado ambiente universitário, um certo texto. Uma veneranda figura que, com toda a licitude, está premiada com um suplemento de vencimento pelo poder estabelecido, terá dito, sem ser à minha frente, que eu fiz teatro. Agradeço o elogio. Tínhamos o mesmo palco e o mesmo microfone. Mas eu não enfiei a carapuça. Resisti em "persona". Fingi que era verdade o que na verdade sinto.

Continuaremos a mirrar asfixiados neste funil situacionista que continua a proibir a imaginação


Muitos, como eu, estiveram até às tantas da madrugada, agarrados à futebolítica do "prós e contras", esquecendo a campanha eleitoral do PSD, dado que o major tem mais piada que o alberto joão e ninguém tem pachorra para as meditações macheteiras do nosso bloqueio centralão, onde notáveis treinadores de bancada correm o risco de levar o maior partido político português à disfunção, se os circuitos da decisão ficarem entupidos entre aqueles que foram ministros, desejando deixar de o ser, e os que, querendo ser como os primeiros, sonham apenas em ser ministros, apenas para que, depressa, deixem de o ser.


O PSD, como espelho da nação, assiste a este regresso da fauna dos barões assinalados, permitindo-nos concluir que se aproxima cada vez mais dos apitos finais e doiradinhos de um regime que entrou no sistema das habituais decadências, dado que preponderam as habituais brigadas do reumático mental, esses que sabem, de ciência por fazer e subsídio absoluto, a impossibilidade emergente de um qualquer movimento de capitães. Logo, sobre o PSD, apenas fico triste em ver como milhares e milhares de esforçados militantes correm o risco de servir de carne para almoço comemorativo desses caldo de interesses que põe os cotas e os jotas a servir de campo de manobras para a gentalha de alcatifa que usurpou os restos de autenticidade do partido de Francisco Sá Carneiro.


Esta última epifania de certo cavaquismo do "a posteriori" talvez constitua mais um dos cantos de cisne de certa direita lusitana que, envergonhadamente, pede à respectiva sociologia que se dilua sob o bordão de uma tecnocracia descrente que já perdeu direito ao sonho e o sentido do risco. Ainda não percebeu que foi o exagero dos preconceitos de esquerda ocupantes do aparelhos ideológicos que produziu o desespero do populismo direitista. O poder continua a medir-se pelo esquema do homem de sucesso, pelo que me fico soterrado pelo magnífico discurso de Barroso a receber as chaves da cidade de Lisboa e prefiro não mais comentar nominativamente as candidaturas laranjas, até porque posso cair involuntariamente no pecado do óbvio divisionismo.


Aliás, ainda há dias, conversando com um conhecido ex-militante da extrema-esquerda, hoje assente na sua gravatinha de director-geral do sistema, por nomeação cavaqueira, mas de companheirismo PS, olhando para o dito cujo, tão bem assente no discurso da supremacia institucional do situacionismo, mas com a arrogância de ter sido revolucionário, verifiquei que o dito estava a apoiar uma das candidaturas do PSD, para se vingar de uma qualquer que o Sócrates lhe tinha feito e para lhe tirar a maioria absoluta.


Logo, não me apetece continuar a alimentar esta dialéctica dos preconceitos de esquerda contra os fantasmas de direita, desses que vivem de uma omnisciência assente nos tradicionais pés de barro, onde os "pré-captos" (preceitos) dos respectivos óculos ideológicos não os deixam ver um boi à frente dos palácios onde estacionam as respectivas viaturas oficiais. Tal como os seus adversários dogmáticos do antigamente, os presentes neodogmáticos são como os macacos orientais, que já não querem ler, que já não querem ver e que já não querem ouvir.


Circulam de preconceito em preconceito e querem transformar o resto de conceitos do respectivo marxismo imaginário num preceito salazarento e lá vão indo, de decreto em decreto, até ao esquecimento final, enquanto, resfolegando de soberba, tentam limpar, com a lixívia da literatura de justificação, a que chamam memórias, as velhacarias inquisitoriais que vão, dia a dia, produzindo, enquanto tomam chá com os ministros de Salazar, prebendados pela cobardia. Vivam os pezinhos de esquerda da cavaqueira situação. Assim continuaremos a mirrar asfixiados neste funil situacionista que continua a proibir a imaginação.

