a Sobre o tempo que passa: Julho 2007

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

31.7.07

Um lugar do sul, um lugar de sal, entre alcatruzes e a terra estreita




Para os devidos efeitos se informa que estou por aqui, bem pertinho dos alcatruzes dos polvos, cá para as bandas de Santa Luzia, onde a componente autóctene e piscatória ainda domina os serviços turísticos. O arroz de lingueirão continua óptimo e a viagem para a Terra Estreita, para além de hora e meia de espera no passadiço, em certos dias, demora apenas cinco minutos.

Várias vezes, a ilha largou do continente, esquecendo-se da campanha para a eleição do líder do PSD e das novas contratações do Benfica. Há um poço de água fresca e sabe tão quente sentir cair o dia no sapal, com este cheiro intenso de maré vazia. Depois, há noites de lua cheia e barcaças que nos levam para o outro lado de quem somos.


Sobretudo, um braço de mar que entra por mim dentro. E sempre a procura de um sítio onde pensar-me, um simples lugar que me dê mais tempo, para poder perder meu tempo. Porque assim posso voltar a ser menino na praça das cidades abertas, voltar a ser olho marinho, com todos os sonhos que outrora me sustiveram, lá nas alturas da janela do meu sótão.
Não trouxe livros para ler nem consumo semanários de análise política. Porque vivendo em um novo lugar, andei absorvido durante os primeiros dias a captar a alma do sítio, dando passeios matinais para saber onde se compra o pão, onde fica a barbearia do senhor Bento, etc... Porque é melhor conviver numa vila onde viva gente do que refugiar-me na paliçada de um qualquer hotel com "spa" e fila para o pequeno-almoço sempre igual.
Ainda há pouco tropecei no imprevisto do dia, quando, na primeira caminhada, em plena rua, uma velhinha, de negro vestida, ao cruzar-se comigo, me saudou com um sonoro e feliz "bom dia". E lá recordei esse resto de civilização que o mundo não urbano ainda conserva e que ostensivamente me envergonhou, eu, capitaleiro, de rurícolas origens, que já nem sequer é capaz de praticar as regras da boa educação que aprendeu de seus avoengos. Respondi-lhe evidentemente: "bom dia, minha senhora".

27.7.07

Boas férias, tudo como dantes, sem que o quartel-general esteja em Abrantes e sem que os loibos uvem em São Bento...


Dei agora um salto à RCP, para comentar a drenagem das charruadas e lá tive que recordar que a qualidade de uma democracia não se mede por sabermos quem manda, mas antes por sabermos como de institucionaliza o controlo do poder. Democracia não é sondajocracia. Aliás, Hitler obteve uma maioria numa democracia, a da República de Weimar, e a Inquisição era bastante popular, com pressões do braço popular em Cortes, quando o rei queria abrandar o terrorismo de Estado, e amplas adesões das massas aos autos de fé. Aliás, em determinados momentos de pânico securitário, mesmo dos nossos dias, se a pena de morte fosse a referendo, logo revogaríamos a respectiva abolição, constante do Acto Adicional à Carta de 1852 e do decreto de 1 de Julho de 1867.


Tem razão Alegre quando fala no medo. E também tinha razão quando falava do mesmo medo durante o cavaquismo e nos congressos do PS dominados pelo aparelhismo. Não tem razão Sócrates quando ironiza com estas lembranças. Depois de séculos de inquisição e de quase meio século de autoritarismo, se eliminámos os aparelhos de repressão, manteve-se o subsistema de medo que os mesmos geraram e não se apostou na revolução cultural educativa que desse autonomia às pessoas, com a consequente meritocracia.


Deixámos subsistir os colectivismos, herdados do beatério catolaico ou comunista, onde qualquer um para se libertar dos pecados adere a uma dessas seitas, dizendo que não recebe lições de democracia dos adevrsários e demonizando-os com um qualquer adjectivo depreciativo.


Acresce que o PS, com poucos dirigentes da ala histórica, ou que tenham estado na Alameda contra o gonçalvismo, como esteve Alegre e não estiveram os "correias de campos", é a primeira vez que tem uma maioria absoluta, dirigida por um antigo JSD. E o tradicional partido plural, complexo, federativo e liberdadeiro, sentindo-se inquieto, vai-se contorcendo em azias, deixando que as vozes da rebeldia fiquem apenas com dissidentes como Alegre ou José Medeiros Ferreira.


Esquece-se que o poder não é uma coisa que se conquista em "spoil system", mas antes uma relação, uma relação entre os aparelhos e a comundidade, entre o principado da governança e a república dos cidadãos, onde a sociedade civil não se reduz à CIP e aos loibos que sabem uivar e que não podem institucionalizar-se no parlamento, para não fazerem concorrência aos senhores deputados que pretendem monopolizar a actividade disfarçadamente, num país onde o importante não é ser ministro, é tê-lo sido, para recordar uma conhecida exclamação de António Almeida Santos, como amanhã glosarei na RTP.


Boas férias, tudo como dantes, sem que o quartel-general esteja em Abrantes...

26.7.07

Não, não vou por aí!


Tenho conhecido, ao longo da vida, tipos de bom e mau carácter, bem como amigos e adversários, de um ou outro teor. Detesto particularmente os que não têm bom e mau carácter porque, antes dos adjectivos, lhes falta o próprio substantivo, especialmente esses cobardes ambulantes que não têm vida, de tanto se submeterem para sobreviverem.

É por isso que as férias que amanhã iniciarei me farão retomar as energias de querer continuar a viver como penso, sem vocação para "homo partidarius", candidato a partidocrata, ministro ou deputado, mas com muitas mágoas por sentir que instituições a que dei um pedaço da minha vida entraram em agonia ou em degenerescência, especialmente quando deixaram que os absolutismos as corrompessem por dentro, desde o absolutismo de um só, pretensamente reaccionário ou vaidosamente iluminado, ao absolutismo de uma maioria conjuntural ou de uma oclocracia a ritmo de serôdia RGA, com sabor a plenário das universidades privadas ameaçadas de encerramento ministerial.


É por esta e por outras que me calo hoje, sobre aquilo que começou a emergir nos jornais tanto sobre uma agonia de pretenso partido como sobre segmentos universitários, coisas sobre as quais aqui tenho reflectido sem mantos diáfanos de hipocrisia, quase quotidianamente. Se a universidade não é o lugar adequado para se estabelecerem falsos tribunais ou palanques para a vindicta, deve ser um claustro da ciência e um dos redutos da liberdade académica contra a ameaça do pensamento único e, se for necessário, da própria resistência libertadora.



Uma universidade ou um partido só poderão reclamar do Estado autonomia se se assumirem como instituições. Porque, em primeiro lugar, são uma ideia de obra, uma criatura que se liberta dos criadores, até porque os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. Porque, em segundo lugar, têm o dever de gerar manifestações de comunhão entre os respectivos membros. Porque, em terceiro lugar, exigem o leal cumprimento de regras processuais de um Estado de Direito.


E o Estado de Direito nunca foi o princípio da legalidade do governo dos espertos, dado que, no seu íntimo, é o exacto contrário do absolutismo e do consequente despotismo pretensamente iluminado. Até quem manda está submetido à própria regra que pode fazer. Porque nem tudo o que quem manda diz é lei. Quem manda tem de obedecer a princípios como os da igualdade e da imparcialidade. Aliás, hoje, quem manda nem sequer existe fora de quem o elege, dado ter que ser o representante de todos.

Pode ter a aparência da legalidade dos senhores da guerra, ou de ditaduras castrenses e regulamentares, acumulando a sacristia com a cavalariça, através do regresso ao processo revolucionário em curso, mas não tem legitimidade.

Ai de quem não reconheça que quem detém qualquer parcela de poder pode abusar do poder que lhe foi depositado pela comunidade, exigindo-se a separação de poderes e a cooperação estratégica entre eles. Ai de quem não reconheça que a autoridade, que vem de autor, é superior ao poderio transitório.

Não, não vou por aí! Sei o que são as subversões a partir dos aparelhos de repressão e de distribuição das prebendas e sei que as modas passam de moda e só tem aparência de novo aquilo que se esqueceu. Robespierres em latas de conserva são susceptíveis de apreensão pela ASAE...

25.7.07

Contra o medo de pensar pela própria cabeça, contra o medo de discordar, contra o medo de não ser completamente alinhado


Como não vou pagar quotas ao PSD, espero, ansioso, a pausa de Verão, embora ainda hoje tenha que aturar mais um filme série B de mais uma consequência de prequianos golpes de revolucionários frustrados, sentados nas alcatifas directoriais dos suplementos de vencimento, com que costumam ser prebendados os cabos eleitorais e que não lêem os que têm razão antes do tempo, como o poeta Manuel Alegre que, hoje, traça a causa desta decadência: “medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado”, com a consequente “tradição governamentalista”, que leva um partido, quando está no Governo, a transformar o “seguidismo” “em virtude”.
(é evidente que onde está Governo pode ler-se qualquer outro agente de poder ou de distribuição de subsídios, promoções ou viagens, podendo a coisa ser substituída por "chefe", chame-se director-geral, presidente, directivo, reitor, delegado ou governador-civil, incluindo os pretensos filiados nos partidos de Sócrates, Salazar, Marques Mendes, Portas ou Jerónimo de Sousa, especialmente quando o chefe tem uma corte de plurais comedores do dinheiro do povo)


Também alguns segmentos da dona universidade, em vez de aprenderem, investigarem e ensinarem, preferem brincar a certo revolucionarismo frustrado, onde não faltam bibliotecários que semeiam ameaças a torto e a direito, contra as esquerdas que não querem ser assimétricas e contra as direitas que não são compráveis, procurando impedir o urgente gesto do Zé Povinho contra a coligação de fidalgotes, inquisidores e pides não reciclados, a qual ameaça com o terror reverencial e a terra queimada saneadora, nesse explosivo misto dos verões quentes, donde costuma emergir a ditadura da incompetência, quando a assembleia do MFA dá origem ao V Governo Provisório.


