a Sobre o tempo que passa: Março 2007

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

31.3.07

A Europa que começa a não estar connosco...

Leio que se realizou em Lisboa a IV Convenção da EUA (European Higher Education Association). Dizem os jornais: 700 participantes estrangeiros, de todas as universidades e institutos superiores da Europa, a que acrescem 100 participantes portugueses, discutiram a Agenda de Lisboa e o Ensino Superior Europeu depois de 2010.

Reparo que a mensagem dos académicos para os políticos foi clara:
a competência para fazer qualquer reforma no Ensino Superior só pertence aos quadros superiores universitários. Até porque as directrizes traçadas pelo Processo de Bolonha não estão a ser bem aceites pelos académicos que se insurgem contra a ideia de um modelo único de ensino. As conclusões não deixam dúvidas: a reforma só avança se cada país puder ter em conta as suas especificidades e a própria realidade de cada tecido social. O que significa que até mesmo os níveis de competências exigidos aos alunos, bem como as suas qualificações, embora reconhecidos por todos, devem ser adaptados e desenhados de acordo com a estrutura e situação social de cada país.

«Temos que trabalhar em conjunto, mas também tendo em conta que não somos iguais, pois a diversidade que caracteriza cada um dos países onde leccionamos tem que ser preservada», diz Patricia Pol, vice-presidente do departamento de desenvolvimento internacional da Universidade de Paris...etc.

Vimos, ouvimos e lemos, mas os nossos responsáveis, políticos e académicos, continuam a ignorar, têm de ser arrastados pelo mainstream. Preferem cantar a loa da Europa connosco, apenas conjugando o verbo no pretérito imperfeito. Entretanto, a cadeia do rolo unidimensionalizador vai-se alargando em chouriçadas decretinas, transformando as secções universitárias com menos poder de pressão em pequenos gabinetes de planeamento de "curricula" que vão tirando da "Internet", com imenso "copy and paste", enquanto jovens assistentes fazem noitadas, com tabelas de equivalência lançadas em papel quadriculado, longe da vida, longe do sonho e, sobretudo, longe da sabedoria.

Pobres os que, depois da destruição, ficam à espera do que há-de vir, porque o que parecia ter que ser pode não vir mesmo. Entretanto, à bela maneira das passagens administrativas do PREC, alguns líderes institucionais, em processo eleitoral, prometem facilidades, onde os velhos quartos anos da licenciatura, com uma simples tese, podem transformar-se em gloriosos mestrados e ser rampa de lançamento para mais futuríveis dissertações de doutoramento.

Vale-nos que os romances de cordel contam as recentes aventuras das privadas e acirram este nosso sonhar é fácil do enquanto o pau europeu vai e vem folgarem os costados do chico-esperto, sentado na encruzilhada deste potencial regime de passagens administrativas, à procura do canudo e da melhoria das estatísticas, como se, do regabofe, alguém pudesse lucrar.

Julgo que a autonomia das universidades assenta na autonomia dos professores e na consequente meritocracia, coisa que deveria ser sinónimo de democracia, de escola de cidadania e de semente de homens livres. Não esperemos que a terapêutica de um futuro ministro das universidades seja capaz substituir-se à necessária profiláctica.

Por mim, serei consequente e não irei por aí. Não subscreverei esta ameaça de degradação académica, pedagógica e científica que vai germinando. Quando uma democracia passa a ser o reino da quantidade, não tardará que os inimigos e críticos da democracia a assaltem por dentro... os sinais que vislumbro no meu quintal são óbvios demais. O ensino superior continua à procura de bom senso!


Lei, ordem e corrupção no Brasil Colônia



O jornalista-historiador, Eduardo Bueno, vestindo-se de uma linguagem weberianamente dura, descreve, de forma realista, as grandezas e as misérias lusitanas, mas, por isso mesmo, manifesta um intenso amor às origens da sua própria pátria. E lá podemos viajar pelo tempo do senhor D. João III, Tomé de Sousa e Manuel da Nóbrega, entre letrados e guerrilheiros de Jesus, com seculares, burocratas e desterrados que saíam do Tejo à procura de um lugar onde que lhes desse vida, já que, no velho reino, eram mais os pés do que as botas.

Reparei que, se hoje cada português gasta, por mês, 430 euros com as alturas da governança, já então, no sistema de governo por conselho, o de D. Manuel tinha quinhentos membros honorários, enquanto o do filho foi reduzido para 66, coisa que se poderia repetir agora com o número de socrassessores que quase bate nos 300, mantendo o mesmo ritmo dos de Durão, Portas e Santana, com alguns a ganhar mais do que o novo rei. Já então a história de Portugal era a história do défice, do desperdício e da exagerada carga fiscal.

Bueno mostra-nos os extremos, entre o lusitano Caramaru, um desses lançados que se transformou numa espécie de rei dos índios, e o jesuíta Manuel da Nóbrega, o fundador de São Paulo, o gago das mortificações em público, ditas exercícios espirituais. E assim continuamos a viver entre o sórdido da corrupção e o dramático da procura do mais além, enquanto alguns vícios privados, de vez em quando, se inserem no bem comum, mesmo quando misturam feudalismo e estadualismo, economia privada e serviço de el-rei, num acumular de contradições que acabou por constituir esse reprodução de cidades e do próprio reino, a que hoje chamamos Brasil.

A descrição de Bueno é atraente, fazendo da história uma espécie de guião cinematograficamente colorido e tornando-se numa espécie de livro de aventuras empolgante, mesmo quando exagera no traço e caricaturiza o lado da degenerescência de uma sociedade de favoritismos, tráfico de influências, exagero de funcionários e corrupção. Porque faz, muito lusiadamente, a denúncia caseira dos nossos próprios vícios.

Aliás, a crítica acerba pode ser uma forma humanista de amor, nesta viagem por umas profundas origens medievais e renascentistas, quando ainda não tinham chegado os ventos do soberanismo, do estadualismo e do próprio negocismo capitalista e se viviam as explosões da nossa mistura de heterodoxias, entre cristãos novos, fidalgos falidos, militares andantes, navegadores, arquitectos, físicos e artesãos, todos muito papeleiros e humanamente imperfeitos.