9.5.08

As pretensas ideologias heréticas de há quarenta anos se transformaram-se na religião dominante


Daqui a bocado vou gravar na SIC um programa assinalando as comemorações do Maio 68. Fiz o meu trabalho de casa de pesquisa de memórias. Comecei em 1963 com ao aparecimento da revista O Tempo e o Modo e a Análise Social. Passei a 1964, ano da emergência dos Beatles e do começo da era Brejnev. Reparei na cisão delgadista contra o PCP e, sobretudo, na cisão maoísta no PCP com Francisco Martins Rodrigues. Até, em Novembro, o jornal Avante! denuncia dois membros da FAP, entrados clandestinamente em Portugal. Idênticas denúncias surgirão em O Militante de Fevereiro de 1965 e em o Avante! de Março de 1965. Passei para o Caso Luandino Vieira na Sociedade Portuguesa de Escritores, com protestos pela atribuição de um prémio a este militante do MPLA, de origem europeia. Sociedade será encerrada.


Em 1965, foi o assassinato de Delgado e o fim da unidade nacional na defesa do ultramar. Se alguns confirmam o crepúsculo das ideologias (Fernandez de la Mora), outros continuam a lire le Capital (Althusser e Balibar), e a ser pour Marx (Althusser), tanto para a procura de um socialismo humanista (Fromm), como para que se passe, entre cristãos e marxistas, do anátema ao diálogo (Garaudy). Entretanto, Manuel Alegre, já no exílio, edita Praça da Canção e Fernando Ribeiro de Melo lança a Antologia da Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, com a colaboração de Mário Cesariny, Luís Pacheco, José Carlos Ary dos Santos e Ernesto Melo e Castro, todos processados por abuso de liberdade de imprensa. Na campanha eleitoral de Outubro, aparecem vários cristãos que alinham com a oposição democrática, pondo acento tónico na defesa dos direitos do homem e utilizando como bandeira a pastoral de João XXIII. Surge também um Movimento Cristão de Acção Democrática, depois da emissão de um manifesto Cristianismo e Política Social. Por seu lado, o Opus Dei lança a revista universitária Tempo, tendo como editor Adelino Amaro da Costa e contando, entre os colaboradores, João Morais Barbosa, Raul Junqueiro e José António Lamas.


1966 é o tempo de Magriços, Código Civil e Ponte Salazar, nos quarenta anos do 28 de Maio. 1967 é a visita de Paulo VI e o nascimento da LUAR. Bem como de hippies, morte de Che Guevara e transplante do coração. Surge também a desconstrução pós-moderna. É então que emerge Jacques Derrida (1930), com L´Écriture et la Différence, base de certa leitura pós-moderna, quando teoriza a desconstrução, invocando a fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger. Porque o entendimento apenas é provisório, dado que há um infinito processo de reinterpretação, baseado na interacção entre o leitor e o texto. Entre nós, destaque para Manuel Alegre que lança O Canto e as Armas. Há grandes inundações em Lisboa (25 de Novembro). Mais de duzentos mortos. Vários estudantes, mobilizados para o apoio às vítimas, começam a publicar um boletim intitulado Solidariedade Estudantil. E começa a saga dos papéis da extrema-esquerda: Lançado o boletim O Proletário, órgão do Comité Marxista-Leninista Português, editado em Paris (Maio). Surge em Lovaina o primeiro número dos Cadernos Socialistas com Manuel Sertório e Manuel Lucena, (Julho). Emitem-se, em Paris, os Cadernos de Circunstância com Alfredo Margarido, Fernando Medeiros e Manuel Vilaverde Cabral (Novembro).