O cúmulo desta insanidade orgânica pode até levar a que a pretensa legalidade formal do governo dos espertos promova a reunião plenária de uma qualquer direcção-geral do antigamente, dominada pelos habituais administradores de posto, de colonial memória, para assumir por unanimidade medrosa uma nova lei orgânica digna do PRACE, onde se invoque a Constituição de 1933, porque a aprovada Constituição de 1976 ainda está à espera de publicação.


Assaltando-se a "vacatio legis", pode ser que alguns ex-estudantes de teologia interpretem a dita branda como mera vaquinha propícia à cow-boiada, onde não faltam promoções para os chefes de facção, concursos com fotografia para os pretensos chefes da oposição e imensas prebendas para os serviços prestados pelos senhores da guerra que feudalizaram a coisa, tudo à custa da mesa do orçamento e do consequente devorismo.


Tudo o que digo coincide com a realidade dos que, degrau em degrau, lá vão descendo a caminho do delírio, com sucessivas bebedeiras contra-revolucionárias e revolucionárias, onde a índole de extremistas da esquerda e da direita rompe o verniz do pseudo-estadão dos cargos assaltados, só porque alguns dizem fazer cesarianas de alienígenas, mas com os métodos típicos da autópsia, dado que outros proclamam não seguir os adequados manuais de medicina forense, de que se assumem como os únicos especialistas, mesmo sem preparação básica.


Enquanto isto, na macropolítica politiqueira, com o caso Charrua arquivado e com o caso dos sobreiros em acusação formal, eis que a governança se engasga com a teatrocracia do plano tecnológico, devido à encenação das agências de comunicação que recorreram ao trabalho infantil, para que aquilo que apareceu no telejornal pudesse continuar esta paradoxal conspiração de avós e netos, onde, depois dos velhinhos que vieram de Cabeceiras de Basto fazer o comício a António Costa, tudo se assemelha, cada vez mais, aos figurantes contratados para os sucessivos programas dos "prós e contras".


Julgo que Sócrates não deve transformar-se em Fátima Campos Ferreira, nem o parlamento que volver-se em auditório da Casa do Artista. Quanto às criancinhas, se aplaudo o golpe oposicionista de Zita Seabra, mais me irrita que o governo tenha servido de campo de promoção para a empresa que forneceu computadores ao Estado, e que utilizou o primeiro-ministro de nós todos como figurante de filme de propaganda comercial.


Por mim, quero continuar a pensar pela própria cabeça. E não temo os bufos. Da direita e da esquerda. Incluindo aquele que, fingindo-se meu companheiro de valores, se mostrou portador do habitual neodogmatismo petensamente antidogmático, com os degenerados trejeitos maneiristas do anti-inquisidor realmente inquisidor, sem reparar que, mui avençadamente, entre o "mosca" do Intendente e o "bufo" da PIDE, houve alguns "formigas" que tramaram tanto Afonso Costa como o 25 de Abril. Desta feita, os chefes não foram parvos e sabem que tudo sai dos meus privatíssimos arquivos da memória que adequadamente informatizei e donde não constam fichas nem contrafichas do "Lumpen".

23.7.07

Quando quatrocentos metros demoram dois meses a percorrer, neste Estado de Direito feito "simplex"


Porque me publicizei demais na passada semana (O Diabo, Visão, TSF, RCP, DN e provas de agregação numa universidade que correram com a normalidade da heterodoxia ortodoxa), quase atingindo o grau dos meus criticados "opinion makers" e antes de marchar para um Agosto longe de Portugal, serei breve, telegráfico e elogioso, sem ironia. Vou dizer bem do Luís Amado e, sobretudo, do cabouqueiro Lobo Antunes, com destaque para a boa equipa de jovens europeritos que o mesmo mobilizou: parabéns pela iniciativa de projecto de tratado de Lisboa que hoje apresentaram.


O resto é paisagem em risco de desertificação. O resto é Mendes reduzido a sargento verbeteiro de um aparelho partidário. E Portas lembrando-se dos métodos de fuga ao segredo de justiça que usava como director do "Independente", numa época já prescrita, especialmente com os encontros diante do cemitério dos Prazeres, acima do Palácio das Necessidades. O resto é decadência e anedotário.


Hoje é Estado de Direito, interpretado à belenense. Um governo (regional) diz que não vai cumprir uma lei da República. Um presidente da mesma República aconselha os cidadãos a protestarem junto da morosidade da justiça. Os cidadãos calam e concluem que assim o presidente pode correr o risco de não cumprir a lei constitucional que o erigiu em garante das instituições constitucionais.


Porque os socratezinhos, treslendo, podem acumular com as memórias dos cavaquinhos e dizer que não cumprem a lei, na sua letra e no seu espírito, incluindo a lei constitucional que determina haver Estado de Direito no próprio circuito burocrático e político da administração directa e indirecta do Estado. Porque uma grávida que legalmente poderia abortar, ao recorrer aos tribunais, pode até ver que a coisa demore três a cinco anos a chegar ao fim, sobretudo se o Tribunal de uma qualquer boa hora demorar dois meses a enviar cinco quilos de processo para o tribunal superior que fica a quatrocentos metros de distância, por falta de transporte. Ainda não foram oferecidos computadores a baixo custo a todos os chefes, até para evitar que eles recorram à blogosfera anti-socrática.


Faço uma sugestão à secretária de Estado do "simplex": faça um acordo com as empresas de táxis de Lisboa e mande recorrer aos ditos em "outsourcing", com cheques de viagem. Até poderiam suprimir noventa por cento dos motoristas dos pequenos chefes da função pública. Para pequenos males, grandes e simples remédios...


PS: Parabéns ao Luís Salgado de Matos, que concluiu brilhantemente as suas provas de agregação na Universidade Nova de Lisboa. Fui um dos seus arguentes na sexta-feira passada. E tentei ser tão heterodoxo quanto o arguido. Para que a Universidade possa continuar ortodoxa.

20.7.07

Os tiques absolutistas dos novos pequenos PRECs em curso de afundação


Sua excelência a maioria parlamentar aprovou ontem tudo o que quis. Com toda a legalidade formal, mas com amplos buracões de falta de legitimidade. Imaginemos que o exemplo se propaga.
Imaginemos que, num dos arremedos desta democracia, aparecem uns exemplares prequianos que misturam este modelo com uma mentalidade vanguardista de democratura, usando o figurino da democracia representativa para transformarem efémeras maiorias absolutas em absolutismos listeiros, ao serviço de pequenos césares de multidões de subsidiados e empregados num arremedo de PREC e de União Nacional, onde até se podem comprar os líderes da oposição, através de um processo de assalto ao poder, num delírio de revolucionários frustrados que, misturando os métodos da FRELIMO com os da velha UDP, vão repetir as bebedeiras adolescentes, onde cangalheiros, vestidos de director-geral, serodiamente nos atiram para o abismo do falso centralismo democrático, onde não faltam comités centrais e seus descendentes?


Por mim, apenas gostaria que tudo isto se tratasse de ficção e não coincidisse com sectores da realidade pagos pelo dinheiro do povo. Mas não. É efectivamente verdade e repete o verão quente das assembleias do MFA antes do V Governo Provisório, numa mistura de ritmo madeirense, importações de Samora Machel e brincadeiras de almoçaradas com pides, num triunvirato delirante de um verão quente que, pintado de socialista, não passa de um descarado social-fascismo.


Apenas repito o que há anos denunciei contra os mesmos actores e líderes, quando eles eram criados de servir de um absolutismo salazarento.


"Estamos, neste momento, a viver a crise típica dos estados febris que se sucedem a certos vazios de poder e a sublimação das tendências recalcadas que precedem as movimentações para a conquista ou para a manutenção em certos poderes políticos, universitários ou sociais (tudo com minúscula, assinale-se).
Nem sequer a crise é apenas de uma simples subunidade orgânica do estadão, dado que, sobre nós, confluem, talvez freudianamente, crises de outros círculos maiores da nossa instituição universitária, de outras instituições universitárias, onde coincidimos individualmente, e, sobretudo, de muitas carreiras e correrias pessoais, que provocam um ambiente propício à pequena demagogia dos pretensos césares de multidões, com emanações de terrorzinho de salão, de assembleia, de corredores (na expressão correspondente do inglês), de cartas anónimas e de telefonemas com grunhidos animalescos, onde já funcionam as ameaças e as interferências na própria vida privada de quem não quer ser formatado pela corrente.

Não me parece que os tempos do estado febril da sociedade, sejam eles adolescentes, adultos ou serôdios, se mostrem propícios a decisões de médio e longo prazos, necessariamente harmónicas que reconheçam e dinamizem a poliarquia de paradigmas que, neste momento, conforma a nossa instituição.