Mas foi nesse caos, refugiados nas paliçadas, entre a voragem esclavagista e a antropofagia, que começámos a tal procura do paraíso que levou todos a desmatar uma terra quase virgem, construindo cidades e vilas, dotando-as de vereações pluralistas e erigindo um novo reino, sempre segundo o regimento, sempre violando o regimento, para também se vararem as linhas das Tordesilhas.

Todos os povos são também as respectivas origens, esse manifesto destino que a nossa liberdade de sonhar vai construindo e desconstruindo, dia a dia vencendo a necessidade, o tal desafio das circunstâncias que vamos moldando, em nome da perfeição de um mundo melhor, nesse transcendente situado a que chamamos vida, entre a aventura e o pragmatismo.

Só depois de ler tudo, de um jacto, é que reparei fazer parte da bibliografia, como meu O Estado e as Instituições, de 1998, incluído na História de Portugal de A. H. de Oliveira Marques, no volume coordenado por João Alves Dias (século XVI), com um comentário honroso.

Aprender a viver.



Mudar de sítio pode ser mudar de horizonte e encontrar, no acaso das estantes de uma livraria, novas janelas escritas que nos baralhem os dados e nos voltem a dar sonho. Primeiro, foi A Coroa, a Cruz e a Espada, de Eduardo Bueno, sobre lei, ordem e corrupção no Brasil Colônia 1548-1558, de Setembro d 2006. Segundo, foi a tradução de Apprendre à Vivre. Traité de philosophie à l'usage des jeunes générations, de Luc Ferry, de Dezembro de 2006.

Sem querer fazer recensões a duas obras que devorei, começo por este último, nascido no mesmo ano que eu, reparando que a boa novidade que ele traz não é a vanguarda das modas que passam de moda, mas a eterna corrente dos estóicos e o humanismo liberdadeiro de Rousseau e Kant, reassumido por Husserl, nessa procura liberalmente individual do transcendente situado que sempre rejeitou os materialismos, do positivista ao marxista, bem como activismos nietzschianos, de cunho fascista, ou fidelíssimas interpretações, com nihil obstat.



Folgo comungar com o filósofo que ficou farto de ser político, nesse ambiente de pós-Maio 68 que não precisa de revisionismo para se manter na linha do humanismo de sempre. Porque o homem é o único animal que sabe que vai morrer, porque a democracia é mesmo o único regime que favorece o aparecimento de elites de homens livres, porque importa descobrir, mais do que conceitos, importa o exercício da sabedoria, porque há que compreender antes e criticar, superando as algemas da nostalgia passadista e o futurismo sem presente.

Embora a palavra saudade nunca apareça, também eu considero que a razão inteira não pode naufragar na fé e ainda subscrevo que a inteligência é superior à confiança, mas com humildade, sem a soberba do vanguardista e reconhecendo os sinais dos judeus e a sophia dos gregos, rejeitando que a filosofia seja serva da religião e optando por pensar por mim mesmo e não apenas por meio do outro, onde há mais disciplina do que ciência e mais pirâmides conceituais do que criatividade.

De Bueno, falarei no próximo postal.

Conferência sobre Marcello Caetano na íntegra

Já tenho disponível o texto completo dos tópicos da conferência que fiz, no passado dia 28, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, sobre Marcello Caetano. Para os que têm acompanhado a minha labuta sobre a diária actualização da biografia da classe política portuguesa, desde 1820, aconselho que dêem um salto à mesma.

30.3.07

Entre vanguardistas e derrotados políticos, sejamos bandeirantes e regeneradores

Depois da missão cumprida, foi continuar a peregrinação por esta antiga capital de Portugal, ainda saudoso do esplendor de livros e de pedra talhada do Real Gabinete, onde recordo os sinais e testemunhos deixados por Ramalho Ortigão, Joaquim Nabuco, Gago Coutinho e António José de Almeida, nesta cadeia de gerações que unem os nossos sucessivos sonhos e paraíso. Quase comparo esta visita à viagem que, outora, fiz à sinagoga portuguesa de Amsterdão. Porque são quase sempre os chamados heterodoxos que resistem na profunda tradição da lusitana antiga liberdade que sempre foi de antes quebrar do que torcer.

E, no silêncio do Real Gabinete, lá conversei com meus avoengos mestres, de Herculano a Camilo, de Carlos Malheiro Dias a Jaime Cortesão, nessa constante procura de um Portugal mais do que Portugal, esse sonho que vai além da pátria física da terra dos mortos e se pode sempre elevar em navegação e bandeira, fazendo dos sertões do tempo o espaço do próprio mar-oceano. Especialmente quando a terra-mãe das origens se torna patroa e madrasta, presa nas teias dos donos do poder e de alguns dos restos dos senhores da guerra, com muitos herdeiros de inquisidores, das juntas de providência literária e das reais e republicanas mesas censórias, amarrados às vistas curtas dos conjunturais politicamente correctos, de que são sorridentes escravos, incluindo os ministerais.

No templo do Real Gabinete se guardam sinais de sonhos e contemplações, prenhes de tradição e de futuro, especialmente daquele quinto império do poder dos sem poder, onde a pátria da língua portuguesa não é senão mera super-nação futura. Aliás, em plena turbulência doméstica, sempre houve cientistas que se puseram a caminho do Sul, como Gago Coutinho, com Os Lusíadas que ofereceu ao Real Gabinete, numa mão, e o sextante, na outra.

Sempre houve cultores do verbo e da autenticidade, como António José de Almeida que aqui veio em 1922, agradecer ao Brasil o ter-se tornado independente. Sempre houve António Ferro, clamando pelos Estados Unidos da Saudade, João de Barros ou Nuno Simões. Parafraseando Ramalho, assinale-se que mesmo que haja um cataclismo nos estreitos limites da Europa, não precisamos de jangadas de pedra, porque já nos reproduzimos aqui, neste Portugal maior, neste Portugal à solta, dando novos mundos ao mundo, quando nos diluímos na diferença dos outros, que não considerámos inferno.