Finalmente, 1968. A queda de Salazar e a Primavera de Marcello Caetano, ou a impossível renovação na continuidade. Porque a chamada doença da prosperidade da sociedade de consumo manifesta através de sucessivas revoltas estudantis, com destaque para o processo da universidade de Nanterre em Paris (22-03-1968), que vai desencadear o chamado Maio 1968, num tempo de men in dark time (Arendt, 1968), quando Amitai Etzioni publica The Active Society. Nesse mesmo ano realiza-se a Conferência de Medellin do episcopado sul-americano, onde, invocando-se a libertação, a promoção do homem e o desenvolvimento integral, se criticam os pecados sociais da violência institucionalizada e da dependência. É então que o padre Gustavo Gutierrez inventa a fórmula teologia da libertação. Este movimento teológico católico tem paralelo com o movimento protestante da teologia da esperança e dele deriva o processo da teologia da revolução, de carácter marxista, marcante nos anos setenta. A teologia da revolução defendia a conciliação entre o catolicismo e o marxismo e que levou alguns a considerar o guerrilheiro como um jesuíta da guerra ou um Frei Beto a declarar que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia. Mas a teologia da libertação é um movimento bem mais amplo que passa pelas obras de Jürgen Moltmann, Metz, Harvey Cox.


Acontece que a teologia da libertação foi incrementada a partir do Maio de 68 como uma teologia para a revolução, onde o reino de Deus passou a ser considerado como a revolução de todas as revoluções (Helmut Gollwitzer) ou como a salvação da revolução (Jürgen Moltmann), opondo-se à teologia do desenvolvimento e superando a teologia dita da impugnação. Ela transformou-se numa teologia da violência, em oposição aos que defendiam uma ética da não violência

Até Salazar é socialista com a nacionalização dos TLP, a companhia Telefones de Lisboa e do Porto (1 de Janeiro). Greve da Carris termina com agradecimento formal e público dos trabalhadores a Salazar, sendo a cerimónia transmitida pela televisão (Julho).

Surge O Comunista, órgão de uma dissidência do Comité Marxista-Leninista Português, depois da chamada segunda conferência da organização (Dezembro). O jornal é dirigido por um grupo onde milita Hélder Costa, publicando-se até Julho de 1972. Tem ligações aos maoístas do Porto, liderados por Pedro Baptista e José Pacheco Pereira. Este assume-se, então, como agitador cultural, tentando mesmo boicotar cursos realizados pela Cooperativa Confronto de Francisco Sá Carneiro, onde participa César Oliveira (1941-1997), acusado de tentar difundir o ideário anarco-sindicalista. O futuro defensor e propagandista do cavaquismo quer, então, criar um verdadeiro partido comunista, fielmente marxista-leninista. Há-de qualificar tal atitude como luta pela liberdade, sendo aplaudido unanimemente por toda a grande burguesia devorista que sempre adorou este jogo de fingimentos e cambalhotas que, apesar de radicalmente verboso, não afecta os respectivos interesses, dado que até lhe pede subsídios e avenças.

Depois vem 1969. Da crise de Coimbra às eleições marcelistas. Da chegada do homem à Lua ao festival de Woodstock. O ano é marcado por esse one small step for a man, one giant leap for mankind, com um ser humano, Neil Amstrong, a locomover-se na Lua (às 22 horas de 21 de Julho), na sequência da viagem da nave Apollo 11. É também um tempo de marxismos imaginários e sociedade imperfeita.


No plano das ideias, no ano em que desapareciam Theodor Adorno e António Sérgio, eis que Raymond Aron, na ressaca do Mai 68, contra o qual se ergueu, teoriza as desilusões do progresso e denuncia os marxismos imaginários (Aron), enquanto Milovan Djilas se resigna com a sociedade imperfeita (Djilas) e Carl Schmitt (1888-1986) revê e reedita Politische Theologie, com uma primeira edição de 1922. Na mesma onda, Jules Monnerot, procurando fazer um inventário das mitologias políticas do século, lança Sociologie de la Révolution.