Talvez não convenha cedermos aos tempos onde a raposa passa a usar as garras do lobo e a serpente a querer voar como as rapinas. Nem sequer vale a pena a linguagem das pombas a abater ou dos cordeiros a imolar. Não acredito nos animais falantes.

Apenas manifesto a minha dor pelos desenvolvimentos recentes do poder infraestrutural. Pelas consequências da conquista e manutenção do poder na rede institucional em que estamos inseridos, todos poderão ver, amanhã, a constelação causal e as acções reversíveis do processo em curso.

Declaro, com toda a frontalidade, em nome da normativista "moral de convicção", que tanto não aceito o autoritário "quem não está contra mim, está a favor de mim", como repudio activamente o totalitário "quem não está a favor de mim, está contra mim". Os fins não justificam os meios...


Concordarmos com algumas reivindicações desta mistura de vanguardismo com situacionismo, não significa concordarmos com os meios usados pelo poder organizado dominante. E só um pensamento binariamente linear pode, em seguida, concluir, que quem assim pensa e actua tem necessariamente de apoiar a intervenção dos aparelhos de repressão em vigor.

Num Estado de Legalidade não me parece educativo que se utilizem tanto a via revolucionária da acção directa, de quem ousa fazer justiça pelas suas próprias mãos, em nome da primordial vindicta privada sem os limites da legítima defesa, como o vanguardismo da lei de ferro da oligarquia partidocrática.
Num Estado de Direito Democrático, onde todas as pequenas instituições estaduais do mesmo se devem integrar, não considero justo que se ceda à pressão da nostalgia revolucionária ou dos candidatos a princeps que mimeticamente confundem o pretérito perfeito com o futuro aventureiro.


As regras da democracia representativa e pluralista não admitem excepções para o corporacionismo universitário, estudantil, burocrático ou professoral. Prefiro o sufrágio universal (do voto secreto), a liberdade livre (dos liberdadeiros) e o respeito pelas minorias (da poliarquia). Repudio a tirania das maiorias, o elitismo de salão, a ditadura da moda, o império do vazio e o ostracismo.

Já pratiquei estes princípios de cidadania quando corriam os crepúsculos autoritaristas e os consequentes ventos da moda da tradução em calão do nosso pensée 68 ou do pretenso PREC do jacobinismo leninista à portuguesa.

Continuarei a praticá-los mesmo que a degenerescência invoque sinais ideológicos contrários em nominalismo, mas iguais na metodologia, nos gestos e às vezes nos próprios figurantes da cena. E muito menos cederei se o processo for marcado pelo niilismo da vindicta. Quem tem razão a curto prazo, pode não tê-la tanto a médio prazo como a longo prazo. E só é moda aquilo que passa de moda.
Não tenho medo de estar de acordo comigo mesmo, ainda que venha a estar em desacordo com todos os outros. Tanto é mau o despotismo de um, ou de poucos, como o despotismo de todos.


Julgo saber analisar laboratorialmente os invocadores da pequena Razão de l’Etat c’est moi bem como os pretensamente "lúcidos" praticantes da "moral de responsabilidade".
Também percebo a vontade de poder dos que dizem querer salvar a cidade, apenas a pensar na paróquia, no quintal, na casa, na bolsa, na barriguinha, na inveja ou nas vaidades. E entendo o libidinoso de muitas ânsias dominandi, o dogmatismo de acaciana pacotilha e o indisfarçado desejo quanto à imposição de um paradigma único, de um pensamento único e de um politically correct tribalista. Prefiro, neste tempo dos tais homens "lúcidos", ter "a lucidez de ser ingénuo".
Já fui julgado pelo tribunal da oclocracia e a sentença foi publicada no dazibao. Só falta o sanbenito e a queima da efígie.

Não tenho tolerância para ser incluído na caderneta das criaturas toleradas! Ninguém me pode "doar" aquilo a que tenho direito, por concursos públicos, provas públicas, escritos públicos, conferências públicas e aulas públicas! E nem sequer peço solidariedade àqueles colegas que se prontificarão a lavar as mãos como Pilatos. Numa instituição da democracia não pode haver pulhítica.

Vou continuar a viver como penso, sem pensar muito em como viverei aqui. Apenas reclamo o direito de continuar a cumprir o meu dever de professor. Não venho aqui oferecer a minha cabeça na bandeja para a vindicta dos que, por outras razões, me pretendem transformar em bode expiatório. Venho assumir a coragem de ter comigo uma ampla minoria constituída por mim mesmo".
Aqui e agora, onde, na prática, a teoria é outra, e onde a esmagadora maioria dos cidadãos está adormecida pela indiferença, apenas repito o que ainda há pouco me ensinavam: o bem comum é inércia, o mal do vanguardismo é sempre a dinâmica dos organizadores. E nem a resistência passiva, quando passa a organização política, continua os belos princípios que a geraram. Resta a subversão do pensamento que pode deixar semente e ser exemplo contra aquilo que aqui denuncio e não é metáfora ou futurismo orwelliano da utopia negativa, mas unhas cravadas no dorso e um real asfixiante que faz apelar à procura de exílio se o direito à indignação não se transformar em revolta contra a cobardia. É o meu dever. Não, não vou por aí...

19.7.07

A fala forte apenas disfarça o argumento fraco da habitual esquizofrenia do Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas


O ministro da consciência tranquila e da propaganda veio hoje confirmar à Lusa que sempre houve tiranetes na administração pública, isto é, veio hoje reconhecer que, sob o respectivo governo, continuam os tiranetes. Por outras palavras, face ao continuado laxismo do Bloco Central, muitos têm que confundir o exercício do poder com pequenos e grandes tiques autoritários, onde a fala forte apenas disfarça o argumento fraco da habitual esquizofrenia do Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas.


Onde o exagero dos sinais exteriores de poderio não consegue disfarçar o vazio de autoridade. Onde o hábito não faz o monge. Até porque os "teres" do que parece e do que aparece acabam por corresponder a um "não ser". Porque o Estado a que chegámos não passa de um gigante com pés de barro, a que costumo dar o nome de estadão.


Basta notar a entrevista televisiva com que Marques Mendes, outro ex-ministro da propaganda e do alinhamento dos telejornais, tentou responder ao gaiense Menezes, demonstrando como está para o PSD como Ferro Rodrigues esteve para o PS. Onde apenas se espera que o actual supremo revisor de contas acabe por fazer-lhe o vazio com que o antigo notário do regime despediu o actual embaixador na OCDE, na fase não-Pilatos do respectivo mandato belenense.


Já a viagem pelos micro-autoritarismos sub-estatais continua. Ainda ontem ouvia ao vivo, e em directo, um discurso sobre o conceito de Estado de Direito de um ex-alto responsável pela reforma do estadão socialista, para quem a administração pública apenas poderia protestar pelo recurso aos tribunais. Isto é, não reparava que a justiça sempre foi superior ao direito e este, superior à lei. E que mesmo uma ditadura, com tortura, pode obedecer ao princípio da legalidade, como acontecia com os pides no salazarismo.


Julgo que precisamos muito de "glasnot" nesta falta de paredes de vidro de muitos segmentos de uma administração pública, onde a "perestroika" está cheia da velha mentalidade concentracionária. Os cursos rápidos de pluralismo e de Estado de Direito seriam benvindos, para extirparmos a subcultura de estadão caciquista que nos enregela, nesta "second life", plena de cangalheiros com música celestial.


18.7.07

Foi dentro de nós, da comunidade das coisas que se amam, que tudo aconteceu


Os cerca de duzentos mortos do acidente de São Paulo exigiriam que não mais se emitissem notas oficiais como as que informam não haver notícias sobre os portugueses na lista das vítimas. Deveriam exigir que, em primeiro lugar, se manifestasse dor e até dupla cidadania colectiva. Foi dentro de nós, da comunidade das coisas que se amam, que tudo aconteceu.

Será também inadmissível que aproveitemos o pretexto para avaliar a Portela mais um, Alcochete e Ota. Vale a pena notarmos como são fracos os nossos elos informativos com o Brasil, onde os correspondentes, pelo telefone, fazem televisão e onde algumas redacções recebem notícias, nem sequer as procurando nos jornais brasileiros disponíveis na "net".

O Brasil, da Embraer, que ocupa um dos primeiros lugares do mundo na aeronavegação, vive em profunda crise de desinvestimento neste sector, como se tornou patente desde o acidente do GOL. Quem se desleixa em conter os ventos pode acabar por sofrer graves tempestades, numa área onde importa reconhecer que o seguro não deve morrer de velho.

Hoje, não vale a pena criticar Lula, importa cuidar dos vivos e enterrar os mortos, quando eles são da minha querida segunda pátria.

Que saudades eu tenho dos treinadores de bancada do "Jogo Falado"!


Lê-se no "Público" que quando os trabalhos foram retomados após o almoço tinham sido feitas 137 votações e aprovados 30 artigos. "Pelas minhas contas, estamos a discutir 462 alterações [entre a proposta do Governo, do PSD e as alterações apresentadas por PS, PCP, CDS-PP e BE]. Ainda faltam mais de 300 votações", resumia o presidente da comissão, António José Seguro. Artigo a artigo, muitas vezes alínea a alínea, os deputados, munidos de muitas garrafas de água, eram chamados a votar ou a explicar o sentido das propostas. Que por vezes ficavam por dar. Questionado pelo CDS-PP sobre o sentido de um dos artigos da proposta do Governo, que ia receber o voto favorável do PS, o deputado socialista Manuel Mota alegou que tal já tinha sido discutido e que não valia a pena "perder tempo". "Ficamos a saber que há uma norma que vai ser aprovada, mas não sabemos para que serve", criticou Pedro Duarte.

