a Sobre o tempo que passa: Junho 2008

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

30.6.08

Este nosso "contenente" continua mesmo a pensar que é metrópole, dona e soberana de todas as ilhas adjacentes, incluindo as da interioridade...


Depois de sobrevoar o Pico e o piquinho, sem a habitual cobertura de nuvens, e de espreitar um recente manual sobre a filosofia dos "Monty Python", regresso aos volteios capitaleiros, prometendo fugir à rotina dos corredores da luta pelo poder e das viagens em redor do meu quarto. Depois de uma semana de limpeza de alma, lá volto ao centro do poder dos consórcios de obras públicas, ao toma-lá-dá-cá deste bloqueio central de um pretenso keynesianismo, dito "Welfare State", feito de "pantouflage" de um liberalismo a retalho que prometeu socialismo de consumo, onde os feitores dos ricos apenas lêem as entrelinhas da cartilha da social-democracia e do socialismo democrático de antes da crise petrolífera, porque têm muitas preocupações com os pobrezinhos e os reformados, mas onde o ser ministro lhes dá pergaminhos de agendas contactos que lhes fornecem a chave das aposentadorias de gestores de construtoras e de patos bravos da banca, ávidos do comunismo burocrático onde a culpa morre sempre solteira.


Nem sequer reparam que não passam de meros agentes de uma governança de pilotagem automática, marcada pelo ritmo do mais do mesmo, a tal que continua a colocar-nos na cauda da Europa das disparidades sociais, dado que somos campeões daquele modelo, onde os pobres, incluindo os novos pobres, são cada vez mais e também cada vez mais pobres, para que os ricos, sobretudo os novos-ricos, sejam cada vez menos, mas cada vez mais ricos. Porque nesta terra de macacos cegos, surdos e mudos, em ritmo de sociedade de casino, quem tem olho para a barganha negocista joga na teoria daquele homem de sucesso, segundo a qual o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido.


Aliás, com esta expedita administrança da justiça, sempre em nome do povo, onde o burlão vai vivendo de aposentadorias, durante um longo trânsito em julgado, passível de ser manobrado pelo expediente dilatório dos colarinhos brancos, que pode durar um quarto de século e milhões de páginas de processos cosidos à mão, podemos concluir que, em terra de pobres de espírito, quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou já não percebe da arte. Entretanto, lá vamos tendo de aturar os discursos e os improvisos de suas excelências da governança, botando arrotos de pescada sobre serem da esquerda mais ou da esquerda menos, para que os direitistas anedóticos teorizem sobre as relações da justiça de Fafe com a justiça da Senhora de Fátima, não faltando os gatos magistrais a dizerem que caçam os ratos que apitam dourado, neste grande armazém de queijo esburacado, onde os tecnocratas da engenharia financeira dos "off shores" nos continuam a meter as mão na bolsa e nos actos de branqueamento de imagem.


Não faltam sequer outros belos discursos de música celestial dos universitários e magistrados que nos processualizaram, fazendo chorar as pedras da calçada. Desses ilustres e notáveis que têm prestígio entre o respectivo grupo corporativo, por se mexerem bem na classe política, mas que, ao mesmo tempo, assumem o transcendente do metapolítico entre os políticos, só porque se recobrem do etéreo da missão magistral, quando não passam de vacas sagradas que continuam magras de ideias. Este nosso "contenente" capitaleiro continua mesmo a pensar que é metrópole e "mainland", dona de todas as ilhas adjacentes, incluindo as da interioridade, para onde mandam os governadores civis do Rodrigo da Fonseca e do Costa Cabral, em missões de soberania... Que tal remetê-los para o Piquinho sem direito ao verdelho do Czar, que é boa pinga?

28.6.08

As autonomias só são reais se resultarem do direito natural e dos pactos de união pelas coisas que comunitariamente se amam


De acordo com um relato de um professor escrito em acta, há quem peça aos directores das escolas para terem atenção na escolha dos docentes que vão corrigir, mais dizendo que “talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média.” Porque os “alunos têm direito a ter sucesso” e o que “honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos” terá dito imediatamente antes e depois.


Julgamos que a Verney educativa do socratismo deve imediatamente plasmar-se em letra de lei, mais ou menos, nestes termos: "ficam excluídos de todos os júris aqueles jurados que outorara chumbaram os que agora são candidatos, porque todos os candidatos têm direito a ter sucesso". Como parágrafo primeiro da mesma lei de artigo único, pode acrescentar-se: "não devem ser indicados como jurados todos os que sejam independentes da barganha negocial que precede a escolha dos mesmos". Como parágrafo segundo, deve acrescentar-se "todos os assessores, adjuntos, serviçais e apoiantes dos chefes devem ter imediata passagem administrativa sem a chatice de andarem por aí fingindo que se cumpre a estúpida lei da meritocracia".


Por esta e por outras é que continuo a sorver este azul do grande mar-oceano, onde vou meditando sobre a interpretação de um princípio da subsidiariedade que esteja de acordo com o sonho dos modelos pós-totalitários, pós-autoritários e pós-soberanistas, libertando as autonomias da barganha negocial dos grupos de pressão e dos grupos de interesse. Porque até as universidades podem cair na teia de certas personalizações do poder, marcadas por um ridículo majestático, pretensamente omnisciente e omnigestionário, que, a si mesmo, se decrete como a via única para o bom senso, lançando todos os opositores e dissidentes para o ostracismo, só porque padecem da grave doença social de não submissão à unidimensionalização predadora, típica daquele provincianismo caciqueiro que costuma subsidiar as bandas filarmónicas ditas unânimes do montículo.


Bem me referia, há dias, um meu amigo russo, quando salientava que o sub-sistema de medo dos modelos pós-autoritários radicava na falta de institucionalização dos conflitos, assentando em rebanhos educados para ninguém ter opinião crítica. Por isso, noto como, nalgumas ilhas, certas plantas exóticas de origem tibetana se tornaram numa praga, ameaçando os próprios muros feitos de hortênsias e a beleza dos dragoeiros. Porque mesmo um Estado de Direito pode viver segundo o ritmo dos unanimismos micro-autoritários, tal como acontece em muitas das zonas pós-comunistas da Europa, onde vinga a cultura da corrupção e da bandocracia. Quando, importa "espremer gota a gota o escravo que cada tem dentro de si".


As autonomias infra-estaduais já tiveram o seu estado de graça libertador. Agora, muitas enredaram-se no partidarismo e nas personalizações do poder, caindo nas teias dos velhos donos do poder que as podem manobrar para um regresso ao passado e ao poder perdido. As autonomias só têm sentido quando as comunidades vivas as conquistaram e não deixam que elas se transformem em concessões da revolução, do Estados, das constituições ou dos decretos regulamentares e homologações administrativas. As autonomias só são reais se resultarem do direito natural e dos pactos de união pelas coisas que comunitariamente se amam.


Sobre Portugal, pode-se afirmar que é o menos europeu e, ao mesmo tempo, o mais europeu dos países europeus


Depois de 48 horas de info-exclusão, só porque o Kanguru ainda não conseguiu dar o salto para as Flores e o Corvo, apenas uma frase de uma jovem açoriana de 25 anos, durante uma visita aos Estados Unidos: "sobre Portugal, pode-se afirmar que é o menos europeu e, ao mesmo tempo, o mais europeu dos países europeus" (Natália Correia). Apenas digo que ainda ontem vivi essa observação fisicamente, sobretudo quando, depois de uma travessia num frágil semi-rígido, desembarquei naquela ilha do Corvo que Mercator escolheu para meridiano anterior ao de Greenwich, porque, no seu tempo, a agulha de marear não sofria nenhuma declinação. E mais emocionadamente o pensei, quando a pátria, das malhas que o império teceu, construiu um recente monumento, em Vila Nova do Corvo, em memória de dois soldados corvinos falecidos em combate, lá mais longe, em Moçambique. Daí ter lido, neste mais Portugal do grande mar-oceano, a "Relação breve da grande e maravilhosa vitória dos moradores da ilha do Corvo, contra dez poderosas naus de Turcos. Anno MDCXXXII". Porque, eu, português coimbrinha, também sei de Isabel de Aragão, a rainha santa que nos introduziu o quase herético culto do Espírito Santo e que, também perto da minha terra, na serra do Açor, há uma Santa Maria dos Açores, invocação que deu nome ao arquipélago, por causa da primeira ilha descoberta, tal como as doze estrelas da Europa vêm de um vitral da mesma invocação mariana, que ainda está na catedral de Estrasburgo, símbolo que o próprio Padre António Vieira usou para bandeira do quinto-império do poder dos sem poder que aqui foi comunitariamente assumido, neste paradoxo da pátria amada, azul de mar, com lágrimas de sal. E não foi um acaso, tudo ter sido cumprido pelo grão-mestre daquela Ordem dos Templário que o consorte de Isabel de Aragão, el-rei D. Dinis, transformou em Ordem de Cristo, nestas encruzilhadas de um espírito que nos continua a dar alma atlântica.