Paupérrimas questiúnculas domésticas, como as do colégio eleitoral da RTP que elegeu, a título póstumo, como os melhores portugueses de sempre, dois políticos profissionais que, nunca souberam, pelo saber de experiência feito, que, muito lusotropicalmente, o pecado não mora do lado de baixo do Equador. Esses votantes, dignos representantes de certo grupo dos portugueses que restam na Europa, têm quase todos medos do enjoo da viagem, preferindo o império dos merceeiros ou os campos de concentração em que se enregelou a utopia do D. Sebastião científico.

Uma pequena nota para o jornal "Público" de hoje que relata, sem o picante da escandaleira, a sessão realizada anteontem no RGPL, mas onde assume o paradoxo de atribuir uma frase da minha autoria a quem nunca a poderia proferir, isto é, a um dos ministros derrubados pelos capitães de Abril. Fui eu, que há muito deixei de ser secretário da AICP, que disse: os regimes, em Portugal, caem de podre porque, muitas vezes, ultrapassam todos os prazos de validade que lhe garantiam autenticidade. Só que a apatia e o indiferentismo gerados pelas manobras da elite no poder, lançam o colectivo numa inércia cobarde, inversamente proporcional ao activismo dos oposicionistas, cujo vanguardismo, marginal face à opinião pública, resulta, precisamente, da frustração de não se sentirem, entre ela, como peixe na água.

Repito-o num contexto diacrónico: porque temos tendência para fazer durar e durar cinzentismos decadentistas, desde o crepúsculo da monarquia liberal, desde o Ultimatum ao 5 de Outubro (20 anos), à nova república velha pós-sidonista (nove anos, desde o magnicídio do Rossio à subida de Salazar à ditadura das finanças), passando pelo velho Estado Novo (16 anos, desde as eleições de Delgado em 1958 ao contra-28 de Maio de 1974).

Porque quando as crises se difundem nas consciências individuais daquelas maiorias sociológicas que preferem as delícias da servidão voluntária ao inconformismo da necessária revolta dos escravos, quase sempre tropeçamos com as degenerescências da ditadura da incompetência e da compra do poder, enquanto os sistemas entram em pilotagem automática e as elites vegetam num deserto de ideias, com pensadores feitos intelectuários, procurando os restos que caem da mesa do orçamento ou dos subsídios dos mecenas.

Consolida-se assim um situacionismo bonzo, típico dos blocos centrais de interesses politiqueiros e negocistas, onde a ilusão de alternância fomenta o rotativismo das duas faces da mesma moeda, a que hoje damos o nome de PS e PSD. Acontece até que os controladores sistémicos, mais ou menos banco-burocráticos, liquidam as verdadeiras alternativas que podiam dar-nos o urgente golpe de Estado sem efusão de sangue, como Popper chamou às mudanças pela via eleitoral, ao promoverem canhotos e endireitas, para além de fomentarem o medrar da borbulhagem dos extremistas da esquerda e dos extremistas da direita, apostados em morderem nas canelas uns dos outros. Por mim, gostaria que este regime não caísse apodrecido. Não há por aí um subversivo Herculano que comece a pensar a regeneração mesmo que seja com Saldanha, Fontes e Rodrigo? Eu, que me assumo como histórico, estou disposto a filiar-me no partido de Anselmo Braamcamp e a não o abandonar mesmo depois do regicídio.

29.3.07

Um pedaço do Portugal à solta à procura do abraço armilar



Foi com emoção que, ontem, tive a honra de conferenciar num dos templos da pátria e da liberdade, no Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, fundado há 170 anos por exilados liberais portugueses, agora instalado num edifício neomanuelino, inaugurado em 1887, onde se guarda uma primeira edição d "Os Lusíadas" de 1572, ou o manuscrito do "Amor de Perdição", que o presidente António Gomes da Costa me permitiu consultar. Porque esta instituição, de matriz azul e branca, isto é, liberal e liberdadeira, ainda vive como pensa, como um pedaço de Portugal à solta, tentando cumprir a ideia maior do abraço armilar, fiel à matriz dos homens livres que a fundaram e sucessivamente recriaram (aqui deixo algumas imagens do espaço e das pinturas que nela se guardam, de Camilo a um quadro de Malhoa sobre a descoberta do Brasil). E não foi por acaso que esta instituição teve a coragem de recordar alguém que, no ano de 1980, teve o seu corpo em câmara ardente nesse local.

Tentei identificar Marcello Caetano com um certo tempo de vésperas daquele que ainda hoje nos mobiliza, e que talvez faça aquecer em valor mais altoespera, esfera e esperança o necessário abraço armilar. Tentei falar de um certo tempo português, para o qual não tem sido adequado o verso épico, mas sobre o qual também já chegou a hora de pormos fim às inverdades e aos insultos. Porque Marcello era racional-normativo em demasia para poder erguer uma nova legitimidade carismática. Maquiavélico de menos para poder instrumentalizar a legitimidade tradicional do patrimonialismo, isto é, dos donos do poder e dos senhores da guerra



E sempre foi paradoxalmente português: o jovem monárquico neo-integralista que se assumiu como republicano; o adolescente para-fascista da revista Ordem Nova constitucionalista que teve de manter aparelhos autoritários de repressão; o de 1926, que nos quis transformar em Estado de Legalidade; o corporativista que lançou a reforma capitalista; o professor de direito que tem de ser chefe de generais em guerra.

E foi no Real Gabinete que recordei o Brasil como permanente terra de exílios. Dos liberais expulsos pelo miguelismo. Dos miguelistas exilados depois da derrota (e lá consultei na Biblioteca um exemplar da tradução que José da Gama e Castro fez no Rio de Janeiro a "The Federalist", em 1840, mas sem indicação do nome do autor). Dos monárquicos, com o 5 de Outubro (foi em 1920 que Sérgio aqui editou o seu primeiro volume dos Ensaios, tal como Carlos Malheiro Dias aqui foi presidente do RGPL). Dos deserdados do 28 de Maio, como Fidelino de Figueiredo, ou das vagas sucessivas de expulsos pelo salazarismo, como Jaime Cortesão, Sarmento Pimentel, Agostinho da Silva, Henrique Galvão ou Humberto Delgado e tantos outros, durante tantas décadas.