Chega, por fim, 1970. Eurocomunismo e subida de Allende ao poder. No ano em que Paul Samuelson recebe o Nobel da economia, refira-se que o prémio Nobel da medicina de 1965, o francês Jacques Monod publica um ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, Le Hasard et la Necessité, enquanto Jean-Marie Bénoist proclama que Marx est Mort, enquanto o jesuíta belga, que, no Brasil, é colaborador de D. Helder da Câmara, bispo da Olinda e Recife, Joseph Comblin, teoriza a Théologie de la Révolution. No ano da inauguração da barragem de Assuão e da fundação do movimento Greenpeace, em Amsterdão, o britânico Norman Cohn, inventaria os milenaristas revolucionários e os anarquistas místicos da Idade Média, em The Pursuit of the Millenium. Por cá, é o fundado o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado por Arnaldo Matos, secretário-geral, Fernando Rosas e João Machado (18 de Setembro).


Apenas concluo que as pretensas ideologias heréticas de há quarenta anos se transformaram-se na religião dominante. Os antidogmáticos de ontem, assentes no politicamente correcto da hierarquia do aparelho de Estado caem na tentação constantina de um neodogmatismo. Eu continuo a ser do contra.

7.5.08

Recortes de fantasmas...


Permitam-me que informe sobre a inauguração, amanhã, quinta-feira, pelas 19 horas, na Corrente Darte, Avenida D. Carlos, diante do Café República, de “Recortes de fantasmas”, um projecto começado em 2004, com uma ideia inicial baseada nos trabalhos de Sophie Calle sobre o jogo de criação de personagens e na argumentação de Bertrand Williams e Thomas Nagel sobre a moral do acaso. São apresentadas telas de 180x70cm pintadas com as silhuetas de dez homens e dez recortes pintados em mdf da silhueta da autora em tamanho natural.




Porque ao contar uma história, sem juízos de valor e de uma forma analítica, exorcizam-se as emoções, transformando-se o eu e os outros em bonecos. Nascem assim as telas, bonecos de homens sem conteúdo, já que perderam toda a sua vida após terem passado a sua história ao papel. Nas telas, os homens revelam-se após alguns segundos à luz ou dissolvem-se rapidamente em água, do banho ou das lágrimas...





É evidente que tenho vivido, aqui em casa, há anos, esta aventura de telas, pincéis, pelo que sou totalmente suspeito sobre uma obra que, sendo da Ana, nos tem feito olhar, aos dois, na mesma direcção. E sem autorização da autora, aqui vos deixo uns pedaços da instalação...

Angústias de um liberal, farto de preconceitos de esquerda e fantasmas de direita... contra os marechais, marchar, marchar!


Lá vi o Pedro, na São Caetano, com muitos dos amigos de sempre, entre a Conceição Monteiro e a Maria José Valério, com alguns dos membros do clube do "estava para ser", entre os quais certos que também andaram escondidos no dia em que se apresentou a Manela. Contudo, o governo marcou o "agenda setting", quando aceitou o despedimento de Alípio Ribeiro da PJ e pôs um polícia em seu lugar, não faltando o enredo de uma estória que põe o PM a segurar o magistrado em comissão de serviço policial. Assim, nem Manela conseguiu furar o esquema com o almoço de apoio de Pinto Balsemão. Dois pequenos ramos de uma árvore que não marca a floresta para além da espuma do dia.


Mais interessante foi ouvir, pela manhã, as lamúrias radiofónica de Pires de Lima, dizendo que a projectada ala liberal do CDS portista se ficou pelas duzentas assinaturas, na mesma altura em que falhou também a revista "Atlântico", a que a mesma estaria ligada. Por outras palavras, nem o partido paralamentar potencialmente mais liberal é, em Portugal, suficientemente liberal, no sentido empreendedor da palavra. Não nos está na massa do sangue essa coisa do risco, do individualismo e do empreendedorismo. Somos todos salazarentos e socialistas, dado que gostamos de privatizar os lucros e de estatizar os prejuízos.


Daí que estejamos condenados a escolher entre um socialismo de direita e um socialismo de esquerda, geridos pela sociedade da Corte do Bloco Central, onde, há muito, o partido dos funcionários já foi derrubado pelo partido dos fidalgos. Daí que me apeteça repetir o que ontem apareceu no semanário "O Diabo", da minha autoria:


A esquerda real depende sempre da direita a partir da qual ela se define e vice-versa. Até porque, para haver esquerdas ou direitas, tem que haver a mitificação de um adversário, onde aquilo que se fantasia ou demoniza no outro leva à definição de cada uma dessas posições relativas. Por outras palavras, a esquerda e a direita não são posições ontológicas nem podem ter uma definição ideológica, válida para qualquer tempo e lugar. E em Portugal, o que temos são preconceitos de esquerda e fantasmas de direita.