25.6.08

Ofício a um qualquer capitão-general da burocracia reinol, quando os ilhéus se volvem em provincianos capitaleiros e as ilhas no real centro do mundo


Excelentíssimo senhor capitão-general da burocracia reinol


Para os devidos efeitos se informa que o funcionário-professor subscritor desta missiva (Professor, ISCSP of the Technical University of Lisbon, Portugal) estará retirado da civilização burocrática, durante dois dias, na ilha das Flores, onde se realizarão sessões de trabalho do colóquio "External Dimension of Regional Autonomy in Europa". Indica como testemunhas Mercedes Samaguiego Boneu, Paul Allies, Daniele Pasquinucci, Laura Grazzi, Federiga di Sarcina, Ioan Horga, Georges Contogeorgis, Ariane Landuyt, Rudolf Hrbek, Julián Zafra Diáz, Maria Assunción Asin Cabrera, Frank Delmartino, Yuriy Pochta, Andrew Scott, Klaus Nagel, Jóan Pauli Joensen e Carlos Amaral.


As sessões não são secretas e até tiveram transmissão em directo pelo portal do parlamento açoriano. Como a minha internet portátil não tem velocidade adequada, na parcela mais ocidental da União Europeia, que é coisa que fica em torno de Ponta Delgada... mas das Flores, estarei retirado da circulação por mais de quarenta e oito horas, pelo que lamento não poder adequadamente responder aos eventuais ofícios de Vossas Senhorias. Usem, como sucedâneo, umas gaivotas, uns milhafres ou, mais simplesmente, as asas da imaginação criadora que é a tal coisa que lê nas entrelinhas.


Com as melhores saudações académicas


O Subscritor


PS: Peço desculpa de usar o azul de baleia, mas é uma homenagem ao meu amigo e colega de liceu, Rui Martins, o tal que tem pergaminhos antropológicos por obra feita...

Algumas notas, retiradas da cartilha de Sá de Miranda, segundo a qual vencer é ser vencido


Apesar de tudo, ainda tenho tempo para espreitar notícias ditas nacionais. Reparo que há um ministro destacado para desancar na líder da oposição, a ver se ela cai na esparrela de responder à provocação: desta é um tal que veio do PCP, que assim exerce a função de Correia de Campos contra Paulo Portas. Noto que outra ministerial figura, do alto da sua função de funcionário da UE, diz que o governo está a ser vítima de um ataque concertado da direita conservadora e da extrema-esquerda, assim qualificando as organizações sociais representativas do sector agro-alimentar. Já uma terceira, a personalidade que pôs na rua, contra ela, cem mil profissionais do sector que tutela, continua a teorizar contra os profissionais do pessimismo. Todos reavivam certo discurso do velho Estado Novo contra os reviralhistas, os tais que não queriam confundir as obras e reformas do "ancien régime" com as maravilhas daquela idade que pretendia ter atingido o promontório dos séculos. Vale-nos que um foragido foi transformado em herói nacional pelos telejornais de todas as televisões, que assim se concertaram para darem guarida a um "agenda setting" do mesmo estilo com que certos britânicos nos brindaram com o caso Maddie...


Por outras palavras, o poder, encasulado na sua formal maioria absoluta, continua a julgar que é possível gerir o poder pelo poder, distribuindo migalhas por todos os esfomeados que se aproximam da mesa do orçamento. O poder do estado a que chegámos retoma as lições do velho "raposa" Rodrigo da Fonseca, esse técnico da politiquice que aconselhava os governantes a tornarem os opositores de ontem em comensais, para que todos se banqueteassem com os devoristas. Não tarda que chegue aos desespero ético de um José Luciano e que proclame: não é o meu partido que me leva ao poder, sou eu que levo o meu partido ao poder.


Mais: o poder sabe de ciência certa que as patuleias apenas são ocasionais e que se estiver aflito sempre pode dizer, como Saldanha, que a Europa tem de intervir para nos livrar de uma manobra miguelista, mesmo que o grosso da coluna dos revoltados venha a ser capitaneada por Sá da Bandeira, mobilizando todos os setembristas que não seguiram o viracasaquismo dos Cabrais. Haverá sempre uma divisão militar comandada por Concha e uma esquadra britânica que, manobrada pelo Paço, nos obrigará à vergonha da convenção do Gramido. Aliás, Cristóvão de Moura continua a prosperar na alta burocracia dos Habsburgos e o Miguel Vasconcelos, que ainda não foi adequadamente defenestrado, vai elaborando todos os pareceres jurídicos que sejam necessários para que Filipe II possa dizer, no fim do passeio, que nos herdou, comprou e invadiu.


Não há nada de novo debaixo do tal sol que continua a não deixar que o olhemos de frente. Esta continuidade pós-autoritária e pós-totalitária, ao não educar para a cidadania dos homens livres, preferindo a estatística dos exames facilitados, impediu que cada um espremesse gota a gota o escravo que permanece dentro de nós. Logo, poderemos concluir, que a culpa de conservarmos esta escravatura doce, apenas está na circunstância de não haver a necessária revolta de escravos, só para parafrasearmos Tchekov e Beaumarchais, os tais que não tiveram que tecer loas à existência de Mário Lino, Jaime Silva e Maria de Lurdes Rodrigues, pessoas de inequívoco perfil de esquerda que, ipso facto, se julgam detentores do monopólio de uma ética antifascista, um pouco à imagem e semelhança dos tais Cabrais e das respectivas "restaurations" dos "anciens régimes".


Apenas esquecem que, do mesmo mal, padeceram antigos ministros de Salazar que lavavam as mãos como Pilatos, só porque, aos dezoito anos, tinham o carimbo de esquerdistas. Porque eles atingiram o despudor da total ausência da verdadeira ética republicana, aquela que Kant identificou como o imperativo categórico, quando praticando descaradas ilegalidades, injustiças e persigangas, típicas do despotismo ministerial, conseguiam, pela emissão de adequada literatura de justificação, assumir a dimensão de música celestial, que a jagunçada dos servos ia propagandeando. Aliás, tinham cuidado de deixar as cacetadas para os serviçais e feitores e sempre podiam mostrar que as respectivas mãos de macho de cabra estavam dotadas da necessária limpeza de sangue.


Basta ver como em certas esquinas do nosso micro-autoritarismo sub-estatal continua a mesma música celestial, cantarolada pelos mesmos sacristães que perderam o sentido dos gestos, mas que têm o mérito dessa moral de sucesso, do poder pelo poder, congregando numa grande união nacional, estalinistas que se pintaram de democratas, fascistas cobardes que nem ao pós-fascismo aderem e outros tantos deste neocabralismo, a quem pedem serviços de neopidismo denunciante, com muita água benta e dobragem da espinhela. Ai dos que seguem o velho partido de Sá de Miranda, do antes quebrar que torcer, que homens da Corte não podem nem querem ser... só porque consideram que as leis universais só podem ser emitidas pelo exemplo das condutas de cada um, quando cada um ousa viver como pensa, mesmo quando se assume do contra e quer dar o exemplo do risco de viver cada uma das suas horas como se fosse a última. Os tais doidinhos que, neste tempo de homens lúcidos e situacionistas, têm a lucidez daquela ingenuidade que os obriga a ser do contra, mesmo quando foram os primeiros convidados para a tal mesa do orçamento... Só que leram Fernando Pessoa e sabem que vencer é ser vencido...

PS: Agradeço a um p
roletário no Sector da Assessoria de Comunicação e Relações Públicas, a transcrição global que faz de uma entrevista minha que ontem foi publicada no semanário "O Diabo". Contudo, não conegui abrir as declarações que prestei ao Meia Hora.

24.6.08

Prefiro peregrinar pelos impérios do espírito santo e recolher-me diante da Sociedade do Amor da Pátria


Espero não voltar a ser processado, porque não tive prévia autorização do meu "herr Direktor" para participar neste fecundo conselho científico que mobiliza professores de Salzsburgo, Aaland, Rússia, Escócia, Faroe, Roménia, Sienna, Montpellier, Coimbra, Salamanca, Tubinga, Açores e Lisboa (apenas eu). Há por aqui uma paradoxal conspiração da Europa das pequenas regiões e das muitas ilhas autónomas, donas de muitas orgulhosas identidades e de muitas autonomias históricas. Não consta que, por aqui, se brinque ao poder pelo poder e às angústias neofeudais dos senhores da guerra. Por aqui apenas circula aquela autoridade que rima com o saber. E nestas ilhas ainda há sinais de defesa de concepções do mundo e da vida que respeitam o clássico princípio da subsidiariedade, onde o número de habitantes não se mede pelos palmos do quantitativo, mas pelo sentido político do humanismo e da cidadania, incluindo a cidadania académica que certos deslumbrados continuam a comprimir. Desliguei o telemóvel para as intigas capitaleiras do universitarês, mas, ainda assim, inundam a minha caixa de correio os desvarios. Prefiro peregrinar pelos impérios do espírito santo e recolher-me diante da Sociedade do Amor da Pátria. A resistência dos homens livres continua a semear revolta contra os pretensos funcionários da revolução frustrada que nos continuam a ocupar a mesa do orçamento.

Contra eurobeatos e eurocépticos


Ontem, na sala do plenário do parlamento açoriano, sob um painel de Carlos Carreiro, onde, ao lado da pomba do espírito santo, se invocam os quatro santos laicos do arquipélago (Antero, Teófilo, Nemésio e Gaspar Frutuoso), lá recordei que os primeiros povoadores do Faial, foram europeus não lusitanos, fugidos da Guerra dos Cem Anos. Porque importa pensar a Europa com estas saudades da terra, fugindo ao rolo unidimensionalizador que nos maniqueíza entre eurobeatos e eurocépticos e reparar na Europa-mosaico da discórdia criativa, no dividir para unificar.