Basta detectar os sinais dessa revolta em discretos símbolos que se conservam nos átrios e tectos do Real Gabinete, homenagenado a passagem do caos à ordem e apontando os nossos Estados Unidos da Saudade, como simples semente da República Universal, onde fomos e poderemos voltar a ser bandeirantes do tal Império do Espírito Santo de que falava mestre Agostinho da Silva e que muitos continuam a não querer compreender, porque rejeitam os sistemas morais, as alegorias e os símbolos que nos dão rota humanista de libertação.





Marcello, entre a renovação e a continuidade, hesitou nas estratégias porque duvidava dos fins, desde a instauração de uma efectiva democracia à própria independência das possessões africanas. Sabia, como ninguém, analisar as questões, fazer diagnósticos, criticar. Ficou sempre titubeante quando tentou usar o bisturi da terapêutica.

Se foi sincero quando procurou liberalizar o regime, já não foi capaz de admitir que o feitiço liberalizante se poderia voltar contra o próprio feiticeiro e, quando a ala liberal propôs, para a reforma, caminhos diversos dos programados pelo Presidente do Conselho, deu-se a inevitável ruptura, com Marcello a comprimir-se entre yesmen e propagandistas menores, ao mesmo tempo que os chamados ultras, ameaçando conspirar através de Américo Tomás, transformaram o decadente cônsul num homem só, cada vez mais enredado num cepticismo pessimista. Assim se geraram as circunstâncias golpistas de 1974, com o feitiço autonómico a voltar-se contra o feiticeiro e os militares ultras a não repetirem o modelo de Santos Costa contra Botelho Moniz.



Marcello se, num assomo salazarista, ainda conseguiu deter autoritariamente o golpe dos militares spinolistas de 16 de Março de 1974, mostrou-se incapaz de uma medida preventiva que atalhasse os desenvolvimentos subversivos do Movimento dos Capitães. Podia ter forças militares e para-militares suficientes para conservar o poder, mas não soube ser resistente. E talvez tenha sido traído pelos que eram ou pareceram fiéis. Preferiu ser avestruz no indefensável quartel do Carmo, lavar as mãos como Pilatos e chamar pateticamente Spínola para o poder não cair na rua.

28.3.07

O que é comum não pode ser de nenhum

Vistas à distância de um oceano inteiro, as nossas notícias da política doméstica, quase reduzidas a guerrazinhas de homenzinhos e mulherzinhas, são ridicularmente minúsculas. Que influência pode ter no diálogo Norte/Sul a anunciada demissão de Maria José Nogueira Pinto do PP e da autarquia alfacinha, ou a candidatura de Luís Filipe Menezes à liderança do PSD? Ou que influências tem no combate aos processos de combate à guerrilha urbana das favelas a detenção dos donos do poder na Universidade Independente?

Essas questões de cozinha doméstica estão, aliás, em consonância com a grande conferência que Jaime Gama promoveu sobre a corrupção que quase se reduziu às fotografias tiradas a Morgado, Pinto Monteiro e Garzón em plenos Passos Perdidos, o nosso lusitano e maçónico nome para qulificarmos um "átrio" parlamentar que, em anglo-americano se diz "lobby". Porque os principais responsáveis pelo vazio legislativo sobre a matéria apenas fizeram uma provincianista lavagem de imagem, para esquecermos que quase todos eles assentaram em longos anos de balbúrdia quanto ao financiamento partidário, apesar de terem sido lestos quanto à tipificação legal dos crimes de corrupção. Em vez de fabricararem uma imagem, os nossos deputados partidocratas deveriam dar o exemplo.

A questão política em Portugal continua a ser a de confundirmos a polis com a oikos, a respublica com a domus, não assumindo que o político foi inventado para deixarmos de ter um dono, um dominus, ou um oikos despote. O despotismo paternalista de Salazar tem esta origem. O actual processo de compra privada do poder, a chamada corrupção, assenta na mesma estaca. Tal como o clientelismo, o favoritismo, a cunha e o nepotismo derivam da devorista privatização do que deveria ser público, onde o que é comum não pode ser de nenhum, conforme o lema das nossas aldeias comunitárias.

Quando lemos que a história da Universidade Independente (UnI) confunde-se com a amizade de três famílias: Carvalho, Verde e Arouca. Lima de Carvalho levou a mulher para a gestão da UnI, Rui Verde o irmão e Luiz Arouca dois filhos, quase poderíamos aplicar a história à política partidocrática, onde genealogias de filhos, sobrinhos, primos e dependentes de inúmeros filhos de algo se perpetuam em deputados, ministros, secretários de estado, chefes de gabinete, adjuntos e assessores, bem como em toda a fileira de nomeados. Basta fazermos científicas listas de jobs for the boys, em vez de colóquios internacionais, para declararmos a dimensão da nossa pequenez.

27.3.07

Para além da venalidade, da boçalidade e da maldade

Em plena tarde do Rio, em volta dos alfarrabistas, onde costumo comprar raridades portuguesas a preço do real, recebo telefonema da RCP, procurando saber se eu ia mesmo homenagear Caetano. Disse que a verdade não era pecado e que a cerimónia de amanhã se desenrolaria numa venerando instituição que, por já ter passado por quatro regimes portugueses, ainda podia ser Real Gabinete Português de Leitura, não se confundindo com o concurso da RTP, nem com o regresso da salazarquia. Aliás, sobre Marcello, o que aqui venho dizer já o disse num artigo publicado após a sua morte, no boletim da Faculdade de Direito de Lisboa e repeti o testemunho numa cerimónia que este instituição promoveu no centenário do respectivo nascimento. E amanhã irei insistir nas teses constantes do meu publicado "Tradição e Revolução".