Aliás, se partíssemos da classificação clássica das direitas e esquerdas, oriunda do galicismo pós-revolucionário, teríamos de dizer que as direitas são os conservadores do que está e as esquerdas, os que querem mudar, pelo que teríamos de concluir que, aqui e agora, as esquerdas são efectivamente a direita, onde não faltam governos ditos de esquerda com programas de direita, depois de governos de direita com estilos de esquerda.


Com efeito, coube à França ter caracterizado as opiniões políticas a partir da topografia da Assembleia Constituinte. De um lado a direita, dita dos aristocratas ou dos noirs; do outro, a esquerda dita dos patriotes. E não tardou que se distinguissem os reacteurs ou reactionnaires dos progressistes, para logo a seguir chegasse o termo conservateur, para qualificar todo e qualquer adversário do changement. Era a consagração da visão geométrica da política, onde todas as opiniões teriam de caber num semi-círculo, com largo espaço para outro semi-círculo oculto.


Sócrates é um símbolo mole daquele situacionismo que ora se revolucionariza com os ditirambos serôdios, ora se fica pelas meditações seraficamente puritanas, marcando os limites de um certo paúl mental, em que continuam a pantanizar-se os intelectuais que dizem servir as ideologias daquelas esquerdas e daquelas direitas que, de vez em quando, reagem contra as obras "The End of Ideologies", publicada por Daniel Bell em 1960, e "L'Oppium des Intelectuels", de Raymond Aron, saída cinco anos antes.


Por outras palavras, muitas das nossas esquerdas dinossáuricas já se aliaram àquelas direitas de velas de cera e feijões verdes, porque ambas, como dizia o antigo, mas não antiquado, liberal Ortega y Gasset, continuam a ser uma estupidificação típica dos que sofrem de hemiplegia mental e que nos querem binarizar, de forma maniqueísta, conforme a aprendizagem juvenil dos amanhãs que cunhalizam ou salazarizam. Porque a direita a que chegámos resulta da esquerda que temos, principalmente quando a direita a quem concedem o direito à palavra é a direita que convém à esquerda, onde os que emergem são sempre os que representam as caricaturas do autoritarismo, do capitalismo de faca na liga, com chapéus de coco e almas de corsário, do anti-ecologismo e do colonialismo mais serôdio.

Como sou liberal, de cepa burkiana e hayekiana, com pitadas pessoanas, apenas não posso é negar que foi o direitista e conservadoríssimo Churchill o principal bastião da luta da liberdade contra o totalitarismo, quando os comunistas, incluindo os ex-, apoiavam o pacto germano-soviético, e outros mesmos se esqueciam do massacre de Katyn.


Eu que sou liberal e que, quase por conclusão, por causa da mentalidade suicida de certa esquerda deste "reino cadaveroso", tenho que ser, excentricamente, de direita, prefiro até notar que alguns marechais da velha direita têm preferido a falsa síntese salazarista-soarista e continuam silenciados sobre este debate entre a esquerda e a direita, só porque pela esquerda e pela direita governamentais foram, e são, teúdos, prebendados, manteúdos e medalhados.


E porque não gosto da "servitude volontaire" dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos "cadáveres adiados que procriam" epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, sempre direi que prefiro os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro e recolhem, à esquerda e à direita, o que, amanhã, perante novas circunstâncias, será das novas esquerdas e das novas direitas.

Percebam, pois, os refundadores da esquerda que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas pombalistas de reforma de estudos ou a essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir.

Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo "puseram na gaveta" as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores.

O PS sempre disputou o espaço que o PSD pensa dele. Sócrates que veio da JSD, quando assumiu o poder disse exactamente mesmo do que Cavaco, nas mesmas circunstâncias. Que eram da esquerda moderna e que tinham como ideólogo Bernstein, o revisionista marxista, quase contemporâneo dos pais de Salazar.