Eu, pelo menos, acredito que o conceito português de nação, ao contrário de outras perspectivas, assumidas e decretadas por certas potências europeias, não é incompatível com a ideia de Europa que interessa aos europeus de hoje e de amanhã. Daquela Europa mosaico, que só pode consensualmente unir-se, se, antes disso, não temer dividir as uniões que lhe foram impostas pela razão da força.

Não posso deixar de reconhecer, como salientava Albert Camus, que a Europa tem vivido sempre nesta luta entre o meio-dia e a meia-noite, uma confrontação entre o equilíbrio e o desequilíbrio, as lutas entre a ideologia alemã e o espírito mediterrânico(Idem, p. 402), traduzindo-se em a comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a sociedade absolutista, a liberdade reflectida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas.


Com efeito, na senda de Rougemont, também quero defender a Europa como a pátria da discórdia criativa e o homem europeu como aquele que procura a singularidade, a diferença, a ideia de variar, de diferir ou de inovar, esta maneira de opor o indivíduo ao todo, e de atribuir o absurdo não ao eu que a sente, mas ao mundo ou à sociedade, eis o que é propriamente ocidental. Isto dá o revoltado, o objector de consciência, o revolucionário ou o reformador; isto dá, nas ciências, o investigador, e o inovador nas artes.


Também quero definir a Europa como esta parcela do planeta onde o homem se põe constantemente em causa e quer mudar o mundo, de tal maneira que é aí que ganha sentido a sua vida pessoal. A Europa como uma espécie de revolução permanente, revolução conduzida pela consciência humana contra todas as potências que oprimem ou que negem um eu responsável e distinto. Essa Europa onde a liberdade é o bem mais precioso. Pois a ideia mais exaltante de facto para os Europeus de qualquer nação e de qualquer classe, de qualquer crença e de qualquer descrença. O apelo à liberdade, a reivindicação da liberdade (qualquer que seja o sentido que se dá à palavra), é sem dúvida nenhuma o tema afectivo mais generalizadamente europeu, o mais comum a todos os homens do nosso continente, e pode ver-se nele o mais próximo equivalente, na nossa civilização profana, da invocação do sagrado.

Parafraseando o teórico político português do século XVII, Carvalho Parada, poderemos dizer que divide-se esta Europa em vários reinos, estados e províncias, cada um dos quais se governa pelos meios que entre si julgam por mais convenientes, e conformes às várias qualidades, com que a natureza os criou, ou a arte os formou, porque uns são grandes e outros pequenos, uns ricos e outros pobres, uns marítimos, outros pela terra dentro, uns pacíficos, outros inclinados a guerras, e com muitas outras qualidades, segundo os sítios em que estão, de que dependem.


Há diversas maneiras de tender-se para o mesmo fim. E o fim nada tem a ver com a exiguidade da massa que o serve, porque como dizia Bodin, un éléphant ne peut être dit plus animal qu'une fourmi, alors qu'ils ont également la force de sentir et de se mouvoir.

23.6.08

Também por cá há ilhas de homens livres que procuram uma universidade livre do reformismo tecnocrático


Estava perdido em descobrir meu mar interior, olhando, a partir da ilha do Faial, neste cruzar do Canal, as ilhas de S. Jorge e do Pico, quando ouvi a Drª Manuela, do alto da sua memória ministerial, em oficioso relatório, a que chamam discurso. Confesso que apeteceu esquecer e continuar a escrevinhar sobre a Europa, sem ritmo eurobeato, mesmo quando vou correndo o risco de passar para a outra margem, junto daqueles que já alinham, em revolta activa, contra os meandros desta espiral de decadência que nos vai afogando em descrença.


Apenas confirmo que, também por cá, mesmo com autonomia, se vivem as delícias daquele estadão fragmentador que desertificou a sociedade civil e nos transformou numa sucessão de quintas de animais falantes, onde há sempre alguns que são mais iguais do que outros, isto é, os apoiantes dos grandes e pequenos chefes da mesa do orçamento. Mas há também alguns outros que resistem e vão continuando a avivar as sementes daqueles passeios peripatéticos que continuam na senda dos que formaram gente como António José de Ávila, Antero de Quental, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga.


Eram universidade antes de haver a universidade do Professor Enes, sempre nas portas do ser, desde o tempo dos conventos aos cidadãos que nos liberalizaram a partir da semente deixada por S.M.I. o Duque de Bragança que aqui preparou o desembarque em Pampelido. Esperemos que as universidades a que chegámos, e que agora vivem no caldeirão borbulhante das assembleias estatutárias, fabricantes de quintais burocráticos, permitam a permanência de algumas dessas ilhas de meritocracia, para que o arquipélago federativo desses homens livres, num qualquer dia radioso, sem nevoeiro de reformistas tecnocráticos, a possam regenerar, em nome das permenecentes ideias de pátria e de "universitas scientiarum".

22.6.08

Por cima da Praia de Porto Pim, sem mau tempo no canal


Aqui, diante do Pico, por cima da Praia de Porto Pim, para, amanhã poder pensar a Europa e as autonomias em público. Longe do ritmo capitaleiro e dos joguinhos de poder, naquela sua mais recente versão da conspiração de avós e netos, ou de bisavós e bisnetos, neste país que promove a coligação de Mário Soares, Manuel de Oliveira e tantos outros ausentes-presentes, com os jotas predadores do Bloco Central, que acabam todos enredados por esses gestores sessentões que assumem a birrenta sobranceria dos micro-autoritarismos sub-estatais que, ao ritmo das epidemias borbulhentas, continuam a traduzir em calão o reformismo dos orgulhosamente sós. Aqui, em pleno canal, sem mau tempo, sinto o azul e a maresia, longe desses cogumelos bafientos que apenas devem merecer o nosso desprezo, mesmo quando as respectivas garras nos arrepelam o bolso e o dorso.


Cada ilha é um mundo,
comunitário, profundo,
e, no fim de todas as ruas,
onde a terra e o ar se confundem,
há um pedaço de mar
(um leve chumbo,
de fundo esverdeado).
Há gaivotas, barcos,
lonas e telas.
Também há mulheres de relva
e o desejo de partir,
para vir meu regressar.
Atlântico,
mar imenso,
imaginário,
do qual pensamos ser o rosto,
presos por um pilar de pedra
ao próprio centro da terra.
A lava empedernida,
exposta à ventania,
e o longo cais de terra porosa
repleto de navios,
onde vou olhando, ao longe,
o que, outrora, procurei sonhar
e que ainda não achei.


20.6.08

As tácticas do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas


Chávez ameaça não vender petróleo a quem aplicar directiva sobre imigração ilegal. Mário Soares vai poder entrevistá-lo sobre a matéria. Líderes europeus não fixam data limite para solução do "não" irlandês. Que raio de país é este que nem às meias-finais da UEFA foi? Cristiano Ronaldo diz que as hipóteses de ir para o Real Madrid «são grandes». Madail está entusiasmado com este exemplo de plataforma de negócios em que se transformou a embaixada lusa à pátria de Guilherme Tell. Três pessoas esfaqueadas após exibição do jogo Portugal-Alemanha. Não consta que tenha sido vingança por causa de La Lys. Portugal fora do Euro2008. Madail continua a mandar. “Número dois” do MDC arrisca pena de morte. Isso foi na terra do Monomapata. Por outras palavras, o normal é haver anormais. Especialmente no dia em que começa o ferreirismo, com o regresso de Paula Teixeira da Cruz.


Por mim, apenas recordo o que ontem apareceu no DN: José Adelino Maltez é igualmente contundente. ... defende que "o normal é haver anormalidade na política, no passado o FMI gerou o Governo PS-CDS, depois o Bloco Central foi também formado pela crise, agora o que se sabe é que a crise voltou". Maltez diz que o regresso do Bloco Central "é o atirar da toalha antes do combate" e alerta para o facto de que já "há demasiados sinais que apontam para isso, para um Governo de pilotagem automática a partir do exterior".


Mais acrescento: julgo que os portugueses puderam confirmar que a pomposa governança deste Estadão se assemelha cada vez mais a um sistema de pilotagem automática, programada para outras circunstâncias que entra em curto-circuito quando acontecem daquelas circunstâncias que não estavam no manual de programação do "porreiro, pá".


Também percebemos que a maioria dos factores de poder já não são meramente domésticos, dado que esta praia ocidental está aberta demais a certas nortadas da globalização predadora, sobretudo quando arrancámos os canaviais que nos protegiam e deixámos que os patos bravos limpassem a areia das dunas que nos davam alguma suavidade.


Indo à outra face da moeda, direi que os primeiros sinais da crise demonstraram que a oposição social não teve adequados canais sistémicos no sistema político, à excepção do PCP que teve a agilidade de se assumir como voz tribunícia de vários grupos sociais em fúria, levando a que, nos mais recentes estudos de opinião, Portugal se tenha tornado no único país da Europa onde, à esquerda dos socialistas, há vinte por cento de preferências.


O que também é um atestado de incompetência das direitas e dos centros que, enredados nas sereias de um populismo de personalizações do poder, não estiveram à altura das exigências de resposta à nova questão social. Mesmo forças morais como as Igrejas, perdidas nos enredos dos grupos de pressão e das barganhas dos passos perdidos, não deram voz ao poder dos sem poder, quando estamos perante causas que se configuram como novas patuleias da baixa classe média.