Porque sempre me fascinaram aqueles actores políticos que, apesar das extraordinárias qualidades que marcam os homens de génio, acabaram vencidos pela vida, quando as ciclópicas tarefas das circunstâncias os esmagam em derrotas políticas. E mais desafiantes são quando, sendo homens de pensamento, treinados pela teoria ou pelo estudo da história, acabam por não poder responder aos desafios daquilo que considerararam a respectiva missão.

Em contraste, há outros que não chegaram antes ou depois do tempo e, apesar de marcados pela venalidade, pela boçalidade e pela maldade, conseguiram os vícios privados em virtudes públicas e ainda hoje enchem as ruas e praças do país com placas inauguratórias, mesmo quando lançam foguetes e recebem vivório pelos investimentos feitos pelos antecessores que nem direito a pé de página merecem, nas crónicas dos homens de sucesso.

Marcello, um pouco como D. João VI, faz parte da lista dos derrotados políticos, assinando a perda do último império africano, tal como o pai do Imperador do Brasil viu amputada a parcela principal do seu sonhado Reino Unido. Aliás, o último presidente do conselho do regime derrubado em 1974, que só exerceu o consulado nos últimos cinco anos e meio dos 48 anos de interrupção autoritária que nos marcaram, ficará nos anais mais como criador do estilo da sua faculdade, onde, se sempre ousou defender a respectiva herança institucional, não teve, depois, coragem, ou condições, para restaurar a lusitana antiga liberdade.

Mas não podemos esquecer que esse ideólogo do Estado Novo teve a honra de repor o seu inimigo político, Afonso Costa, no lugar de fundador da escola, tal como estudou e homenageou a personalidade de Mouzinho da Silveira. Ou como moveu diligências para que se acolhesse em Lisboa o maior jurista do século XX, Hans Kelsen, quando este fugia às perseguições hitlerianas.

Infelizmente, não admitiu a institucionalização de partidos e não ousou avançar numa paz dos bravos com os movimentos de libertação africana, mas muitas micro-histórias locais consignar-lhe-ão sinais de neofontismo e muitas páginas de guerra terão, desse tempo, heróis e até alguns mártires. Ele apenas é o espelho de um certo tempo português.

Apesar de tudo, poucos lhe poderão apontar a categoria de traidor, da mesma forma como os anais diplomáticos não lhe dedicarão páginas de desonrosa negociação, ou de portas artificialmente fechadas. Aí está o acordo de associação com a CEE, nesse hibridismo lusitano que sempre jogou em todos os tabuleiros, preparando alternativas futuras.

Não foi Pompidou, porque Salazar também não tinha sido Charles de Gaule e a guerra impedia-o de fazer o jogo de Adolfo Suárez. Já comendo o pão amargo do exílio esperado, pode ter-se zangado e polemizado, principal através de emissários e mensageiros, mas, nesta terra brasil, deixou um legado de pensamento universitário que constituirá um elemento de peregrinação obrigatória para quem mantenha uma certa perspectiva universal de Portugal.

Mas não vale a pena corrermos à cata de minúsculos sinais reformistas para o homenagearmos. Basta pensarmos no governo que poderia ter constituído no começo da década de setenta, atendendo aos colaboradores que mobilizou, em certa altura, e aos colaboradores que deveria remobilizar. O posterior sistema político ficaria sem cabeças e até a banca e a vida empresarial recentes, lá teriam deixado semente. Aqui fica a provocação:

M. Presidência: Francisco Sá Carneiro

M. Finanças: Manuel Jacinto Nunes

M. Estrangeiros: Diogo Freitas do Amaral

M. Interior: Adriano Moreira

M. Justiça: Afonso Queiró

M. Defesa: Francisco da Costa Gomes

M. Ultramar: Veiga Simão

M. Ilhas: Mota Amaral

M. Educação: António Alçada Baptista

M. Assuntos Sociais: M. Lurdes Pintasilgo

M. Coordenação Económica: João Salgueiro

M. Indústria: Rogério Martins

M. Comércio: Xavier Pintado

M. Agricultura: Mota Campos

M. Saúde: Baltazar Rebelo de Sousa

M. Comunicação Social: Francisco Pinto Balsemão

Navegar é preciso, viver habitualmente já não é preciso

Com mais quatro horas de fuso, neste começo da manhã na Guanabara, depois de dar a última volta ao texto da minha conferência de amanhã, vou ceder ao impulso lírico que a travessia do oceano moreno me provoca, neste voltar à procura do paraíso, nestes sucessivos sonhos por cumpriri que me dão a espera, a esperança e a esfera do abraço armilar. Assim decidi comemorar o cinquentenário do Tratado de Roma, protestando silenciosamente com a retórica habitual dos discursos de justificação do poder, especialmente quando elas atingem as raias do propagandismo exacerbado. Felizmente que ainda não consideram crime de traição à pátria o não sufragarmos o programa de criação de uma constituição europeia, ou não elogiarmos gongoricamente o nosso comissário em Bruxelas.

Atravessando a zona da turbulência, continuo a peregrinar por estes Estados Unidos da Saudade, onde bem gostaria de restaurar o Reino Unido. Porque a curiosidade do vale mais experimentá-lo do que julgá-lo me leva à constante investigação no terreno e no laboratório da história, tal como a angústia me provoca a procura de teorias, neste quase beneditino diarismo que me obriga a pensar para os outros, neste todos os dias me escrever e rescrever, também através deste blogue.

Nesta terra onde Lula se pinta de Getúlio Vargas, comparo a diferença que temos, quando a RTP, para comemorar outros cinquenta anos, permitiu que Sua Excelência, o ex-Presidente do Conselho, nos voltasse a zurzir em preto e branco. Porque, até domingo, tudo isso era apenas anormal por ter sido decretado como tal pela literatura de justificação do poder estabelecido.