Por outras palavras, o ilustre parlamento parece ter trabalhado noite dentro no corte e costura da projectada lei da universidade e do restante superior de forma bem inferior, para que Gago possa ser digno sucessor da revolução dos homens sem sono e do reformismo de Veiga Simão, neste filho de pai que agora fica incógnito, sem ter que dar despacho sobre a Universidade Independente, o tal que foi solenemente prometido como rapidamente e em força, que quem diz ter força pode, afinal, não ter doutrina.

Recorde-se o que disse o meu colega Jaime Nogueira Pinto quando, ao elencar algumas características da actual classe política idênticas às de Salazar (acabava sempre por demonstrar quem mandava: era ele próprio. Hoje, popularmente, as pessoas voltam a gostar de um político que saiba tomar uma decisão, de acordo com o princípio "manda quem pode"), respondeu: sou insuspeito, por isso falo à vontade: José Sócrates tem esse lado. Aparece como uma pessoa que toma decisões. Cavaco Silva também foi assim. As pessoas gostam disso.

Sem seguir essa via de ressalazarização, eis que, entre nós, a oposição se vai fragmentando com meras parangonas da jornalada, entre os tabus de Portas e de Manuela Ferreira Leite, com cavaquistas a serem mendistas, segundo um grande jornal, e antimendistas, noutro, enquanto os mesmos laranjas se despedem de Paula Teixeira da Cruz e os portistas de Lisboa continuam a ter que ser subcomandados pelo deputado EMEL, para que o país camiliano assista a dramas suicidas no Montijo e à condenação do patrão do alterne brigantino.

Por isso me preocupam as chamadas novas destas férias futeboleiras, dando total razão ao Paulo Bento do Sporting que devido a várias saídas tem várias faltas de recursos tanto na ponta direita como na ponta esquerda, especialmente na defesa, dado que, quanto avançados, tem bons pontas de lança e especialmente avançados do centro. Basta que fiquem a bailar na grande área, à espera que lhe lancem a bola para o golo eficaz. Confesso que estou com saudades do Seara de Sintra, do Aguiar de Gaia e do Dias Ferreira de todas as sete partidas no "Jogo Falado", especialmente por causa da sucessão de Mendes, onde todos eles jogam sem falar, assim demonstrando como o PSD pode ter muitos defeitos, mas monopoliza os bons debates sobre a futebolítica. Preciso de saber o se passa sobre a OPA dos chineses sobre o Benfica, os subterrâneos do apito e os tabus da mana, já que o blogue do Pedro nada nos disse até agora sobre o fim da Atlântica 2 e a demissão do Couceiro.

17.7.07

Entrevista de Ana Clara

Para efeitos de arquivo, junto deixo entrevista de Ana Clara, hoje publicada em "O Diabo". A entrevista foi concedida por telefone e o trabalho de composição cabe à jornalista, incluindo algumas transcrições não sujeitas ao corrector ortográfico.

O DIABO — O Presidente da República avisou na semana passada «alguns agentes dos poderes públicos» para terem «cuidado com as suas atitudes» e defendeu que é preciso dar «mais qualidade à democracia». A democracia está podre?
ADELINO MALTEZ — A nossa democracia não tem culpa de tão maus serviçais que vai tendo.
Qual é o problema?
Estamos perante uma espécie de recorrência. Parece que vivemos inspirados pelo antigo Presidente da República da Checoslováquia, Václav Havel, que teorizou uma categoria de regime que qualificou como o sistema pós-totalitário, em que tinham sido eliminados os sinais exteriores de repressão — sem pessoas presas em campos de concentração, por exemplo — mas permanecia um subsistema de medo.
E esse subsistema de medo está patente na nossa democracia?
Não tenho dúvidas nenhumas. É o que está a acontecer nesta sociedade aberta e na democracia. Tivemos séculos de Inquisição. Deitámos fora a Inquisição e ficou o «bufo».
Ficou o «bufo» em que sentido?
Um «bufo» que teve vários nomes, como a PIDE, por exemplo. Há bufos à esquerda, à direita, como houve saneamentos gonçalvistas, promovidos pelos informadores e delatores, em nome daquilo a que se chamava a vigilância revolucionária e que, no fundo, não passava de uma guerra de invejas. Tivemos mais de 40 anos de autoritarismo salazarista, tivemos saneamentos gonçalvistas. Todos eles deixaram subsistemas de medo.

E esses subsistemas de medo ainda estão presentes em quê? Como se eliminam?
Está tudo vivo. A forma de se eliminar este subsistema de medo não é com os discursos do Presidente da República.

Então é como?
É com Educação.

E o que é que acontece a um subsistema destes?
Se não se educa as pessoas, permanece este lastro, que é a escravidão voluntária. A culpa não é do déspota, a culpa é dos que, tendo medo, provocaram o déspota. Quem faz os «Salazares» são os escravos que gostam de o ser. E a culpa de a nossa democracia apresentar estes sinais não é de José Sócrates, é do povo português.

Como é que se pode explicar todo este clima de intimidação e medo que existe no País contra o Governo?
O que temos em Portugal é uma espécie de «Cavaquinhos».

«Cavaquinhos»?
Sim, que agora são também os «Socratinhos», os «Correias de Camposinhos» e que são os micro autoritarismos subestatais. A principal doença desta recuperação de subsistemas de medo está na repercussão como cogumelos de pequenos déspotazinhos caseiros.

«Chefinhos mais papistas que o Papa»
E é isso que temos neste momento em Portugal?
Sim. Micro-autoritarismos subestatais onde há «chefinhos» mais papistas que o Papa.

Para onde caminhamos então em termos de sistema e de democracia?
Já tivemos isto na democracia no tempo de Costa Cabral. Ao fim de uns anos de Costa Cabral, as pessoas pararam numa guerra civil, na Maria da Fonte.

E nós caminhos para uma guerra civil?
Não… Se fosse noutra dimensão era para aí que caminhávamos.

Então para onde caminhamos?
Bastava uma admoestação nas reuniões de quinta-feira em Belém para isto ser resolvido. Mas o problema é que estamos na Presidência Portuguesa da União Europeia. Isto resolve-se da maneira mais simples do mundo. Em primeiro lugar, o partido que está no poder é o partido que menos tem a ver com este ambiente, é o mais libertadeiro dos partidos democráticos.
Mas isso é uma contradição, tendo em conta os casos em que tem sido acusado de tentar calar muitos sectores…
É e isso é que é bom. É o contrário do que pode parecer. Sócrates acha que ter autoridade é ser assim. Mas Sócrates é um gonçalvista mal reciclado que fala em nome do PS.
Está então a falar de uma imagem maquilhada…
Acho muito bem que eles tenham vindo para o lado do pluralismo e da democracia mas que se dispam desses gonçalvismos mal reciclados.
Mas temos, por exemplo, políticos, como a Secretária de Estado da Saúde a dizer que só se pode criticar o Governo em casa ou em círculos privados. Parece que vivemos num País anti-democrático…
Este tipo de declarações resume-se a governantes que são uma anedota para os cidadãos e para a comunicação social. É o contributo para uma campanha alegre.

Chegamos ao ponto de ver a Igreja Católica atacar o Governo por falta de liberdade, de diálogo e de Educação em Portugal. Como interpreta este sentimento anti-Governo que atinge transversalmente a sociedade?
As relações entre a Igreja e o Estado são reguladas pela Concordata. Se o Governo não cumpre a Concordata a Igreja deve promover uma reunião e alargá-la a todos os sectores da sociedade civil e estabelecer as denúncias respectivas. Mas se a Igreja se assume como grupo de pressão — e é o que ela está a fazer —então não há Tratado Internacional nesta matéria para quem se assume como grupo de pressão.

É perigoso a Igreja entrar por este caminho?
Qualquer artificial conflito entre a política e a religião é suicida e perigosíssimo porque seria uma espécie de guerra civil interior dentro de cada um. É melhor cada um manter-se no seu caminho, cooperando porque se fazemos uma confusão entre o povo de Deus e o povo da República é terrível. Em primeiro, há pluralidade de pertenças, mais de metade dos portugueses são ao mesmo tempo Povo de Deus e Povo da República. Ele não pode despir-se de um fato e vestir outro porque está dentro dele.

Que balanço faz da actuação do Governo nestes últimos dois anos? O País está melhor?
Numas coisas está melhor, noutras está pior. O balanço global da actuação do Governo é o balanço da sensação psicológica de liderança da comunidade. Teve dois anos de estado de graça.

Foi muito tempo…
Foi, graças a dois fôlegos. Primeiro, o fôlego eleitoral e depois um segundo, a eleição de Cavaco Silva. E agora chegou ao fim do estado de graça e entrou na lei que temos estabelecido a todos os governos e que não duram mais de dois anos. Entrou em tabu, em pântano.