O governo não é o Estado, ao contrário do que afirmou o Primeiro-Ministro. Com efeito, face às leis vigentes, que criminalizam o "lock out" e as greves selvagens, bastava uma simples intervenção do Ministério Público para que se desencadeasse a reposição da legalidade. Logo, no dia seguinte à superação do impasse, a única atitude correcta seria a de propormos a alteração de tais leis, feitas por outras mentalidades, para outras circunstâncias, dado que se vigorar este regime de primado da oportunidade sobre a legalidade, caímos naquele arbitrário do "governo dos espertos" que escolhe, do manancial de leis, quais as que obedecem à interpretação que os ministros fazem do princípio da legalidade, um pouco à maneira das tolerâncias "zero", com que a EMEL incrementa as regras sobre o estacionamento proibido.


Como diziam os clássicos, para haver diálogo, tem que haver lugares comuns entre adversários. Não podemos chamar diálogo às tácticas do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E temos que dar tempo ao nosso chefe do governo, para que ele se recompunha deste desafiante fim do estado de graça que ainda há meses parecia só ser possível analisar pelo verso épico do encómio e daquelas magníficas sessões inaugurativas, com filmes de ficção sobre o futuro do TGV e do aeroporto de Alcochete.


18.6.08

A um opositor não se bate nem com uma flor, mas apenas com um ferro embrulhado em papel vegetal, para que as marcas do poder não deixem rasto


Lê-se o seguinte: More bloggers than ever face arrest for exposing human rights abuses or criticising governments, says a report. Since 2003, 64 people have been arrested for publishing their views on a blog, says the University of Washington annual report. In 2007 three times as many people were arrested for blogging about political issues than in 2006, it revealed. More than half of all the arrests since 2003 have been made in China, Egypt and Iran, said the report.


A primeira reacção portuguesa à matéria foi esta: A impunidade de acusar em público tem de acabar, ou caminhamos para a selva. Quem conhece factos, que os tenha no sítio e actue junto das autoridades.


Dentro em breve, divulgarei um case study, onde se demonstra como a china town lusitana, marcada pelo pós-totalitarismo dos subsistemas de medo, prefere não espremer, gota a gota, o escravo que cada um tem dentro dele, animada pelos moscas do intendente e pela ameaça de os invasores nos mandarem para o maneta que é todo liberdade, igualdade e fraternidade de el-rei junot. Embora digam, ufanamamente, que são de esquerda, declarando que, a um opositor, não batem nem com uma flor, logo acrescentam que apenas se deve bater com um ferro embrulhado em papel vegetal, para que as marcas neopidescas não deixem rasto.


Os pequenos micro-autoritarismos lusitanos, sobretudo os subestatais, não batem nem prendem, mas não deixam de ser mugabes ao ritmo de hugo chávez. Perseguem, usam o ostracismo e transformaram os instrumentos do Estado de Direito no princípio da legalidade do velho Estado Novo, nas suas extensões coloniais de governo dos espertos, onde a lei é permissiva para os amigalhaços e apoiantes da lista, mas implacável para os que dizem não ou decidem "dissidir". Não lêem o que se diz nos órgãos próprios, não ouvem o que se denuncia às autoridades e só falam em literatura de justificação do poder pelo poder, porque consideram que a política é a técnica hobbesiana do homem de sucesso, ao ritmo da "Wille zur Macht", com variantes freudianas. Até mandam fazer contrablogues, com as mais sórdidas campanhas de assassinato de carácter, porque pensam que, enquanto o pau vai e vem folgam as costas...

17.6.08

As quotas, os jotas e os cotas...ou de como o complex carreirista papa o simplex do cidadão incauto


Os vapores maníaco-depressivos, que nos revolvem as entranhas, as massas encefálicas e, sobretudo, a própria alma, anunciam que, hoje, é mais um desses dias adormecentes do interregno, por mais que o buzinão tente acordar-nos para o mais do mesmo e o vira o disco e faz "zapping" na procura do que não há. Ontem, muitos ouviram as palavras sensatas de António Vitorino, enquanto o PSD anda, todo ele, a procurar saber quem vai acompanhar Manuela Ferreira Leite na direcção do partido, garantindo um futuro lugar de deputado. Logo, resta o futebol e a preparação do jogo com a Alemanha, até porque regressou em força o Pinto da Costa com a Carolina Salgado ao lado na inauguração de um estádio qualquer, para a qual não havia prova, e até quando se ficou a saber que o Isaltino é mesmo arguido, três anos depois de o tentaram colocar em tal posição processual, e que o Ferreira Torres vai candidatar-se a Marco de Canavezes. Nem todos os dias têm que ser dias de factos históricos. Logo, vou preparar a minha intervenção no Curso de Verão de Óbidos, da Universidade Nova de Lisboa, na próxima quinta-feira, e o papel que tenho de apresentar nos Açores, na próxima semana, sobre as autonomias e as periferias da Europa.


Esta semana são as últimas aulas e a na próxima a última participação obrigatória na era dos Conselhos Científicos que deliberavam, mesmo quando os Conselhos Directivos usavam o veto de gaveta, em nome da mesa do orçamento. Daqui a uns tempos, o Estado são mesmo eles e eu me liberto de mais um fardo. Apenas espero que os senhores reformadores do Estadão não se lembrem desse magnífico sistema classificativo dos funcionários com tantos por cento de quota para os que podem receber muito bom e onde se fazem contabilidades na engenharia das promoções não dando muito bom aos muitos e bons que já não podem ser promovidos, para que se possam beneficiar os que ainda esperam uma subidazita na carreira. Apenas espero que este reino cadaveroso da Dona Maria da Cunha, da Arte de Furtar e dos gestores pracizados pelos choques tecnológicos, aplique a regra das elites quotadas aos governos e aos parlamentos, classificando com muito bom apenas dez ou vinte por cento dos ministros e deputados, mandando os outros para campos de readequação educativos.


Por outras palavras, este estilo de nivelar pela média das estatísticas, impede qualquer tentativa de meritocracia, obrigando toda a gente que tem vontade de criar e de inventar a cair na rotina cinzentista de um regime que não nos permite avaliar os avaliadores, escolhidos sempre por golpada de assalto aos lugares donde se distribuem autoritariamente os valores e a literatura de justificação. Basta passar os olhos por muitos desses painéis de avaliadores que por aí andam e sabendo de ciência certa que aí funcionam os golpes de secretaria, baixando os fins da república, dado que os julgadores são eles os que se julgam os seus dependentes, segundo a velha técnica feudal da defesa despudorada dos próprios interesses.


Entretanto, as velhas autonomias das universidades, das igrejas, das forças armadas e das magistraturas vão sendo sucessivamente eliminadas, através de uma santa aliança dos velhos métodos salazarentos e dos jotas à procura de carreira. Nada parece escapar a este rolo unidimensionalizador da estupidez. Ainda noutro dia espreitava o enlevo burocrático de um destes novos pretensos donos do poder, que se diz inscrito no PS, com um seu colaborador, antigo mentor intelectual da União Nacional (sic) e consabido mobilizador dos mais rascas pides que ainda resistem, pretando serviços de espionagem privada a quem tem massa para o pagamento. Sorri. Mas revoltei-me...


16.6.08

Gosto desse modo de ser português que nos dá raiva e revolta e que, palavra a palavra, nos pode conduzir para a esperança dos desesperados


Helveticamente derrotados, agora que Scolari nos abandonou por falta de patrocínios, apenas recordo que, de nada, valeu ao povo argentino ter o maradona e o título do mundial. Valia mais ensaiarmos esta amargura, eventualmente passageira, para prepararmos o "day after", o tal que pode agravar a nossa depressão e mostrar, sem disfarce, o fim das ilusões, quando já mais ninguém estiver disposto a passar um cheque em branco aos que nos continuam a cantarolar este permanente inferno de boas intenções.


Porque quando os comentaristas das noites da má língua e do eixo do mal se tornam realistas e a acção dos governantes, presidentes e deputados atinge o nível do anedótico, apenas se confirma que vivemos no país do faz de conta, marcado por uma governança em regime de pilotagem automática, programada para outros modelos e outras circunstâncias, mas onde permanece o beneficiário de sempre, esse conjunto das forças vivas que conseguem controlar os donos do poder, onde não há moralidade nem comem todos.


É por isso, que eu, liberalão e monárquico, gostei da entrevista do Saramago, porque gosto mesmo do Saramago, esse velho senhor que continua acidamente lusitano nas suas mais íntimas fibras identitárias, ao mesmo tempo que se proclama comuna, para manter a coerência. Ele, pelo menos, sabe que, neste situacionismo, um qualquer pode ser decretado "persona non grata" pela presente coligação negativa de cobardes e oportunistas que vai gerindo as cunhas e os encómios aos chefezinhos deste arquipélago de carreiristas dos micro-autoritarismos subestatais. São estas as bolhas donde emerge esse vulcão de impotência que ora tem o nome de Barroso, a nível europeu, ora se chama Cavaco em "lapsus linguae", ora se diz Sócrates, a nível da ficção doméstica da procura de patrocinadores para o murtosa de sempre.


Todos estes representantes da pilotagem automática, que nos está conduzindo ao naufrágio, pensam ter encontros imediatos com a "vox dei" da modernização, mas as pontes que projectam, mesmo que nos iludam com alta velocidade, assentam em pilares de muito tédio, sempre daqui para o nevoeiro da outra banda, enquanto vão mergulhando as cabecinhas nos preconceitos de esquerda e nos fantasmas de direita.