Eu, pelo menos, fiquei feliz por Salazar entrar na moda que passa de moda e ser novo apenas porque o tínhamos esquecido. Quando o nosso politicamente correcto o passa a elogiar, sinto que tenho mais legitimidade para o zurzir, como desabrido opositor até do próprio post-mortem.

Mas nada estranho desse quebrar de tabu, quanto ao reconhecimento de um estilo do homem político, dado que o actual momento psicológico da pátria, ao colocar no pódio tal personalidade, tem muitas coincidências com a vaga de fundo que elegeu o actual locatário de Belém, assim elevando a normalidade o profundo desejo de salazarismo democrático que nos enreda.

E muitas culpas tem certa historiografia oficiosa dita antifascista, que, até agora, apenas eleogiava do regime defunto certos ministros que eram tios ou patrocinadores académicos dos biógrafos dominantes.

É por isso que peregrino em sonho por esta terra feita por muitos portugueses à solta, livres dessa casta capitaleira que continua a controlar o estado a que chegámos. Navegar é preciso, viver habitualmente já não é preciso.

26.3.07

Preconceitos de esquerda e fantasmas de direita, unidos, não foram vencidos

Mesmo à berinha do embarque para o Rio, noto que, nas eleições realizadas ontem, a lista de Oliveira Salazar obteve 41%, contra 19% de Cunhal, assim obtendo a quase maioria absoluta para se instalar no hospital Júlio de Matos e aí governar Portugal, numa altura em que a Europa se transforma numa facção, balizada pelos convites recebidos de Belém, onde não entram soaristas nem santanistas. Por isso é que vou, mais uma vez, pelo Atlântico a caminho do Sul, à espera de reencontrar portugueses à solta, livre de preconceitos de esquerda e de fantasmas de direita, neste "spoil system", onde o poder, sem autoridade, continua a ser considerado uma coisa que se conquista e que se mantém. Noto que os jornais estão extremamente preocupados com a circunstância de listas ditas da extrema-direita poderem participar nas eleições universitárias. Julgo que deveriam recordar que também Salazar não deixava que listas comunistas, republicanas e monárquicas participassem na procissão das respectivas eleições. Por outras palavras, cada um tem a sua liberdade condicionada e o seu conceito específico de interesse nacional. Logo, não posso discursar sobre a Europa deles.

24.3.07

Redemoinhos e "mainstream"

Quando, depois de um movimento de rotação em espiral, de um sorvedouro, ou de uma voragem, dita remoinho, ou redemoinho, surge uma corrente que devora as correntes secundárias, aí temos, na hidrografia da opinião pública, aquilo a que se chama mainstream, equivalente ao politicamente correcto. E ai dos vencidos, ai dos que querem ser do contra, do contra-corrente.

Acontece que as bacias hidrográficas tanto podem ser no universo da blogosfera, dos corredores de um partido, dos jornais de referência ou dos semanários de fim de semana. E mais redemoinho há, se tudo se conjugar num título que o "Expresso" reproduza ou que um telejornal propague, chame-se a coisa Ota, Opa, licenciatura de Sócrates ou regresso de Paulo Portas. Nem a vontade de contra os bretões marchar, em nome dos heróis do mar, onde em vez de bretões pusemos canhões, nos pode valer.

Por isso, vou largar este universo da blogosfera durante uma semana, pois irei ao Rio de Janeiro conferenciar no Real Gabinete Português de Leitura, para levar o meu testemunho sobre a dimensão política e académica de Marcello Caetano, num registo bem contrário aos modelos analíticos em que estamos a redemoinhar por causa do concurso televisivo sobre os pretensos "grandes portugueses".

Apenas reconheço que vivemos um momento de encruzilhada. Consta até que, depois de Durão Barroso nos ter abandonado, chegou a vez de Álvaro Vasconcelos, que não é licenciado pela UnI, ao mesmo tempo que vai anunciar-se para breve uma grande instituição de reflexão política nascida da conjugação de vontade de porteiros com santanistas, com grande apoio do novo farol do ocidente que são os subsídios norte-americanos e donde pode resultar mais uma dessas magníficas universidades privadas, dado que a soma de um professor de direito constitucional e ex-primeiro ministro com um ex-professor de história das ideias políticas e ex-ministro de estadão que, não por acaso, se sucederam outro a um na direcção do centro de sondagens da universidade moderna são pergaminhos de inequívoca cientificidade que deixarão Gago de voz ainda mais platonizante.


Eu que sou assumidamente contra-corrente, nem por isso costumo ser inundado de mails de protesto, mas desta feita, por causa de Sócrates, recebi significativas cacetadas, tanto à direita como à esquerda. Pouco me importa. O meu estatuto de homem livre está nos testemunhos quotidianos que aqui deixo, mesmo quando cometo erros ou vou a tribunal assumir-me como testemunha de defesa de malditos, sejam o Professor Manuel Almeida Ribeiro quando foi vítima de Paulo Portas, o Professor José Júlio Gonçalves em Monsanto ou o Balbino Caldeira no Tribunal de Alcobaça quanto a certas interpretações do Ministério Público, da mesma maneira como não me importo de defender a extrema-direita contra certos devaneios policiais ou passar a ser vítima da mesma nos processos eleitorais da minha escola ou na negação dos arrastões de Carcavelos. A verdade e justiça costumam ser da contra-corrente, porque as maiorias conjunturais, mesmo que sejam absolutas, podem ser contra a opinião da melhor parte, isto é, dos que pensam de forma racional e justa.


Com cumprimentos e fidalguia, veio da direita o seguinte:
O problema não está na necessidade de um eventual requisito académico para o exercício de cargos públicos. O problema está em usar-se um título académico e profissional a que se não tem direito, acto ilícito e eticamente condenável em relação ao mais comum dos mortais. E maior problema ainda está na legalidade de uma suposta equivalência, grave tanto para um qualquer Sócrates como para um qualquer José de Sousa. E não menos grave ainda a omissão de agir de vários organismos do Estado quando há muitas semanas ou meses foi solicitada uma investigação que apurasse eventuais irregularidades. Sobre o essencial, Vossa doutíssima senhoria passou ao lado...