«O GP do PS é uma correia de transmissão de Mariano Gago»
O Ensino Superior é um sector que atravessa uma enorme turbulência…
Neste momento temos uma lei sobre a reforma do Ensino Superior, proposta pelo Governo, através da inspiração divinal do Professor Mariano Gago e dos escritos do professor Vital Moreira, apresentada e aprovada na generalidade no Parlamento. O Ministro Mariano Gago diz que ouviu as sugestões dos reitores — que é um grupo de pressão — e eventualmente negociará com eles um sistema de meio-termo. Mas ninguém diz que isto significa que o Parlamento não existe, que o grupo parlamentar do PS é uma correia de transmissão do Sr. Ministro da Ciência e do Ensino Superior. Não há autonomia para fazer leis e a verdade é que os grupos parlamentares não passam de ventrículos do Governo. É o costume.
Mas com esta nova lei a autonomia do Ensino Superior fica em causa e a criação de Fundações está a criar alguma polémica…
Ao contrário do que pode parecer temos dois extremos: o extremo Gago e o extremo dos bonzos chamados Conselhos de Reitores. Prefiro o primeiro. É preciso ter vontade para tirar poder aos que o têm. E, neste aspecto, esta lei acaba com os grupos de pressão que mandam nas universidades e que se chamam Conselho de Reitores. Lembro que eles foram eleitos em nome de uma oligarquia de interesses, que nos está a destruir por dentro.
Essa é outra aparente contradição…
Claro, aquilo não representa a Universidade porque se os reitores o fossem verdadeiramente não tinham medo do sufrágio universal. Eles são eleitos por uma barganha de interesses corporativos instalados. Os senhores reitores não são representativos. Não são eleitos como no Brasil ou como em Espanha. Concordo com o Ministro neste domínio. Os que lá estão, os professores e investigadores, que vão dar aulas e investigar. O que é que me interessa a mim que, para gerir os dinheiros do povo, venha um gestor profissional? A universidade é um assunto sério demais para ser deixado só aos universitários. É preciso mais liberdade académica e haver projectos de investigação e que o gestor diga, com toda a clareza, se os projectos são bons ou não. Não quero uma Universidade como temos hoje com partidocratas, cheio de cavaquinhos e socratinhos.

É a velha história do País de cunhas?
É o País de cunhas e ideologicamente com processos mentais inquisitoriais. Cheguei a ter nas minhas aulas bufos, estudantes, membros do Conselho Directivo, que iam fazer o relatório ao chefe por eu criticar algo. É o tal micro-autoritarismo subestatal e subsistema de medo de que falei.

O que falta então para termos em Portugal uma verdadeira reforma do Ensino que modifique todos esses problemas?
Ao contrário do que pode parecer, espero que haja coragem, que se aplique esta lei imediatamente, que se leve até ao fim algumas medidas, que se as corrija e, depois, em vez de se chamar um desses juristas que são os «pais» do pronto-a-vestir das leis portuguesas, que se ponham as pessoas num curso rápido de pluralismo.

Isso mudaria muita coisa?
A Universidade deve ser uma espécie de confederação, os sistemas jurídicos e o pronto-a-vestir, que a maior parte do positivismo dominante tem, é suicida. Podemos ter geometrias variáveis, fundações juntamente com faculdades clássicas, ou uma confederação como na confederação helvética onde cantões ainda têm o braço no ar e outros são altamente complexos.

«É preciso acabar com a «empregomania»
E as Fundações?
Recordo que as Fundações apareceram no ordenamento jurídico português com Ferra de Correia que sabia umas coisas de Direito Internacional, com Marcelo Caetano e o próprio Salazar escreveu o diploma. O que temos aqui é falta de técnica bem feita e de chamadas de pessoas. Além disso é preciso acabar com a «empregomania».

Esta a falar dos conhecidos «tachos»…
A maior parte deste conceito está todo a ser ultrapassado por causa da empregomania. Na minha Faculdade, por exemplo, em 200 docentes, despedia 100 e faria melhor. E em vez dos 50 por cento de «netos» que lá existem, abria um concurso público para 25 por cento. O País está a deitar fora o melhor dos seus jovens. Porque não há concursos públicos reais. 90 por cento dos concursos públicos da Universidade portuguesa são todos com fotografia para resolver a endogamia. E o Estado é o patrão disto tudo. Temos uma endogamia de cunhas mal fabricadas, concursos por fotografia onde se prejudica a competência e a sociedade aberta pelo sistema do «cartão Jota» e do «cartão pré-Jota». Continuamos a enganar o povo e a tratar mal o dinheiro dele.

Há quem diga que há lóbis na sociedade portuguesa que acabam por minar as decisões do Governo e que são um travão ao desenvolvimento económico. Concorda?
Nós temos um lóbi em Portugal: que é o lóbi dos bufos! Que tanto serve à esquerda como à direita. No meu caso, cheguei a um patamar em que já não posso ser mais promovido e digo o que penso. A maior parte das outras pessoas estão sujeitas a sistemas de pressões que impedem aquilo que é a grandeza de Portugal.

E qual é a grandeza de Portugal?
Produzimos uma coisa fundamental para promover o País. Durante séculos e séculos quem se sentia mal com este sistema de repressão capitaleira e castóive, mudou e, felizmente, mudaram 100 milhões de portugueses ao longo destes últimos tempos.

E que 100 milhões de portugueses foram esses que mudaram?
Os 100 milhões que se foram embora para o exílio, que construíram novas Pátrias, livres deste controlo. O grande problema de Portugal é que temos um sistema governamental e institucional de repressores que não sabem lidar com o português à solta. É preciso recuperar o português à solta porque ele fez coisas grandiosas na emigração…

Mas porque é que há este medo em Portugal de denunciar e dizer o que se pensa?
É um sistema de medo inquisitorial. Vou dar o caso do blogue «Do Portugal Profundo». O pobre António Balbino Caldeira abriu o esgoto. Mas tem um advogado que apareceu mediaticamente a dizer asneiras. Mesmo uma causa nobre acaba por ser destruída devido às teorias da conspiração. Brinca-se com a honra das pessoas. Por exemplo, eu posso criticar o Paulo Portas mas não posso dizer o que dizem dele às escondidas porque a maior parte das pessoas que diz mal de Portas tem é inveja. Não se pode dizer o que se anda agora a dizer de José Miguel Júdice. Porque precisamos de muitos Portas e de muitos Júdices. Marx inventou como energia da História uma coisa chamada luta de classes, e esqueceu-se — como dizia Friedman — do principal motor da História nas cidades atrasadas, que é a luta de invejas. E o que temos em Portugal é uma crise psicológica profunda que é a inveja, a delação, a bufaria que impede o que faz progredir uma sociedade: avaliação pelo mérito, competição, pluralismo e que ganhe o melhor.

«Que Sócrates cumpra o referendo que prometeu ao povo»
O que espera destes seis meses da Presidência portuguesa da União Europeia?
Espero, como bom patriota, que o Eng.º Sócrates faça aquilo que prometeu internacionalmente. Consiga o Tratado Constitucional conforme o mandato, porque não é José Sócrates que está em causa, é Portugal. E cumpra o que prometeu ao povo que é um referendo.

Mas parece que essa promessa pode estar causa. Tudo depende do texto final que vier a ser aprovado…
Repito. É fundamental que Sócrates e o principal partido da oposição cumpram o que prometeram. Eu, por exemplo, fui pelo «Não» à Constituição Europeia e, como não sou teimoso, depois de ler este Tratado, até o vou aprovar.

Porquê?
Porque traz realismo. O realismo de não deixar sair britânicos, não deixar que os eurocratas mandem nisto e misturem o princípio da integração política com o princípio da cooperação política. Se isto levar a uma Europa de geometria variável, de Nação de nações, é bom. Que a Europa sirva para reforçar as Nações.

Para onde é que esta Europa caminha?
Caminha para a criatividade. A Europa não está escrita, é um espaço de invenção porque ela, como diz Jacques Délors é um OPNI (Objecto Político Não Identificado). A Europa é uma Nação de nações, é um espaço de geometrias variáveis e temos na mão um dos melhores projectos de convivência entre povos e nações que tivemos desde o tempo de Cristo. Aproveitemo-lo.

Não o temos aproveitado?
Enquanto continuarem a despovoar a agricultura e a economia, por exemplo, não estão a ser europeístas. A agricultura é uma forma de povoar o País. Nós despovoamos o País e, pior, despovoamos a capital. Temos neste momento uma capital despovoada a governar um País despovoado para gáudio dos suburbanos, que é a classe política portuguesa.

Como olha para a reforma do sistema eleitoral que prevê a redução do número de deputados e a introdução dos círculos uninominais?
É música celestial.
Há uma teoria que diz que este sistema fomenta a corrupção. Podemos tirar essa conclusão?
Podemos. É mais visível porque a corrupção já lá está, só que ninguém a vê também.

É a reforma do bloco central?
Sem dúvida.

Que consequências vão resultar desta reforma?
Nós precisamos é de uma grande reforma do sistema político. A democracia já está velhinha e, enquanto mantivermos algumas vacas sagradas no sistema, isto não funciona. Defendo o sistema misto alemão. Mas o problema não está aí.

Então onde é que está o problema?
Está numa coisa simples. Devíamos estar a discutir se devia haver ou não uma segunda Câmara. E mais: o que estamos a precisar é de mudar a capital do País para percebermos que isto já não é a cabeça de império.