Gosto do Saramago e desse modo de ser português que nos dá raiva e revolta e que, palavra a palavra, nos pode conduzir para a esperança dos desesperados, essa antiga, mas não antiquada, forma de servirmos a comunidade, ou república, através de certa acidez iconoclasta, que é uma das polarizações do nosso modo de ser, mesmo quando se disfarça de maria da fonte ou de anticlericalismo. Apenas não caio na esparrela de procurar uma espécie de D. Sebastião científico, daquela pretensa esquerda que pensa ter ideias só porque soletra uma ideologia de amanhãs que cantam.


Por isso não gosto desse exagero de bom senso que aconselharam à pretensa líder da oposição, a tal que nos quer cavaquistanizar, encarquilhando a pátria em gráficos, curvas e listagens do deve e haver, mui orçamentalistas. Porque não quero que todos, e cada um, se reduzam a meros elementos fungíveis de fluxos e refluxos de adjectivações sem verbos em voz activa e sem substantivos que nos dêem corpo.


Não é assim que nos vemos livres desta mentalidade inquisitorial, dos que, para os respectivos microfones, reclamam o monopólio do caminho e da verdade, fazendo apologética de demonização dos dissidentes e dos meros não louvaminheiros. Basta notarmos esse exagero de comentaristas que agora condenam os irlandeses, só porque estes praticaram a liberdade efectiva dos povos e disseram não aos caminhos gnósticos dos eurocratas, revoltando-se contra as abstracções que nos decretaram como salvíficas.


De nada vale dispersarmo-nos em lamentações, só porque o mais recente D. Sebastião científico de uma falsa Europa sem ideia de Europa se confundiu com os falsos timoneiros que a muitos davam ilusão de sustento e aposentadorias. Deixem os povos livres para a democracia real, que eles, se calhar, estão mesmo fartos daqueles patrões e patroas que estão conduzindo as pátrias e a Europa a becos sem saída. Continuemos a dizer não aos fidalgotes e seus feitores, cujos chicotes apenas estão guardados, mas que continuam a ameaçar os nossos dorsos... A única salvação está em continuarmos com razão e paixão, na procura do eterno, aqui e agora, como transpira da imagem.

14.6.08

O situacionismo prestes a trocar o mundo da realidade virtual das cruzadas contra as heresias, pelas notícias reais, vindas da Irlanda


Tentando interpretar as razões do "não" irlandês, andei pelo "Youtube" e consegui detectar a causa, notando esta intervenção de um militante do "Sinnfein", bem como a réplica que o situacionismo lhe deu. Passei, em seguida, para um velho lutador contra o sistema soviético, e decidi continuar a resistir. No intervalo, encontro um velho companheiro de trabalho, numa das esquinas da vida. Comecei a labutar com ele, praticamente na mesma semana, na mesmíssima carreira da função pública e em idêntica universidade. Eu lá fiz o "cursus honorum", degrau a degrau, enquanto ele decidiu gerir as amizades e viajou nos aviões da cunha até à burocracia europeia, apenas aterrando há pouco tempo nestes restos de pátria madrasta, mas ornado de reforma antecipada e com muito mais salário para não fazer nada do que aquele que recebe um catedático lusitano no activo. Está à espera de entrar num desses cartórios de tráfico de influências e consultadoria, como o fizeram os respectivos patrocinadores que dizem mal de Medina Carreira. E eu a ter que aturar os gestores de administração escolar, os doutorados em educacionês e os controladores das verbas a que chamam investigação científica que só publicam os "papers" dos amigalhaços, censurando jovens geniais que não se submetam aos ditadores do carreirismo.


Daí não estranhar a primeira conferência de imprensa que nos deu a Drª Manuela Ferreira Leite, onde foi usada a mesma máscara do choque tecnológico com que o primeiro-ministro costuma viajar pelo mundo virtual do porreiro pá. Ela, que esteve caladinha durante o "happenning" dos camionistas, talvez por causa do Patinha Antão, veio, agora, pedir a declaração de estado de emergência europeísta, recordando-nos que foi ministra de Barroso e assessora de Cavaco, quando este era bom aluno da versão bismarckiana e habsburga da comissão europeia. Por outras palavras, o PSD interrompeu a sua breve travessia do deserto para se assumir como porta-voz da secção portuguesa dessa multinacional chamada PPE, usando um discurso que, certamente, não foi inspirado pelo "blogue do não" de José Pacheco Pereira nem pelo poema de Alegre ao manuelinho de évora, contra os ministros do reino, por vontade estranha.


Ao mostrar-se formal continuadora das posições de Luís Filipe Menezes durante o cerimonial do Mar da Palha, também repetiu o discurso de Pedro Santana Lopes sobre a matéria, e talvez tenha anunciado o futuro deste sistema de Bloco Central: um governo de salvação pública, em coligação com o PS de José Sócrates, com a eventual junção de esforços do PS e do PSD numa candidatura presidencial comum, que bem pode passar pela recandidatura de Cavaco ou pela reforma dourada de Durão. Os portugueses do "não", longe dos partidos, dos patronais que fazem actas de reunião com o Mário Lino, dos sindicalistas do sistema e da própria Santa Madre, percebem o "vira o disco e toca o mesmo". Julgo que tudo poderia ser resolvido se o enferrujado Bloco Central lusitano se oferecesse para uma campanha de dinamização cultural, ou de cruzada, contra as trevas dos dissidentes e heréticos irlandeses, controlados pelo IRA. Por mim, sugiro que para lá fossem remetidos todos os militantes do novo nacional-porreirismo, como o Sócrates e a Manela, vestidos pela síntese de Isabel Meireles e Teresa de Sousa, com uns pareceres dos Professores Fausto de Quadros e Diogo Freitas do Amaral, iguais aos que eles deram ao Casino do Estoril. E como eles gostam de homilias, também poderíamos traduzir em gaélico as prédicas dominicais do sempre católico Marcelo Rebelo de Sousa e os acrescentos de segunda-feira do antigo comissário António Vitorino, esse que tem fama de agnóstico, mas que já está ungido com uma recente entrada como professor da universidade católica. Sugiro o Vitalino Canas para porta-voz, que sempre reconheceu que a coisa não foi supresa e lá vê mais um mercado para a sua provedoria do trabalho temporário...


Por mim, prefiro seguir a explicação templária do "não" da Irlanda: nunca deviam ter acabado o diabólico referendo numa sexta-feira, dia treze. Foi no ano de 1307, numa sexta-feira, dia 13 de Outubro, que Filipe, o Belo, nos mandou prender, acusando-nos de heresia e de outros vícios anti-situacionistas. Setecentos anos depois, as tradições situacionistas continuam e tudo se resolveria com mais um auto de fé, fazendo tostar na praça pública todos os que divulgam os videos de Medina Carreira e de Bukovski, contra os amanhãs que cantam desta burocracia bruxelense, onde os mais assanhados dos defensores do falso quinto império são capitaneados pelos filhos da inquisição, pelos fascistas mal reciclados e pelos maoístas e estalinistas deficientemente convertidos à democracia pluralista e ao Estado de Direito, mas que agora são os primeiros dos torquemadas contra os doidinhos como eu, que continuam a clamar por revolta no largo das alterações.
PS: Deixo, como inspiração, a imagem de Sócrates, prestes a viajar com o VR1280, na VI Cruzada de luta contra os infiéis anti-europeístas, esquecidos das pregações dominicanas do PPE e do PSE, contra os cátaros...

13.6.08

Desgraçado daquele cuja prédica é resplandecente de glória, ao passo que é imoral nos seus actos.


Depois do santantónho, da ressaca da sardinhada e dos fulgores liníacos do fim do bloqueio, ficámos a saber que Scolari nos vai abandonar e que Sócrates é o único líder da Europa que se entendeu com os camionistas em três dias apenas. Infelizmente, as notícias irlandesas, o tratado do mar da palha, o tal do prorreiro, pá, deu às vilas diogo. Alguns dos tratantes que queriam construir uma Europa contra a Europa parece que continuam a morrer à vista da costa. Logo, como militante europeísta, proclamo que a Europa vai nascer de novo, contra os usurpadores do nome e da ideia de Europa. E tudo proclamo no dia em que nasceu Fernando Pessoa (há cento e vinte anos) e em que morreu Vasco Santana (há cinquenta anos).


Convém reparar que quem nos (des)governa é o mesmo portugalório patriotorreca que atirou o Padre António Vieira para a Inquisição e que agora o tenta amarrar nos discursos oficiosos que ornam a condecoração dos marques mendes. Quem nos (des)governa é o mesmo partido dos fidalgos que perseguiu e silenciou Fernando Pessoa e que agora o tenta encerrar no museológico do sistema dos burocratas que administram e encunha os concursos das bolsas para investigação científca. Tanto em Portugal como na Europa os povos e as suas almas são mais importantes do que os aparelhos partidários e corporativos que aprisionam a ideia, o projecto e o processo de construção europeia e de reconstrução nacional. Como ainda hoje nos nos desafiam as palavras António, o Santo de Lisboa e de Pádua, desgraçado daquele cuja prédica é resplandecente de glória, ao passo que é imoral nos seus actos.


Apenas me apetece voltar a escrever o que denunciei face a Maastricht. Nos bastidores do projecto europeu já não estão as nobres figuras dos pais-fundadores, mas os eurocratas. Toda uma fauna de pretensos filhos de algo pela via da contiguidade burocrática e partidocrática. Todos eles exímios na metodologia, mas parcos no sonho, que, pouco a pouco, foram usurpando as decisões fundamentais, tanto através dos euroburocratas de Bruxelas, como dos europarlamentocratas de Estrasburgo. Uns viciados nas burocratices e outros na politiqueirice e todos com vencimentos de luxo, ambos se enredaram nos ares condicionados das respectivas torres de marfim supranacionais, perdendo-se nos corredores dos grupos de pressão e das partidocracias.