Mais cáustico foi o mail que escolhi, entre os variados protestos de esquerda: Claro que sim, Professor, longe de mim querer que o primeiro entre os meus seja o melhor entre todos, que seja licenciado ou que, não sendo, o assuma sem complexos como o gozado metalúrgico Jerónimo ou o glosado Nobel Saramago. Se na democraC.I.A. que nos ilumina com o facho da liberdade estatuária se podem eleger doutores da mula ruça, não vejo por que razão este país emburrado não há-de ter como paladino um mestre na manha de bem cavalgar toda sela e "Da folgança que se desta manha segue".

Isso de estudar e de empenhar o futuro em propinas e sebentas académicas não tem mérito nenhum; meritocrático é não estudar, empunhar um passado forjado à custa da propina sebenta, da peita que se ostenta ao peito, e ascender socialmente…”à Alves dos Reis”, negociando com os compadres de partido um título nobiliárquico republicano galhardamente exibido na sua biografia oficial. Sim Senhor, com a devida vénia genuflicta, “Sócrates, no plano de carreira política, é mais do que mestre e do que doutorado e agregado, estando ao lado de muitos outros homens políticos das democracias da melhor cepa”.

Também eu me penitencio por ter duvidado das qualidades desta providência de província e por não acatar beatamente o dogma deste papado personalista. Também eu faço a apologia de Sócrates e proclamo que a este Homem sagrado não se podem aplicar as regras dos homens profanos: a cadeira do poder não pode estar dependente da aprovação numas míseras cadeiras universitárias e o selo da República do zelo da academia; nem quero saber o que diria Platão deste Sócrates porque a investidura é divina e o investimento na sublimação legítimo, mesmo que se molhem umas mãos ou se conspurque a consciência… a água socrática é da benta!

Perdão porque, afinal, também eu leio toda a história deste eleito da ínclita geração como um manual de virtuosas benfeitorias; pôr em causa em causa a rectidão de alguém que se apresenta como mestre não licenciado que se pós-graduou em engenharia sanitária antes de concluir o bacharelato, é uma vilania salazarenta (ao contrário de discutir durante meses a fio o recto do homem que, presumo, seja heroicidade progressista!!!).

Sim Senhor, isto é que é um regime que depende “apenas da qualidade dos indivíduos, independentemente daquele falso doutorismo que continua a julgar que o hábito faz o monge”. Não Senhor, vestir batina não dá a ninguém o direito de celebrar a missa, provar o vinho e o corpo de Deus ou dos petizes que estiverem a jeito; para isso é preciso cair nas graças do Senhor e da santa madre igreja e esperar pela cumplicidade do Estado de direito.

Sugiro até, em jeito de sacrilégio, que substituamos todos os hábitos fradescos pelos costumes da democracia! Como diria, pela pena de Camilo, Tibúrcio Pimenta: “este país gangrenado ainda podia salvar-se com uma grande amputação”. A minha pena é que o Professor queira desempenhar o papel do cónego e diga que “ninguém lá fora me cheira a gangrena. Reinam os reumatismos e os catarros; mas, quanto a podridão, não sei de nenhuma, fora dos hospitais”. Sobre o ministro da terceira é tudo, mas lembre-se que os desiludidos da vida ensinaram-nos tudo sobre a ascensão dos Abranhos e dos Acácios deste país…Onde é que eu terei ouvido este nome?!

Reclamando um novo espírito para o Estado, mudei o meu Estado de espírito: Resistir é Vencer! Contra os intrujões, marchar, marchar!!! Cumprimentos revoltos

PS: Sei bem que a verdade não é um bem absoluto, mas a mentira tornou-se num mal demasiado banal, the currency of power. A indignidade não está na falta de formação, mas na ocultação e deformação da informação. Aliás, se me perguntarem retoricamente se prefiro um chefe de governo ungido pelo carisma e pela competência ou agraciado pela academia e pela inteligência, responderei sempre: caramba, entre dez milhões de habitantes, não há ninguém que reúna ambas as condições?

....sendo o primeiro “pós graduado” da família far-me-á a justiça de reconhecer que não meço a qualidade das pessoas pela quantidade dos seus diplomas, mas ninguém me pode impedir de avaliar a integridade de um homem pela veracidade dos seus actos.

Deixo-o com um Passatempo, à laia de desconstrução posmoderna.

Preencha os espaços em branco:

“República de Catedráticos, herdada do salazarentismo. Aliás, _______, …beneficiou de um passagem administrativa, conseguida por um decreto da ____ República, na sua fase_________”

Soluções alternativas: Salazar, I, Sidonista Ou Sócrates, III, Guterrista


23.3.07

Esta pesada mentalidade da chamada República de Catedráticos, herdada do salazarentismo

Ontem, depois de dar uma aula sobre o criador do Estado Moderno em Portugal, um tal Mouzinho da Silveira, o lançador das bases reformistas que permitiram o diálogo directo entre os indíviduos e o aparelho central de recolha de impostos, com a boa intenção de o povo pagar menos e o Tesouro receber mais, notei que a pátria se começou a debater com a questão da licenciatura do fugaz primeiro-ministro que, neste momento, a rege. Até recebi um "desalentado" mail de um pós-graduado que dizia: "às voltas com a minha sopa de letras, fico enjoado com mais este caldinho das berças. Valerá a pena estudar Zenão ou Schrödinger, quanto estamos sob o ministério de um verdadeiro paradoxo socrático: ...".

Sobre a matéria, eu, doutorado, agregado e catedrático, apenas tenho de salientar que, se muito critico politicamente Sócrates e se há muito sei do respectivo "dossier" na Independente, nada me desalenta sobre os meandros do tal processo que um dito jornal referência, na era pós-OPA, agora deu à estampa. As qualidades e qualificações de um homem político nada têm a ver com as respectivas tiulagens académicas e seria bom que ultrapássessemos a pesada mentalidade da chamada República de Catedráticos, herdada do salazarentismo. Aliás, Salazar, catedrático e tudo, nunca foi doutorado, dado que beneficiou de um passagem administrativa, conseguida por um decreto da I República, na sua fase sidonista. E até mobilizou para as respectivas cadeiras do poder outros ilustres catedráticos decretinos do mesmo teor que agora não enumero.