Para onde?
Tenho feito essa proposta. O Parlamento passaria para o Porto, o poder judicial para Coimbra e outras coisas também podiam ser espalhadas. A cidade de Lisboa é a principal vítima de ser capital. Devíamos perceber que isto não vai lá com os discursos do costume. Temos que orientar o País como os reis povoadores fizeram, isto já não vai lá com panos quentes. E proponho a mudança da capital, como a Holanda e a Suíça mudaram. E repartir as funções. Recuperarmos as formas como criamos Portugal, com reis povoadores, capital ambulante e distribuição do Parlamento pelos sítios. As Cortes nunca foram sempre em Lisboa. As melhores cortes do País foram em Coimbra. O Porto merecia e isso não custava muito. Ter a sede do Parlamento no Porto teria uma forma simbólica notável.

Ajudava a construir o projecto colectivo mobilizador?
Ajudava a construir um Portugal menos capitaleiro. E a pior coisa para Lisboa — como se viu na campanha autárquica — é o estadão capitaleiro que está a destruir a cidade. Até temos ministros desempregados…candidatos em Lisboa, completamente apagados.

Como viu a campanha para as eleições na CML?
Lisboa é o espelho do País e o espelho da democracia.

Entre disputas sobre os sapatos do defunto e diatribes sobre o lugar do morto


Vários companheiros republicanos, à cinco de Outubro, manifestaram-me extrema preocupação pela circunstância de José Saramago nada dizer sobre a forma de regime da sua proposta de "Ibéria", vociferando alguns deles sobre a hipótese da projectada união poder caber aos actuais Bourbons e a Filipe V, se reunirem as Cortes de Tomar. Por mim, continuarei a subscrever as "Alegações de Direito" a favor da proposta de reeleição da casa de Bragança, sem nova batalha de Toro ou ocupação de Olivença. Sugiro apenas que se mude rapidamente a actual tipificação penal sobre a matéria, através de um "blitz" de agendamento potestativo, porque corremos o risco de um qualquer patriotorreca apresentar uma queixa-crime sobre a matéria. Porque Saramago assumiu a sua missão de indiscipilinador e fê-lo muito bem, dizendo em voz alta o que outros têm dito baixinho.

Julgo que seria útil convidá-lo para um urgente debate sobre a estratégia nacional portuguesa, coisa que poderia ser desencadeada pelo parlamento, se nenhum deputado cá das berças provinciais ousar quebrar o politicamente correcto do silêncio sobre a matéria. Até sugeria que o grupo de comunicação social presidido por Pina Moura, ex-camarada de Saramago, assumisse a dianteira de lançamento da questão na opinião pública. Continuarmos a tratar da questão aberta como um "fait divers" é ofendermos o Prémio Nobel e esquecermos que mesmo na segunda metade do século XIX isso aqueceu os ânimos parlamentares. Até António Enes chegou a escrever um opúsculo em defesa dos "Estados Unidos da Europa", para nos livrarmos de Madrid.

A matéria é mais importante do que a movimentação dos santanistas e dos barrosistas sobre os sapatos do defunto ou as diatribes antiportistas sobre o lugar do morto. Todos sabemos a causa que levou Saramago a não assumir a ofensiva de federação republicana ibérica, à Francisco Pi y Margall. A maioria dos republicanos convictos do lado de cá não quer ser "provintia", de "pro" mais "vincere". Voltaram a 1140 e sabem que Aljubarrota mais Toro é igual a zero, como proclamava José de Almada Negreiros.

Si non è vero, è ben trovato

A grande novidade da blogosfera: o menino guerreiro...

16.7.07

Retalhos de uma noite de crepúsculo rotativista, com ginecologistas a trabalharem onde os outros se divertem


Depois de José Miguel Júdice, o ginecologista a trabalhar onde os outros se divertem, anunciar como mandatário de António Costa aquilo que José Sócrates há-de qualificar como a chegada de um novo tempo, veio Louçã proclamar que se deu um terramoto das direitas, talvez porque o PNR ultrapassou as votações de Monteiro, até que Portas entrou em tabu e Mendes convocou eleições no PSD. Gostei mais de Fernando Dacosta quando observou que se estava a assistir a uma "saturação dos portugueses face a esta uniãozinha nacional" que açambarca a democracia.


Na verdade, os resultados confirmaram o óbvio: cerca de três quartos dos eleitores não sufragaram a partidocracia. Se juntarmos abstencionistas e votantes em independentes não integrados em listas partidários, houve uma maioria absoluta contra os rotativistas do Bloco Central e dos seus opositores sistémicos.


O PS teve a maior votação desde há 31 anos, melhor do que os resultados de Jorge Sampaio e João Soares (dizem os vitoriosos), coisa que o PCP comentou, ao dizer que o PS teve a menor de todas as maiorias que até agora se registaram em Lisboa. Jerónimo diz que passou a ser a terceira força política de Lisboa, mas foi ultrapassado pelos carmonas e pelos rosetas. Está aqui um grupo grande de Famalicão...


Portas não quis falar politiquês, preferiu o portês do tabu. Telmo ganhou porque no início da campanha as sondagens lhe davam apenas 0,8% e acabou por vencer o MRPP e os monteiristas. Partido onde não há votos, todos ralham e ninguém tem razão... Há gente de Bobadela, Cabeceiras de Basto... não sei ao que vim... ninguém me disse nada... mas demos uma volta pelo convento de Mafra.

Tudo culminou com a alegria espontânea do comício de Costa, com excursões de Cabeceiras de Basto e do Teixoso, futuras geminações da nossa capital, embora Jorge Coelho se tenha enganado quando fez mal as contas e disse que menos do que 30% de Costa eram mais do que o dobro de Carmona (quase 17%). Artur Agostinho disse que Carmona conseguiu chegar à Liga dos Campeões, Negrão vai inscrever-se no PSD e Feist fala em traições de quem tirou o tapete ao "motard". Todos têm a consciência absolutamente tranquila.


Os grandes vencedores da noite são duas mulheres: Maria José Nogueira Pinto e Paula Teixeira da Cruz. Porque em tudo o que elas até agora se meteram como protagonistas políticas a casa veio sempre abaixo. Da pala do Sporting, enquanto sub-secretária de Estado de Pedro Santana Lopes, à candidatura monteirista que encabeçou contra Portas no CDS, passando pela vereação de Lisboa do mesmo CDS, sob a presidência de Carmona, eis o que ela tem entendido pela nova direita, sempre satélite e sempre charneira da bomba ao retardador. Do mesmo modo, Paula, a advogada avençada da Universidade Atlântica, a vice-presidente do PSD e a presidente da comissão distrital do mesmo partido, sempre com Marques Mendes.
Carmona terminou o ciclo e mereceu ficar feliz. Toda a comissão de honra comemorará o centenário do festival da Eurovisão na secção do Parque Mayer do restaurante Solar do Conde, daqui a dois anos. Só os apoiantes de Roseta têm futuro, porque roubaram dois vereadores ao sonho do Zé. Prefiro que a tutela de certa revolta da sociedade civil não seja assumida por Louçã e Fazenda.
Costa, apesar de tudo, mobilizou não partidocracia e soube federar interesses. De Júdice a Saldanha Sanches, de Maria Elisa Domingos a outros clãs da "intelligentzia" instalada, incluindo alguns da campanha Alegre, como Inês Pedrosa a Ana Sara Brito. Deu um balãozito de oxigénio à presidência europeia de Sócrates que não se mostrou feliz, como Carmona, mas se sentiu aliviado. Hoje não falamos de tiques autoritários nem da entrevista de Saramago.


Portas, com o deputado EMEL, o advogado do ambiente que perdeu as eleições em Coimbra e a deputada de Leiria, deixou Telmo arder no palco, mesmo que agora se desculpem com a circunstância de terem sido abalroados por submarinos de cortiça tirada dos sobreiros que estavam a ser arrancados de herdades perto do Poceirão e do campo de tiro de Alcochete. Portas percebeu que pertence ao pretérito perfeito e ao futuro condicional dos políticos que mesmo depois de morrerem, por sete vezes renascem.





De qualquer maneira, Carmona foi duas vezes melhor do que Sá Fernandes e António Costa, sem necessidade de recurso ao burro que trouxe de Loures, acabou por sentar-se nos Paços do Concelho, embora com dez por cento menos de povo do que Santana Lopes. Começou a campanha eleitoral para a maioria absoluta daqui a dois anos. Manuel Monteiro espera ser convidado para uma coligação dos santanistas alargada aos independentes.

Um quarto de hora antes de perderem, todos vão de vitória em vitória até à derrota final, quando a soma da situação e da oposição é inferior à indiferença activa, à boa maneira do sábio gesto do nosso Zé Povinho, de um Bordalo que não podia ter lido David Easton nem Robert Dahl. Nunca a democracia esteve tão pouco sustentada pelos partidos.

15.7.07

Uma partidocracia que começa a ser adversária da própria democracia


As primeiras novas das autárquicas da cabeça do reino mostram que a senhora dona indiferença, no balanço dos "inputs" que fazem entrar o povo na "blackbox" do sistema político, pode ser superior à soma dos apoios e das reivindicações. Assim se confirma como este modelo de democracia, dominado por uma partidocracia claustrofóbica, pantanosa e plena de tabus, está a tornar-se a principal adversária da própria democracia. Pior ainda, quando à abstenção somarmos os votos dos candidatos ditos independentes, porque parece tornar-se inevitável a axistência de uma maioria absoluta de povo contra a oligarquia rotativista que marca o ritmo do situacionismo.