Assim, o grande sonho europeu dessangrou-se. E a eurocracia burocrática e parlamentocrática, afastando a Comunidade do homem comum, deixou de entender a função de governar e de representar.


A Europa é uma democracia de muitas democracias. Não é uma super-estrutura comissária, directamente irresponsável perante os povos - uma espécie de sacro-império burocrático em regime de despotismo iluminado, mesmo que com boas intenções construtivistas -, nem um super-congresso multitudinário sem respeito pelas democracias vivas e directas dos vários cantões nacionais.

A democracia, para além dos democratas, precisa dos povos e que os povos só confiam em políticos. A Europa não pode nascer de cima para baixo, com émulos de Bonaparte, Metternich ou Bismarck. A Europa que temos, bem pelo contrário, foi criada pela multiplicidade unitária do dividir para unificar. Além disso, por melhores que sejam os euroburocratas e os europarlamentocratas, nenhum deles, por mais genial que seja, ou todos eles juntos, por muitos e bons que sejam, conseguem pôr os homens concretos e as realidades dos povos ao serviço daquilo que eles decretam como processo histórico.

Hoje, quem ganhou foi a Europa, que assim teve a oportunidade de perceber que o europês não serve, porque a Europa só pode realizar-se através dos homens comuns. Aliás, a democracia é precisamente a decisão dos povos, através da voz autêntica dos homens concretos que os integram, nos momentos excepcionais. Só nos intervalos é que os governantes e os representantes podem falar em nome deles, mas dentro do mandato global que lhes foi atribuído.


Ai dos políticos que julgam que em vez de um pacto de associação com os governos e os parlamentos, os povos constituíram pactos de sujeição, susceptíveis de levarem à edificação de Leviatãs, sempre desejosos de homens novos e de povos novos. Quem manda, devem ser os são os que cá estão.

Como cidadão de uma polis que, por acaso é a mais permanecente de todas as unidades políticas da Europa a que chegámos, aceito participar nas oscilações da balança da Europa porque o modelo de organização política dos textos fundamentais da União Europeia me garante a conservação daquelas liberdades nacionais que nos deram direito a república através da concretização do reino, no século XII. A Europa em que eu acredito, a Europa que leio nas entrelinhas dos pais- fundadores, é uma Europa que foi feita contra os erros políticos que levaram ao permanente confronto de impérios europeus. Daqueles impérios europeus que sempre foram uma degenerescência das poleis, daqueles impérios que, com o absolutismo, em nome da soberania una, inalienável, imprescritível e indivisível e do leviatânico Estado Moderno expropriaram os tais reinos, os únicos legítimos herdeiros da civitas da República Romana e da polis ateniense.

A minha república, herdeira do regresso à política que ocorreu nos séculos XII e XIII, inspirada em Aristóteles e Cícero, se revoltou contra a dominância do Papado e do Imperium e proclamou que rex est Imperator in regno suo. O reino de São Tomás e do nosso Infante D. Pedro, o reino dos comuns, feito de um príncipe com toda a comunidade da sua terra. O tal reino que o mesmo Duque de Coimbra visionava indutivamente, como um concelho em ponto grande. Este reino tinha um Príncipe, tinha um poder supremo, uma vontade de independência. Mas o poder supremo era da mesma natureza dos poderes que lhe estavam abaixo, onde o vértice era apenas uma parte da pirâmide do poder da polis, uma parte que, sendo parcela do todo, era, não obstante, representante do próprio todo. Acontece que este reino foi, a partir do absolutismo teocrático, expropriado pelo renascimento do império, num processo que passou da república teocrática dos luteranos, calvinistas ou cromwellianos, os primeiros ensaios do terrorismo totalitário do estadualismo, ao L'État c'est moi dos despotismos esclarecidos, continuando a mesma natureza despótica, quando se substituiu o rei absoluto pelo povo absoluto, da Revolução francesa à Revolução soviética.

Os Estados a que chegámos na Europa das potências e dos Estados em movimento, ainda continuam inconscientemente feudalizados por projectos imperiais frustrados. Da Espanha de Carlos V, à França de Napoleão. Da Alemanha de Hitler à Inglaterra de outras procuras de Império no além mar. Da Rússia sonhando-se polícia da Europa a outros impérios espirituais ou económicos. Estes modelos talvez contrariem aquilo que a Europa do pós-guerra tentou ser. Essa outra coisa que ousou procurar a esquecida unidade da respublica christiana na diversidade dos reinos, dos povos e das nações. Essa tentativa de escrituração de um novo capítulo para além da dinâmica da vontade de poder dos Estados Directores em confronto, instrumentalizando uma multidão de Estados secundários. Esse sonho que tentou refazer os Estados à maneira do chamado regresso da política, do dividir para unificar. Promovendo uma descolonização interna da Europa, para reconstruir a casa comum, em torno do que era efectivamente comum.

Como português, fiel às Cortes de Coimbra de 1385, às promessas traídas das Cortes de Tomar e à solução de autodeterminação pela vontade nacional concretizada no dia 1 de Dezembro de 1640, acredito na Europa como a república universal a que temos direito. Acredito na Europa da respublica christiana - como o defendeu o humanismo cristão - acredito na Europa dos ius gentium - como o defenderam os estóicos e o humanismo laico dos projectistas da paz. Acredito na Europa que os democratas-cristãos, os sociais-democratas, os conservadores reformistas e os liberais éticos começaram a reconstruir face às últimas tragédias do Leviatã e do Behemot, como as conhecemos na Segunda Guerra Mundial. Não tenho, portanto, medo da Europa. Não tenho o receio atávico de certo conservadorismo britânico, com medo da Invencível Armada. Não tenho complexos do cordão sanitário luterano, como certos nórdicos da Europa enriquecida continuam a alimentar, para não falar nalguns descendentes dos huguenotes franceses que por aí circulam com outros nomes.

O reino e a república são deste mundo, onde o homem deve voltar a ser a medida de todas as coisas e onde nada do que é humano pode ser alheio ao político. O Império é que é do outro. É daquilo que só Deus tem. Por isso, importa proclamar que devemos expurgar do Estado a que chegámos tudo o que não é do homem, todas aquelas religiões seculares dos Impérios e Leviatãs que, em nome de essências e nominalismos, tanto desumanizam o Estado como ofendem o divino, quando transformam as ideologias em sucedâneos do transcendente. Temos de ter os pés assentes na terra e o coração no mais além. Não podemos ficar a meio caminho, servindo coisas etéreas que são o produto dos nossos fantasmas. Assim foram os impérios que ofenderam aquele verdadeiro Império que só Deus tem. Assim continuam a ser certas concepções de Estado moderno, filhas do despotismo esclarecido e das teocráticas razões de Estado.

Pretendo apenas sublinhar que andam para aí, muitas concepções de uma certa Europa desumana que, em nome de um sacro-império tecnoburocrático, muito iluminista e desejoso de despotismo, pretende continuar na senda dos senhores da guerra, a destruir as repúblicas, as civitates e os reinos, imitando as formas do Estado moderno primitivo. Contra essa degenerescência estatolátrica, mesmo que revestida com as peles do cordeiro federativo, têm que estar contra os autênticos europeístas. Mas não confundamos a nuvem com Juno, não caiamos no engodo do Leviatã; não balbuciemos, sob o nome de nacionalismo, as teses dos irmãos inimigos imperialistas, desses que pretendem restaurar sistemas Metternich, embrulhando o cacete do czar entre o pietismo de falsas Santas Alianças e de falsas teologias de mercado.

Quem me dera poder vir a dizer ser a vez uma República Portuguesa, num qualquer dos anos que me restam. Tem de ser uma vez a vez de um das nações-Estados mais permanecentes da Europa. Quando tivermos a liberdade de poder por dizer sim à autêntica liberdade europeia, mesmo dizendo não a anteprojectos de gabinetes eurocráticos. Quando deixarmos de nos sentir uma periferia a caminho da integração e voltarmos a assumir-nos como o próprio centro, tão europeus como qualquer outra parte da Europa. Quem me dera poder dizer ser a vez duma Europa mais livre que, abandonando a tentação dos Estados Directores, proclame que a unidade não exclui a diversidade e, muito menos, o orgulho das seculares franquias nacionais.

Uma nova espécie de organização política de um grande espaço inter-estadual e inter-nacional. Uma realidade nova capaz de quebrar as estafadas classificações das federações e das confederações, ultrapassando o ius intercivitates procedente do modelo da Paz de Vestefália, esse cuius regio eius religio destruidor da unidade da respublica christiana, e do regime da hierarquia das potências consagrado na Conferência de Viena.


Porque, na democracia, o que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido. Porque na democracia não há reis-sóis, individuais ou gabinetais que possam dizer L'État c'est moi. Na democracia, L'État c'est tout le monde, L'État c'est nous.


A Europa somos nós. Os dinamarqueses, os portugueses, os irlandeses, os gregos e os muitos outros povos das Franças, das Alemanhas, das Espanhas, das Britânias, das Itálias e dos Benelux. A Europa não são apenas eles, os eurocratas, os parlamentocratas, e todos os cratas que temem as vozes irreverentes dos que não são moldáveis pelos unidimensionais partidos, sindicatos e patronatos, cada vez mais neocorporativamente enquistados no statu quo, esses estados que condicionam os Estados. Quem me der poder dizer que chegou a hora de uma Europa mais livre e mais unida, enraizada no direito à pátria e já descolonizada de algumas tentações imperiais, capaz de dizer a todas as nações sem Estado deste nosso tempo que a exigência dos grandes espaços não tem que ofender os princípios da autodeterminação nacional.