Por outras palavras, entre o socialismo democrático do PS e a social-democracia do PSD, há as duas faces do mesmo Bloco Central, onde costuma desempatar a chamada direita dos interesses.Contudo, o tribalismo PS, marcado pelos discursos do "pai ausente", mas sempre presente, que, enquanto governou pôs o socialismo na gaveta, tem procurado manter o paradigma de certo esquerdismo político-cultural, enquanto os marechais e os organizadores da chamada direita nunca dizem que são de direita e preferem elogiar o situacionismo ou assumir a prebendas senatoriais, pelo que se gera uma espécie de direita que convém à esquerda.


Podemos dizer que os preconceitos de esquerda têm sido mais fortes do que os fantasmas de direita e têm conseguido assumir-se como vozes tribunícias de uma certa oposição social, dado que sempre que a direita desce à sociedade civil, sem ser para o negocismo ou o clericalismo, logo o discurso dominante do politicamente correcto a demoniza como populista.

6.5.08

Com fátimas, futebóis e fados, entre tias de cascais na caridadezinha, loureiros no olhão que joga no boavista e ermelindas do gaivota voava, voava


Antes do anúncio da candidatura do menino-guerreiro, o senador Balsemão volta à política, subscrevendo mais uma candidatura do PSD, assim se aproximando do estado celestial de Adriano e de Soares, demonstrando a vitalidade pátria e a aposta nas novas gerações e nas bases populares. Pelo menos, este gerente de firma, não faz como os seus seis mil companheiros de tarefa, os tais que apenas recebem o salário mínimo nacional, coisa que o esquerdismo dominante já qualificou como fuga ao fisco, quando, para mim, são humildes missionários do liberal-capitalismo que seguiram o exemplo das remunerações recebidas por Álvaro Cunhal, a fim de misionarem o ideário heróico de Adam Smith e Hayek, entre os infiéis lusitanos ainda marcados pelo corporativismo salazarento e pelo sistema de cunhas neofeudais da pós-revolução pós-abrileira.


Felizmente que fomos visitados pelo rei da Suécia e pela brasileira consorte que, ontem, ao cair do dia, passaram mesmo diante da minha varanda, na estreita rua da Junqueira a caminho do palácio de Cavaco, quando, na tasca do Prado, regressávamos às caracoletas em jantar de tribo familiar, falando que estávamos na futura diáspora de nós todos: uns contando-me as histórias do nosso Afonso III que andou lá para os lados de Boulogne, com que muitos confundem o sítio italiano donde nos vieram as universidades medievais e outros, preparando-se para partir para Delaware, lá para as terras fundadas pelo quaker William Penn. Por mim, lhes ia contando as minhas conversas de gente minha aluna e orientada, do melhor que a pátria produziu em exames e teses e que, agora, aprenderam o que eram os concursos públicos para bolsas, subsídios e entradas na docência, os tais com fotografia e pré-marcados, que antes de o serem, mesmo com registo na bolsa de emprego público, já estão ocupados pelos filhos, sobrinhos ou camaradas dos organizadores dos mesmos.