Ao meu lado, alguém que tem a sabedoria da intuição e dispõe alguma ciência experimentada sobre a matéria vai dizendo: "a ditadura é sempre má, a democracia pode ser boa ou má, esta democracia é má...". Um comentador meu amigo vai proclamando na televisão: "o panorama não é tão dramaticamente grave". Isto é, ou é grave sem ser dramático ou é dramático sem ser grave, o que vem a dar no mesmo, assim se confirmando que tudo é mesmo mau. Por outras palavras, se isto fosse um referendo, o dito não seria vinculativo.


Se os partidos dominantes não virem o cartão amarelo com que o povo os puniu, não vale a pena que um dos jogadores trate de roubar o cartão ao árbitro. Pior ainda se o roubo for levado a cabo pela equipa que organizou excursões de povo de Mirandela para uma excursão da terceira idade socialista a Lisboa, face à falta de entusiasmo dos alfacinhas. Não lancem sobre o povo o que fez Guterres ao não retribuir a gentil saudação que o dono do hotel Altis o recebia há pouco. Quem está lá nas alturas convém que desça, de vez em quando, ao inferno do quotidiano.

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O devoto bulhetim de boto



Depois da azáfama campanheira, os alfacinhas foram à urna em tempo de couve de Bruxelas. Mostraram cartão de eleitor, cartão de identidade e deram-lhe o boletim pró folhetim da pescada, do antes de o ser já o ser, de acordo com as sondagens. Abriram o dito cujo, o tal que acima se reproduz, pegaram na esferógrafica, foram para trás do conglomerado de madeira, tipo tabopan, e procuraram sua excelência o seu candidato, de acordo com a lei processual vigente.
Procuraram a Roseta, sem berros e sorridente, com colete de acidente de viação, mas poucos sabiam que ela estava atrás do dois romano. Tentaram encontrar o Zé que faria falta, ou o Ribeiro Teles, monárquico e tudo, mas viram-nos disfarçados de esquerda revolucionária, já que agora os monárquicos são fadistas e os semimonárquicos ecologistas têm um trevo e foram todos trabalhar para as hortas saloias, em dia de não sol.
Do Ginjas só uma andorinha preocupada com os dejectos dos cavalos da GNR, enquanto o Negrão vota em Setúbal para aqui estar disfarçado de Marques Mendes, que hoje não vota, porque o presidente de Caxias continua a ser o Isaltino e o major não intercalou.
Só o bisneto do general da ditadura é que tinha o nome dele impresso antes do um romano. Porque o Telmo estava escondido no Popular e o Costa debaixo de um punho sem direito a rosa, tal como os comunistas de sempre, os da festa do Avante, continuavam com os verdes que são melancias. Já o barco do Garcia Pereira estava na frente ribeirinha, disfarçado de comunista, enquanto a direita do Júdice e da Maria José Nogueira Pinto estava toda salgada e salganhada, metendo água do Tejo no túnel da Baixa-Chiado que foi abalroado pela pororoca do estado a que chegámos.
Mais bonito era o "design" do STAPE/CNE, esse antiquado símbolo das colunas de uma "domus municipalis" que aqui não há, assim se demonstrando como tudo está envelhecido e carcomido pela inércia do não reformismo. Não digo em quem pus um risco. Porque tentei apenas uma cruzinha com a qual acabei riscar os que mais nos incomodam.
Não vale a pena esperar pelos resultados. São os que constam de todas as sondagens. Salve-se quem puder... nomear mais assessores.




Postal de discreto apelo à revolta cultural e política, em nome do Manuelinho e das Actas das Cortes de Lamego


Quando portugueses com a dimensão universal de um José Saramago dão, ao jornal de que foram directores, entrevistas como a de hoje, todos os que não querem continuar a pensar baixinho, deveriam parar, escutar e ler e não entrar na rápida manipulação de argumentos endeusantes ou diabolizantes. O patriota Saramago (não é ironia o qualificativo que usei) retoma a clássica posição de Frei Bartolomeu dos Mártires, de D. Jerónimo Osório ou de Frei Luís de Sousa, profetizando uma das possíveis vias do europeísmo. Isto é, rejeita as teses de Febo Moniz e não quer inscrever-se no partido de D. António Prior do Crato.


Espero que a comissão de sábios do PCP (continuo a não usar de ironia) possa transmitir ao resto do país, a resposta que, certamente, será dada pela facção não iberista dos cunhalistas, nomeadamente a que é representada por Miguel Urbano Rodrigues. E mais não digo. Espero.


Por mim, continuo ainda com o sentimento de Antero, o iberista que acabou militante da Liga Patriótica do Norte, antes de aderir ao povo dos suicidas, no banco do jardim do Convento da Esperança, olhando uma nesga do Atlântico, por entre as brumas da ilha natal.


Apenas recordo a lição histórica de Agostinho da Silva que, não deixando de ser iberista, apenas dizia que a profunda razão de 1640 foi o projecto Brasil. Por mim, tanto não quero Aljubarrota, como não me apetece Alcácer Quibir.


Prefiro a regeneração de 182o, mesmo que tenha de sustentar-se no tratado de 1834, com que o regente D. Pedro conseguiu garantir a nossa independência na Europa da Santa Aliança. Desde que lhe juntemos um pouco da manha dos nossos agentes diplomáticos de 1648 que preferiram a aliança com os pequenos reinos protestantes da Europa, em cujas tendas observámos o acordo de Vestefália, quando a ONU da altura, representada pelo Vaticano, ainda era instrumento dos Habsburgos.


Julgo que, por enquanto, talvez não seja necessário pedir a adesão ao federal Reino Unido da armilar, incluindo os futuros cem milhões de africanos que, daqui a poucas décadas, falarão a língua de Saramago. Continuarei a lutar para que não se perca a herculana vontade de sermos portugueses com independência política e não apenas cultural, para regenerarmos esta pátria que tem de continuar a ser liberdadeira.
PS: Espero que a ideia das Cortes de Almeirim que acima figurei ainda diga alguma coisa, mesmo que não esteja nos actuais programas de história. Recordo que dos 28 nobres que tinham voto, falta um deles e dos restantes, 14 votam por D. Filipe II e 13 contra. O clero também estava dividido, e Bispo de Leiria servia o emissário das cortes para o Cardeal e deste para aquelas. Volta com a resposta do Cardeal, sempre doente, fraco e hesitante, a qual corresponde a deixar o reino a Filipe II. Levanta-se indignado o procurador do Povo Febo Moniz e com ele toda a representação popular, mas não consegue nada. Febo era o procurador da cidade de Lisboa e o representante do Terceiro Estado, daquele povo que preferiu o mal menor do Prior do Crato e que acabou por inventar a guerrilha, ao apoiar o rei da Ericeira e o partido sebastianista de D. João de Castro. Sempre contra os ministros do reino por vontade estranha. Proponho que o futuro presidente do município lisbonense, que hoje vamos eleger, escolha o partido do povo, isto é, de Febo Moniz, e mande distribuir o respectivo manifesto pelas escolas. Sugiro também que no acto de posse convide o poeta Manuel Alegre para voltar a ser a voz da liberdade portuguesa, recitando o seu canto sobre o Manuelinho de Évora. Seria conveniente que Durão Barroso assistisse ao acto. Não convidem Miguel de Vasconcelos nem Cristóvão de Moura e reeditem os tratados do judeu português Francisco Velasco Gouveia e de João Pinto Ribeiro.

12.7.07

Os patinhos amarelos que estão a dar à costa...


Quando o situacionismo se enreda nas teias dos chamados tiques autoritários é natural que reaja alguma esquizofrenia oposicionista que acaba por cair na espiral da teoria da conspiração, onde não tardará que direitistas queiram comer comunistas ao pequeno-almoço, antes que os comunistas ameacem partir os dentes à reacção, para que bispos temam conspirações carbonárias, inquisidores continuem a caçar bruxas e advogados passem de arrazoadores de boas causas a argumentistas de subfilmes policiais da série Intendente.
Não faltarão explicações de espiões desempregados sobre hidras congreganistas e anticongreganistas, onde só há mafiosos, pedófilos, cabalas e papos cheios de maçons, opus dei, patrões capitalistas de faca na liga, agentes de potências estrangeiras, judeus, estrangeiros, fascistas e comunas.


Por isso, prefiro ler no jornal Público que estávamos no ano de 1992 quando um grupo de 29 mil patos amarelos, tartarugas azuis, sapos verdes e castores vermelhos de borracha se libertaram do navio de carga que os levava para os EUA, deixando-os à deriva a nadar livremente nas águas oceânicas. Agora, 15 anos após o naufrágio, diz-se que irão aparecer na costa inglesa, e, quem sabe, na portuguesa também.