11.6.08

Quanto mais a crise demonstra que ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta


Aqui, debaixo de uma árvore, à beira da Universidade, a passarada vai animada, talvez para compensar esta depressiva primavera que, afinal, não houve. Especialmente neste dia, antes do jogo dos scolusos com os checos e antes do referendo irlandês sobre o "porreiro, pá". Especialmente, depois dos discursos do dia da pátria, da condecoração atribuída a Marques Mendes e das vaias que as correia sindicalistas do PCP lançaram contra Sócrates. Apetece apenas dizer que os analistas da antiga luta de classes e da envelhecida questão social parecem não compreender o essencial deste ensaio de maria da fonte dos camionistas.


Os que nos fizerem as regras contra o "lock out" e as greves selvagens não inventariaram a patuleia de uma baixa classe média de PMEs, onde o patrão é ele próprio trabalhador e pode ter, como empregados, os filhos e as noras. Como não assumiram que poderíamos viver num regime onde a maioria dos factores do poder já não é nacional, especialmente perante crises importadas onde a governança lusitana é obrigada a patentear a respectiva impotência. Até merece ser elogiada porque proclama boas intenções e até aumentou o abono de família, que é coisa do mesmo tempo do dia da raça.


A nossa governança também não consegue deixar de mandar os homens dos impostos e da ASAE contra o biodiesal produzido pela Junta de Freguesia da Ericeira, dado que não admite que o regulamentarismo, apesar de lícito, pode ser injusto, mesmo que venham depois dizer que estavam a contribuir para a eliminação da crise petrolífera e até fazem dias da sopa em pleno parlamento. Não conseguem é compreender o homem revoltado, a intifada camionista e a utilização de comboios policialmente vigiados para a manutenção do capitalismo dos supermercados, do TGV, do aeroporto de Alcochete e de outros mimos, tipo EDP renováveis.


Os camionistas apenas confirmaram que há causas que não são controladas pela Intersindical ou pela TVI. Há formas de oposição social que não têm válvulas de transmissão sistémica, agora que Paulo Portas não vai às feiras discutir as mamites e que Manuel Monteiro já não tem a assessoria de Manuel Moura Guedes para caldeiradas em traineiras. Greves, vaias e manifestações sistémicas apenas são as que recebem o carimbo do Doutor Carvalho da Silva e o aplauso do Doutor Louçã. Por outras palavras, as velhas respostas para a antiquada questão social são cada vez mais reaccionários nos seus amanhãs que já não cantam. Valha-nos o Senhor D. Manuel Martins que o presidente Cavaco e o primeiríssimo Sócrates não têm a ousadia de descer de helicóptero perante um piquete de paralisadores do trânsito, dialogando directamente com a patuleia do volante.


Penso na crise do lixo de Nápoles e numa das razões que levou Berlusconi ao poder, dando imagem de poder combater os mafiosos, mas quando vejo os anúncios da GALP instrumentalizando a selecção de Madail, apenas confirmo que o nosso Estadão tem largos pés de crude que não conseguem ser estabilizados pelo Sebastião Dom Mário Lino, pelo regresso keynesiano a um revisionismo de obras públicas, conforme a cartilha de Duarte Pacheco. Porque quanto mais a crise demonstra que ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta. Sócrates discursará se vencermos os checos e se o Tratado do Mar da Palha receber a unção irlandesa...

10.6.08

“Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas"


O vianense "lapsus calami" de ontem, deixado cair por Aníbal Cavaco Silva, implica que se fixem alguns conceitos fundamentais sobre a matéria e que nunca fizeram parte do "currículo" das escolas de economia. Não direi, imediatamente, que Cavaco virou salazarista, porque não foi o Estado Novo que inventou o dia da raça ou o dia de Camões, nem o conceito que, aliás, começou de forma não racista, quando, em 1913, Faustino Rodríguez-San Pedro, então Presidente da Unión Ibero-Americana escolheu o dia de Colombo, de 12 de Outubro, para uma celebração que unisse a Espanha e a Iberoamérica. Um dos principais defensores da matéria, o mexicano José Vasconcelos, defensor do conceito mestiço e sincrético de raça iberoamericana, dizia mesmo: Por mi raza hablará el espíritu. E que o nosso império colonial traduziu em calão, espetando monumentos de pedra em Bissau, Luanda ou Maputo, em nome da miscigenação...


Este Día de la Raza surgiu na Argentina en 1917, numa atitude anti-americana. Seguiu-se a Venezuela, em 1921 por decreto presidencial (Hugo Chávez, em 2002, de forma racista, passou a chamar-lhe Día de la resistencia indígena) e o Chile, em 1923 (desde 2000 é o Día del Descubrimiento de Dos Mundos). Em Espanha, tudo começou em 1918, como um governo liberal e só em 1958 é que Franco passou a chamar oficialmente à coisa Fiesta de la Hispanidad, apesar de já desde 1940 a preferir.


Também o dia de Portugal tem muito mais a ver com Teófilo Braga e o partido republicano, do que com Salazar e o "fascismo", mergulhando no movimento da sociedade civil que, dinamizado por Ramalho Ortigão, originou as comemorações do centenário de Camões de 1880, reavivadas pelo "Ultimatum" e desenvolvidas pelo nacionalismo místico da I República. Por isso, para sublinhar o paradoxo, aqui deixo foto de Eduardo Gageiro, com um timorense enrolado numa bandeira portuguesa, enterrada no dia da chegada das tropas invasoras indonésias ao suco de Liquiçá e lá escondida até à libertação de Timor.


Com efeito, raça vem do indo-europeu wrad, isto é, raiz, através do italiano razza. No plano biológico. uma raça é um conjunto homogéneo de seres humanos caracterizados por uma série de traços hereditários, com destaque para a cor da pele, mas também atendendo a outros elementos como os cabelos, a forma da cabeça, os traços faciais, etc.


Para alguns, é um conjunto de indivíduos dotados de características físicas comuns transmitidas hereditariamente, nada tendo a ver com a língua, a nacionalidade e a cultura. Conforme Henri Vallois (1944), as raças são agrupamentos naturais de homens que apresentam um conjunto de caracteres físicos hereditários comuns, quaisquer que sejam as suas línguas, costumes ou naconalidades.


A classificação dominante, de origem francesa, refere a tripartição entre brancos, amarelos e negros, mas, em 1934, com Von Eicksted, começam a distinguir-se os europeus, os negros, os mongóis, os australóides e os ameríndios. William C. Boyd (1950) distingue o grupo europeu primitivo (p. ex. Bascos), o grupo europeu (caucasóide), o grupo africano (negróide) o grupo ameríndio (mongolóide) e o grupo australóide.


Em 18 de Julho de 1950 a UNESCO emitiu uma declaração sobre a natureza das raças e das diferenças raciais, declarando finalmente a falta de fundamento científico dos cientificismos em que se basearam as ideologias racistas.

Porque tudo começou positivista com a tríade race, milieu, moment, de Taine, fundadora do naturalismo do último quartel do século XIX. Quando se aceita que há um conjunto de caracteres biológicos transmitidos hereditariamente, pelo que as tradições, as crenças, os hábitos mentais e as instituições modelam os indivíduos. Esta, a perspectiva desse novo positivismo que vai marcar todas as correntes sociologistas, tanto de esquerda como de direita.


E foi daqui que derivou o racismo, a concepção segundo a qual existem raças superiores e raças inferiores e que estas devem submeter-se àquelas, pelos que as superiores devem evitar mistura-se com as outras, para que se mantenham puras, implicando também uma melhoria das mesmas.


O racismo teórico contemporâneo começa com Arthur de Gobineau (1816‑1882), antigo chefe de gabinete de Tocqueville, quando este foi ministro dos negócios estrangeiros francês, que em Essai sur l'Inegalité des Races Humaines, publicado entre 1853 e 1855, defende que a raça branca e, dentro desta, a raça ariana devem ser as raças superiores e dominadoras.


Uma opinião partilhada por outros autores da época como Victor Courtet (1813‑1867) em La Science Politique Fondée sur la Science de l'Homme, ou l'Étude des races Humaines sous le Rapport Philosophique, Historique et Social, e Vacher de Lapouge.


Este último, professor em Montpellier, em L'Aryen et son Rôle Social, de 1899, chega mesmo a propôr a criação de uma nova ciência, a antropossociologia, baseada na luta darwiniana pela sobrevivência da espécie. Para ele, as raças dolicocéfalas dos louros devem ser senhoras e dominadoras das raças braquicéfalas, defendendo, para o efeito, a prática da selecção biológica.


Este ambiente vai ser também assumido por Houston Stewart Chamberlain (1855‑1929), um inglês naturalizado alemão, genro de Richard Wagner, que em As Raízes do Século XX, de 1899, vem considerar que os teutões (os celtas, os eslavos e os germanos) é que caldearam as raízes gregas, romana e judaica da civilização ocidental, chegando a defender a intervenção do Estado no processo de desenvolvimento biológico da raça dos senhores.