Porque quem é filho de algo consegue sempre que haja um desses normais anormais, das excepções às regras desta amoralidade maquiavélica do neofeudal bloco central do situacionismo e lá consegue ascender ao olimpo dos instalados, mesmo que os controleiros desçam aos meandros das burocracias e não consigam ver os bois diante dos palácios, dado que todos eles fazem parte da raça dos macacos cegos, surdos e mudos, apesar de terem lido os versos de Sophia. Depois, lá tenho que aturar o pai do cunhado, a fazer discursos televisivos em comemorações oficiais, clamando contra a presente degenerescência do regime, que terá perdido a utopia. Por isso, ainda ontem, nas aulas, a pretexto do século XVI, lá eu distribuía pela sala, o original de John Gray, Black Mass, do século XXI, onde um teórico da LSE, que não dá cursos práticos de ciências sociais, nos alerta para esta encruzilhada de gnosticismo, incompreensível para toda uma geração que nada sabe de teologia e confunde sucedâneos religiosos com ideologias politiqueiras, quando, na prática, as teorias são outras, dado que, aqui e agora, só funciona a literatura de justificação dos eternos donos do poder, mesmo que as investigações alienígenas nos demonstrem a total falta de difusão da kantiana ética republicana e a vitória da golpada fidalgueira, bem demonstrada pela fuga ao fisco e pela bandalheira da empregomania, porque nos continuamos a drogar com fátimas, futebóis e fados, entre tias de cascais na caridadezinha, loureiros no olhão que joga no boavista e ermelindas duartes no gaivota voava, voava. As caracoletas, afinal, não estavam más, e viva o rei da Suécia, mesmo que não tenha trazido o Erikson para os meus lampiões. Sempre me recordo da ajuda que tais nórdicos nos deram em Vestefália, 1648, quando a ONU do papa estava ao serviço de Madrid e nem sequer reconhecia a nossa independência pátria, conseguida no primeiro de dezembro. Apenas me apetecia que me dessem lugar no primeiro Mayflower que parta barra fora para um qualquer novo mundo. A quem devo meter cunha?

5.5.08

A alegre teoria do oásis, revisitada


Mais uma semana a caminho do Verão. Neste tempo de vésperas, antes da candidatura de Pedro Santana Lopes, antes de chegarmos ao dia comemorativo da capitulação nazi, antes até de mais um dia da Europa. Acordo com notícias sobre mais um relatório da OCDE, corrigindo a teoria do oásis, com que os governantes do nosso Bloco Central nos conseguem iludir. Reparo agora como as taxas de desemprego têm sido corrigidas com a continuação da nossa emigração, à procura, noutras partidas, de emprego estrutural e de direito à felicidade. Eu próprio o confirmo, com um dos meus filhos, farto de recibos verdes, que procurou noutras paragens a sua realização profissional como trabalhador científico, daquelas ciências que até fazem parte do conceito de ciência do senhor ministro da ciência. Eu próprio reparo como também me apetecia ser emigrante, longe desta decadência de senhores da guerra, fazendo manipulações nas respectivas redes de influência, até no mundo da ciência e da universidade.


Infelizmente, não posso exercer o meu direito à revolta como militante do PSD. Porque, se o fosse, votaria exactamente contra os manipuladores do sistema. Os tais que querem criar uma direita que convenha ao presente situacionismo que, só por acaso, é governamentalmente gerido por um governo formalmente de esquerda. Porque, de tanto comemorativismo sobre o Maio 68 e o Abril 74, alguns não reparam que continuam a triunfar os mesmos donos do poder que manipulavam os salões da sociedade de corte salazarenta. No fim desta primeira década do século XXI, basta um pequeno estudo sobre a rede de influências conseguida por alguns ex-ministros de Salazar e de deputados do marcelismo, para repararmos como tem êxito a mesma tecnologia feudal contra a qual se revoltaram muitos revolucionários de Maio e de Abril.


Condenado, por enquanto, a não poder dar o meu testemunho com pormenores, prometo que, quando a lei mo permitir, irei revelar alguns dos meandros desse assalto clandestino dos mesmos figurões de sempre, através de causas que ainda não são casos, nem causas, mas que usam dos mesmos processos vérmicos de condicionamento inquisitorial e neopidesco, comprimindo a liberdade de expressão e perseguindo sem qualquer disfarce. Por isso, confirmo a parangona de uma ONG britânica: a nossa democracia, em termos de qualidade de participação cívica, é das piores da Europa.

2.5.08

Entre Santana Lopes e o preço do arroz em Bissau


Mais cem mil nas ruas de Lisboa contra o governo. Mais uma grande entrevista com um grande candidato à liderança do PSD. Mais um programa festivaleiro de redução do abrilismo aos unitários antifascistas da frente popular que não houve, mas que acabaram de negar um voto de pesar pelo Cónego Melo. Mais sondagens confirmando que o PS e os partidos mais à esquerda teriam hoje o maior resultado de sempre, transformando a maioria de direita que elegeu Cavaco num ridícula minoria. Porque Zapatero e o PSOE espanhol são esmagadores, mas já não são significativos os comunistas entre "nuestros hermanos".