É natural que esta demagogia extremista, à esquerda e à direita, leve à inevitável quebra de confiança pública, só porque o poder estabelecido entrou em desnorte, porque lhe tocaram num qualquer calcanhar de Aquiles, chame-se Universidade Independente, Universidade Atlântica, sobreiros ou submarinos. Assim, o feitiço voltou-se agora contra o feiticeiro e os que atiraram pedradas contra as paredes de vidro, chegaram a casa e acharam as suas janelas quebradas.
Não me parece que um ex-director de um semanário semeador do populismo persecutório possa agora ir ao palácio de Belém pedir desculpa pelas parangonas de outrora e que todos os outros líderes da oposição se recordem do que sucedeu a Ferro Rodrigues. Por outras palavras, os perturbadores das águas pantanosas desta economia privada, que não é economia de mercado mas oceano de tabus, e deste estadão de origens absolutistas, que não assente numa cultura de Estado de Direito, abriram profundas fissuras na caixa negra de um sistema que entrou em disfunção.
Os patinhos amarelos estão agora a dar à costa. Não tarda que Marques Mendes faça uma conferência de imprensa para exigir a Sócrates o prometido despacho sobre o eventual encerramento da Universidade Independente, para que Isaltino de Morais responda com uma auditoria à sua Universidade da Fábrica da Pólvora, onde um dos principais accionistas era precisamente Joe Berardo, nesse ensaio que Barcarena fez dos modelos de conselhos gerais das universidades.
Não tarda que recomece o julgamento do processo Casa Pia ou que entre em assobio o processo do Apito Dourado, agora que Correia dos Campos, aos costumes, vá dizendo nada e que os charruamentos esperem vez para entrarem no mediático de outros julgamentos, onde Balbino Caldeira está prestes a pedir uma justiça que talvez não se confunda com os delírios do blogue do respectivo advogado, inspirado no programa "simplex" da habitual caça às bruxas. Os patinhos amarelos continuam a dar à costa. E a culpa está toda na fábrica dos moldes que transformaram as nossas elites numa gigantesca contrafacção que qualquer rusga da ASAE apreenderia...
PS3 Este postal foi sujeito a corrector ortográfico. Teve cerca de dez riscos vermelhos. Um, com um flagrante erro ortográfico que já corrigi. Mas cerca de nove vocábulos parecem não constar do dicionário vigente, entrando na categoria de delírio neologista. Obrigado, senhor revisor médico. Aqui ainda á cuidados no texto, ao contrário do que sucede na jornalada de Vossa Senhoria. Faz-me lembrar a censura eclesiástica que tive numa recensão de conhecida revista congreganista, quando me apontaram vários erros teológicos, para depois me esmagarem com uma errada citação latina, sem repararem que era um apud originário de São Tomás de Aquino, divulgado por um conhecido autor fascista a que o mesmo inquisidor congreganista tecia loas. Evidentemente que um colega meu, fascista e tudo, já tinha metido nos cacifos de todos os restantes colegas a minha insapiência latinória. Ri-me e continuei a fazer citações latinas, aprendidas com o professor bobibu, o saudoso José Nunes de Figueiredo.

11.7.07

Grão a grão, vai enchendo o papo, esta revolta da Maria da Fonte, sem que Sócrates perceba que se está a transformar em Costa Cabral


Leio a jornalada, nestes retalhos de um quotidiano, onde os ministros dão recados ao povo através de fugas de informação dos seus assessores de imprensa, depois de receberem pressões públicas comunicacionais de grupos de interesse que passaram a fazer pressão, como acontece com Gago, ministro, que agora diz estar disposto a alterar uma lei que já está em discussão na especialidade no parlamento, depois de ter sido aprovada na generalidade e depois de, como tal, já ter sido apresentada pelo governo, assim confirmando como o grupo parlamentar da maioria é uma simples correia de transmissão do partido que manda no governo, e que as chamadas leis são sempre negociáveis, para irem, de negociação em negociação, até à confusão final do nem carne nem peixe. Valia mais que o meu professor Vital Moreira lesse "The Federalist" e adoptasse uma via confederativa para a complexidade da universidade, onde o pluralismo estatutário não deveria proibir a unidade institucional.


Prefiro fugir da transcendência das estrelas e ir para o pequeno enlameado do quotidiano onde tenho de viajar com os pés. Porque, ontem passei o dia a corrigir testes escritos de alunos da bolonhesa, semestralizados, como ciência de chouriço e pastilha. Reparei como para a maioria dos alunos foi difícil responder a uma questão onde se fazia um relacionamento entre a abstracção de um conceito e elementos da realidade. Concluí que eles estão preparados para cantarolar receitas pré-fabricadas na sebenta de um livro único, como as respostas das ciências pretensamente exactas que saem nos jornais no dia seguinte a uma das provas dos exames nacionais. Não estão preparados para a criatividade, a investigação e o exercício do pensar mais do que baixinho.


Se seguisse o paradigma de um velho professor meu que chumbava em regime de indeferimento liminar noventa e cinco por cento dos que não estavam treinados para o efeito, faria o mesmo que nos tempos da pré-bolonhesa. Por mim, apenas considerei que a culpa era a minha não adaptação aos tempos que passam e decidi ceder aos ditames dos novos ritmos avaliadores, para que todos deslizem para o pagamento de propinas e para o aumento da receita pública pela quantidade. Assumi a cobardia dos novos amanhãs que reformam, mas não repetirei o erro no próximo ano lectivo. Que venham outros, mesmo que sejam uns desses assessores do senhor director pagos a recibo verde, ou um dos compadres de um qualquer outro reformador que facilite a vida à teologia do mercado que vai destruir uma universidade, onde partidocratas e burocratas pintados de professores brincam à gestão dita democrática, antes da chegada dos necessários gestores profissionais, avaliáveis pela sociedade civil, que dêem aos professores a urgente liberdade académica que o presente modelo crepuscular vai asfixiando.


Mas os sinais de degradação do quotidiano, especialmente na zona do micro-autoritarismo sub-estatal, continuam. Agora é a própria Igreja Católica, que, há dois mil anos sabe como fazer barganha com o poder político, a denunciar a crescente falta de liberdade prática e a chamar os bois pelos nomes. Por mim, a coisa foi mais ridícula: fui à inspecção com uma velha carripana de 1999 e a viatura foi reprovada, não por falha mecânica, mas porque a chapa de matrícula, de origem, tinha um 5 antes de 1999, quando no livrete estava o mês de Junho de 1999, que deveria corresponder ao número 6. O senhor inspector tem toda a razão. Pena que o vendedor a não tivesse. Pena que a circunstância tenha escapado a sucessivas inspecções.


Não vale a pena dialogar com essa peça da máquina e tentar dizer-lhe que a letra do regulamento deve ser interpretada de acordo com o espírito da lei e que um 5 em vez de um 6 não revela fraude de mercadorias importadas, nem prejudica a vigilância contra a sinistralidade, a luta contra a evasão fiscal ou a normalização europeia. A única coisa que posso dizer é que a firma em causa se chama Inspeauto e que os papéis da inspecção anterior vinham da concorrência, da Controleauto. Aliás, foi-me referido expressamente pelo senhor inspector que "há inspecções e inspecções...e que ninguém me poderia garantir que não fossem os tipos da revisão que mudaram a chapa".


Se algum dos meus leitores conhecer forma de chegar aos directores destes inspectores ou aos inpectores destes directores, que diga aos ditos para irem ao computador comprovar o que digo. Por isso, quase muitos começam a ceder àquele conselho que me deram: "vai a uma garagem privada e pede aos tipos para irem depois à inspecção... é mais barato, rápido e seguro".


É evidente que poderia telefonar para um desses meus amigos que ocupam a máquina do Estado nessa zona e pedir-lhes que alertassem os caçadores de chatices. Mas como também nunca os importunei com um pedido de limpeza de multas de estacionamento, resta-me denunciar publicamente estes pequenos sinais de despotismo, timbre do império otomano e das administrações coloniais, onde, grão a grão, vai enchendo o papo, esta revolta da Maria da Fonte, sem que Sócrates perceba que se está a transformar em Costa Cabral, até por culpa de um diligente funcionário da Inspeauto.
PS: A imagem que escolhi veio-me da Google quando pedi sultanato, otomano e colonial. Lá em cima outras são as perspectivas da recta guarda que paga impostos e taxas. Até ao dia oito de Agosto, tenho mesmo que mudar de chapa. Pinto um cinco em vez de um seis. Até lá o meu veículo tem o vermelho do "reprovado".
PS1 Agradeço ao delegente leitor de autoritário título curativo que me enviou o seguinte mail : Eu frequento, de vez em quando, o relato das suas amarguras, e condoo-me. Mas irrita-me ver chamar «jornalada» aos jornais, num texto, ainda por cima, com erros de ortografia (rectaguarda). Provavelmente, vou passar a condoer-me menos. Aceito a pega de cernelha, monopolizo a dor e confesso os erros de quem não usa corrector ortográfico. Reconheço que o homem é um animal de regras porque só o homem as pode não seguir. Porque o essencial das regras é procurar cumpri-las e o analista médico tem toda a razão e pode continuar a denunciar-me por "mail" ou na imprensa médica. Até pode descarregar todos os meus textos, como noutro dia fiz para programa de correcção automática, verificando que, além do que me denunciou, tenho centenas de traços vermelhos, uns por erro de tecla, outros por ignorância. Já o Platão dizia que quando eu faço uma recta num espaço vazio, eu posso ter uma ideia de recta, mesmo quando ela sai reta, isto é, torta. Aliás, até nem sei, por vezes, distinguir o responder "a" do responder "para", de acordo com a velha anedota do Guerra Junqueiro. Aceito o retro, menos na jornalada. Há quarenta anos que escrevo nos jornais e que vou gralhando. As gralhas passam, o escrevente segue, e a recta reta. De qualquer maneira, fica melhor na guarda o recto. Obrigado.