Este cientismo positivista, misturado com o romantismo político, desagua nas teses assumidas por Adolf Hitler em Mein Kampf constituindo o eixo fundamental do nacional-socialismo que sobe ao poder na Alemanha em 1933. Um caso especial de racismo é o processo do anti-semitismo. Racistas são também as teses do colonialismo e do apartheid. Não menos racistas são alguns dos movimentos políticos anticolonialistas desde a negritude às teses de Frantz Fanon. Por outras palavras, apesar do brilhante "curriculum" académico do meu colega Professor Doutor Francisco Louçã, o Bloco de Esquerda faz demagogia quase doentia, nestas malhas que os economistas tecem, com pouca história e quase nenhum humanismo...

9.6.08

De novo, D. Manuel Martins, o anti-Bloco Central


O antigo número dois do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e antigo Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, volta a assumir-se como voz tribunícia dos pobres e reconhece que o país está mal disposto e com fome. Os camionistas entram numa greve que também é "lock out" e impedem Mário Lino de acompanhar Sócrates na visita a Argélia. Marcelo Rebelo de Sousa critica os camionistas e aproxima-se do Bloco Central. A crise que vamos vivendo assume recortes inéditos, dado que, depois dos pescadores, os transportadores rodoviários, apenas replicam nesta praia ocidental, um movimento geral europeu. Por outras palavras, estamos a viver uma crise importada pela globalização e pela integração europeia, mas, em termos estratégicos, apenas se confirma que as nossas vulnerabilidades são maiores e que não as conseguimos transformar em potencialidades. O problema continua a estar em não sabermos, com alguma criatividade, fazer uma pega de cernelha a um touro de quem quisemos ser apenas bons alunos, com muitas traduções em calão tecnocrático. Continua a faltar política de sonho e muita imaginação, assente em criatividade. O Bloco Central já não clama o "porreiro, pá". Só Scolari nos compensa, com trabalho de equipa, agora que chegaram as greves selvagens dos patrões e empregados da camionagem, com transmissão em directo desses "crimes" que se esquecem das leis da manifestação, da convocação de greves e da liberdade de circulação, um pouco como no "buzinão" contra Cavaco, apoiado pelo PS, ou nas manifes europeístas dos pescadores e camionistas, em França e em Espanha.

6.6.08

Só pode, portanto, avaliar-se um regime como se avalia um homem, isto é, em pensamento.


Lá dizia o primitivo mestre da política: há que fazer coincidir cada regime com o tipo de homem. Porque o homem tirânico é feito à semelhança da polis tirânica, o democrático, da democracia e os restantes, do mesmo modo. Só pode, portanto, avaliar-se um regime como se avalia um homem, isto é, em pensamento. E só deve avaliá-lo quem, em pensamento, for capaz de penetrar no carácter de um homem e ver claro nele. Porque há três espécies de homens: o filósofo, o ambicioso, o interesseiro, movidos, respectivamente, pelo saber, pelo prazer das honrarias e pelo lucro. E dessa fricção é que surgiria a dinâmica dos regimes.


Logo, olhando em pensamento para dentro do nosso, aqui e agora, basta analisar alguns figurões que emergiram, a nível micro, desta maioria absoluta, especialmente os que, procurando imitar o macro, do "big brother", animam o absolutismo dos cogumelos micro-autoritários. Gosto particularmente dos que, provindos da extrema-esquerda, foram transformados em democratas por um rápido preenchimento da ficha do PS, em troca de um emprego, como gestores empresariais ou directores-gerais. Porque gosto de os ver, agora e aqui, criticar Manuel Alegre ou denegrir Manuela Ferreira Leite, só para conseguirem abichar mais um tachito.


Aliás, os ditos cujos, a nível do seu micro, são tão democratas e pluralistas que logo elevam, a principais aliados, estalinistas não reciclados e até velhas peças do mobiliário fascista, folclórico e cobarde, onde não faltam conciliábulos com ilustres directores de gabinetes da União Nacional e muitas manobras de neopidismo, nomeadamente pelo recurso à técnica da velha ficha da legião, para o assassinato de carácter do que resiste em não submissão às muitas ofertas de compra de poder, que á forma de corrupção vista de cima para baixo, nomeadamente para o alinhamento de votos do absolutismo, conforme foi praticada pelas repúblicas ceausescas dos "conducatores".


Tinha razão o velho Platão. O tipo de homem tirânico continua tirânico, mesmo quando se veste com a farpela da democracia, porque o hábito não faz o monge, mesmo que o mesmo invoque, de vez em quando, a coincidência seminarista que unia Estaline, o georgiano, a António de Oliveira, o beirão. Não é por alguém ser formal professor de determinado aluno que este é pelo primeiro ungido e o deve engraxar para sempre, mesmo quando é elevado a chefe... Logo, tenho de concluir que a democracia continua a ser maltratada, não tanto por este governo, mas pelos muitos falsos seguidores deste governo, os tais que levam duzentas mil pessoas para a rua, em desespero de protesto.


Os portugueses começam a estar fartos, não de Sócrates, mas dos agentes sucrateiros e sucateiros que ainda produzem depósitos de lixo, graças aos subsídios que são geridos por certos engenheiros sociais que se apropriaram da mesa do orçamento, aliados a Dona Maria da Cunha e à sua faceta pós-moderna da subsidiocracia prós amigalhaços, onde não faltam lautos banquetes de turismo e nomeações de favor que ofendem os mínimos do princípio da igualdade, desprezando totalmente a ética do Estado de Direito.


Por mim, estou farto e resta-me exercitar a não resignação através do desprezo, que é uma nova forma de exílio interno. Porque não apetece aconselhar ninguém a que se dobre à persiganga, nomeadamente contra os pequenos, mas dignos, funcionários que ainda têm a coragem da dignidade, e não subscrevem a declaração de ostracismo que foi lançada pelo grande chefe da cromice contra os dissidentes. Pinto da Costa só há um e dele muitos estão cansados.

5.6.08

Falta consciência, estratégia nacional e patriotismo científico, dominando o concentracionarismo dos interesses negocistas...


Lá foi mais uma aulinha, nesta vida de professor, onde os burocratas do controlo administrativo da nossa vidinha de funcionários do ministério gago, não nos contabilizam as longas horas diárias em que investigamos ,e as muitas outras de prestação de serviço à comunidade, sem avença nem senha de presença, mas com muita honra e certa liberdade académica, que é uma prima da liberdade de expressão e uma filha da criatividade. Ontem foi na Academia Militar, hoje na "Visão", na "Sábado", no "Meia Hora" e na "Rádio Renascença", amanhã na Autoridade Nacional de Segurança e na Universidade Lusíada, só para que o secretário do secretário do secretário vírgula tantos do regulamento inspectivo entenda o que é universidade voltada para a coisa pública e sem necessidade da rolha do temor reverencial, do oportunismo carreirístico e da cobardia cinzentona dos engraxadores do chefe.


Recordo que ontem, no debate, lá repeti o velho clamor de Ezequiel de Campos, em torno da urgência da organização do trabalho nacional. Este autor que não deve ser citado pelos pretensos engenheiros sociais que nos reformam em desorganização e andam em altas cromices pelos inas, bem devia ser recordado. Aliás, também ontem, perante uma plateia de militares, lá recordei que um dos nossos principais problemas estava no concentracionarismo que marca o interior da "black box" da nossa governança. Porque se os "outputs" passam pelo ambiente e se transformam "inputs" quando penetram no interior da máquina administrativa espatifam-se com pouco "feedback", face à ausência de uma estratégia nacional sustentado num estado-maior adequado que permita a retroacção da informação. Aquilo que os velhos teóricos do sistemismo qualificavam como "conscience" e que antigamente nos era dado pelo patriotismo científico das universidades, das igrejas, da maçonaria, dos grandes corpos de Estado e das forças armadas. Os tradicionais centros de memória e de valores que davam autonomia e identidade à comunidade nacional.


Quando chegaram os "jobs for the boys" e a alternância dos "boys for the jobs", começou o trabalho de sapa de destruição destas bases de resistência, em nome de uma pseudo-modernização de revolucionários frustrados com muitas traduções em calão. Os tais que se vão sucedendo em confrontos dilacerantes entre o partido dos funcionários e o partido dos fidalgos, permitindo o triunfo dos predadores da colonização exógena, desde os tradicionais interesses dos velhos imperialismos continentais europeus aos multinacionais difusos da nova república imperial, num país onde as pretensas elites já chegaram à conclusão que o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido. Outros lá andam metendo cunhas para entrada como gestores públicos ou consultores das multinacionais do "outsourcing" com quem contratam fornecimentos.


Aplaudo, pois, a corajosa intervenção do social-democrata Alfredo Barroso, ontem na SIC-N, quando denunciava os enredos dos tradicionais negócios do Bloco Central, bem como a usurpação dos partidos pelos advogados de negócios, concluindo que, por mais denúncias, acabará sempre por triunfar essa consequência doneosituacionsimo, chamada política das águas de bacalhau. Coisa semelhante à luminosa decisão da nova autoridade dita da concorrência, recentemente nomeada pelo ministro Pinho, assim se comprovando como as entidades reguladoras não podem ser efectivamente independentes, porque não assentam no clássico princípio da burocracia racional-normativa que era a carreira do "civil service". Por mim, que não acredito em bruxas, apenas devo concluir que "las hay, las hay". Até posso repetir Galileu, confessando perante a inquisição que a terra não gira à volta do sol, mas que se move e move. Porque o mundo gira e os interesses se movimentam, sobretudo quando somos marcados pelo crepúsculo decadentista das crises políticas e das anunciadas mudanças dos futuros feitores dos ricos...