Porque a esquerda perdeu as eleições em França e em Itália. Porque na Grã-Bretanha os conservadores estão confortavelmente prestes a ganhar as eleições. Porque Portugal continua em contraciclo. E desta feita não há fundos estruturais que paguem o ruinoso "Welfare State" com que traduzimos em calão atrasado os modelos do imediato pós-guerra dos nossos parceiros.




Volto ao programa das canções da RTP-Memória com a Ermelinda Duarte e a Luiza Bastos, quase à maneira da Festa do Avante e noto como, nestes últimos trinta anos, com governos maioritariamente de esquerda, acabámos por não acompanhar os ritmos de justiça social e de criação de riqueza dos nossos parceiros europeus, apesar de sermos o país político mais à esquerda da europa, onde a esquerda é socialista democrática e a direita, social-democrata. E até poderíamos continuar a entoar baladas e canções de protesto contra o autoritarismo, protestando contra muitos sinais de autoritarismo de governos de esquerda como este.



Por isso, recolho notícias sobre o drama do PSD. Hoje, ao almoço, um jovem campanheiro menezista informava-me que PSL tinha as estruturas todas com ele. Ouvi. De repente, passou um ex-deputado do PSD, ainda há pouco entusiasmado com Menezes, como, antes, estava com Santana, e questionei-o sobre o voto: Manela, evidentemente! Porque as directas não são congressos de aparelho, desconfio que PSL consiga convencer o eleitor PSD da injustiça dos barões assinalados, coisa que só os activistas entendem.


Logo a seguir, outro PSD, todo ele santanista, me confidenciava a última teoria da conspiração que atravessa messianicamente o maior partido português: os cavaquistas querem alterar o processo político português, estão à espera de um motivo para a dissolução, à maneira de Sampaio e já têm disponível o nome de um potencial ministro executor: Alexandre Relvas. E lá esbocei mais um sorriso de tédio, perante as desditas de casa onde não há votos, onde muitos ralham e quase nenhum tem razão.


Optei preocupar-me com outras globalidades, conversando longamente com as desditas da Guiné, com um fula e um mandinga, ambos indignados com o risco de Narco-Estado que dá falta de repeitabilidade a Bissau. E lá nos preocupámos com o aumento do preço do arroz e com a falta de espiritualidade que a globalização pouco feliz trouxe ao mundo. Até falámos no Papa e nas confrarias islâmicas que tentam recuperar os tradicionais valores que marcam estes enredos politiqueiros das nossas pátrias. Especialmente em dia de ponte, onde os alunos e os professores compareceram em massa, cumprindo o respectivo dever.


1.5.08

Prefiro o autêntico D. Sebastião, o que vai de Bandarra, antes de D. Sebastião nascer, ao Padre António Vieira, depois de D. Sebastião não morrer


Ouvi e li. Passos Coelho e Manuela Ferreira Leite. O primeiro a dizer que é reformista e liberal, saudoso da anterior filiação internacional do partido. A segunda, a fazer política, com ar de quem não gosta da política, e muito menos dos políticos, fingindo, à maneira do paternalismo de Cavaco, que é boa moeda contra a má moeda, porque basta passear-se em nome do respeito e desse misterioso prestígio tecnocrático que dimana dos que são santificados como bons contabilistas públicos. Felizmente que não sou do partido de nenhum dos dois.


Se gosto, evidentemente, do estilo de Pedro Passos Coelho, que tenta não repetir a Blitzkrieg que levou Manuel Monteiro a vencer Basílio Horta, também prefiro o autêntico D. Sebastião, o que vai de Bandarra, antes de D. Sebastião nascer, ao Padre António Vieira, depois de D. Sebastião não morrer. Daí que pouco me interessem as esperas de Alberto João e as dúvidas de Pedro Santana Lopes. Ambas andam pelo nível das entrevistas de Pinto da Costa e dos meandros do julgamento de Marco de Canavezes, isto é, pelo rebaixamento dos fins da política. Prefiro tirar outros retratos, em manhãs de nevoeiro.