Importa também dizer que tudo isto tem a ver com as reformas de Mouzinho da Silveira, dado que ao tentar extinguir a teias da legitimidade patrimonialista do "Ancien Régime", os decretos de 1832 não eliminaram os conceitos de ordens nobiliárquicas e clericais, onde o "sôtôr" acabou por se tornar num sucedâneo dos títulos e formas de tratamento das castas superiores, de acordo com certas pretensões da legitimidade racional-normativa do direito à carreira, assente no conceito weberiano de burocracia, pela via do mérito e da igualdade de oportunidades. E não é por acaso que a questão da licenciatura e do título académico de Sócrates surge no mesmo dia em que o vice-reitor da universidade privada, onde o actual primeiro-ministro fez algumas cadeiras, passou para o regime de prisão preventiva.

Por outras palavras, o drama das chamadas privadas resulta de uma lei da oferta e da procura que levou muitos pais a comprarem títulos à alves dos reis, pensando que, com isso, teriam direito à ascensão social. Como se, numa sociedade aberta, pluralista e competitiva, a função não devesse depender apenas da qualidade dos indivíduos, independentemente daquele falso doutorismo que continua a julgar que o hábito faz o monge.

Posso até dizer, na minha área, e em Portugal, há dois politólogos, justamente reconhecidos como tal, que nem sequer licenciados são em coisa nenhuma, mas são bem melhores que muitos dos catedráticos doutorados do sector, até que o próprio subscrevente deste postal.

Os homens medem-se pelas obras feitas e não pelo carimbo de terem licença para a prossecucação de estudos por si mesmos, que é isso que quer dizer "licenciado". Neste sentido, Sócrates, no plano de carreira política, é mais do que mestre e do que doutorado e agregado, estando ao lado de muitos outros homens políticos das democracias da melhor cepa. Acho estranho que o PSD se tenha aproveitado desta demagogia, esquecendo-se que em casa desse ferreiro há muitos espetos de pior pau, bem como privadas do mesmo jaez.


Volta, Mouzinho da Silveira! A mentalidade que enreda o Estado a que chegámos ainda está à espera da Senhora da Rocha e da Vilafrancada, para que o Marquês de Loulé apareça assassinado em Salvaterra, quando apenas importa que o Tesouro receba mais e que o povo pague menos.

Importa mais reconhecermos que falta cumprir o programa liberal de Mouzinho, relendo alguns excertos dos relatórios dos diplomas de 1832: sem a terra livre, em vão se invoca a liberdade política, pelo que se impõe acabar a natureza dos Bens destinados a tolher o nascimento da elevação moral, salvos os direitos adquiridos...

Porque é necessário aquilo cujo contrário é impossível, e na sua aplicação a um fim determinado, é necessário aquilo que, não sendo dado, o fim se consegue.

A grande e sólida popularidade nasce da estreita observância do preceito de "dar a cada um o que é seu".

As Leis ou sejam sábias ou sejam ineptas uma vez que estejam em execução efectiva, boa, ou má, por um tempo considerável, fixam nas nações a quem regem, hábitos determinados, os quais formam depois o carácter moral dos Povos... E Portugal não pode continuar a ser Nação independente sem dar grande impulso ao trabalho, e indústria de sua Povoação.

Os Portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros por não terem entendido que o Reino, tendo feito grandes Conquistas, e que, perdidos os escravos, era preciso criar uma nova maneira de existência, multiplicando os valores pelo trabalho próprio.

Importa até notar os conselhos que deu ao seu sucessor: se cuidas que a popularidade é coisa diferente da justiça e da moral austera te enganas

Como dele disse Herculano, libertou a terra; lançou o machado à árvore podre das tradições quase feudais; acabou com a opressão da classe mais importante da família portuguesa – a classe dos agricultores. Mas faltaram-lhe desenvolvimento e provisões que facilitassem a sua execução, falta que subministrou pretextos no espírito da reacção para o falsificar e anular em grande parte.

22.3.07

Da espuma suja das marés vivas que periodicamente nos visitam

Ontem não emiti o meu habitual postal, porque não tive direito de acesso silencioso ao meu computador, atarefado que andei na entrega ao meu conceito de serviço público e à prática da minha ideia de missão, para poder viver como penso. Comecei o dia por receber no espaço da minha aula, uma conferência do meu colega do ICS, Professor Doutor José Manuel Rolo, sobre a questão da corrida às armas, numa turma onde andamos a dar Platão, porque nada de mais humano do que metermos os pés no chão e na lama, quando tratamos de estudar a procura do melhor regime e do dever-ser que é. Todo o transcendente tem que ser situado nas circunstâncias do tempo e do lugar, só acedemos às essências através das existências e até o direito da razão tem conteúdo variável.

Depois, tive uma longa e pouco esclarecedora reunião com o meu patrão da função pública que resta na universidade, o meu presidente do conselho directivo, antigo e ilustre coordenador-geral do PRACE, bem como alto representante do partido que, neste momento da conjuntura nacional, detém a maioria absoluta. Fui-lhe comunicar que, de tarde, iria constituir uma associação privada com fim público, federadora de liberdades académicas visando a defesa de uma ideia institucional de universidade, de pátria e de liberdade, de que darei novidades dentro de breves tempos. Não lhe fui pedir nada.

Apenas recordo que a minha escola não nasceu de um decreto do poder estabelecido, mas da iniciativa de homens livres, os fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, quando Portugal ainda era demoliberal a nível do poder político e cumpria objectivos nacionais, fazendo aliar o poder ao saber, pelo reconhecimento da autonomia das pessoas e da autonomia da sociedade civil. Aliás, quase todas as unidades integrantes da Universidade Técnica de Lisboa nasceram da livre iniciativa da sociedade civil e entraram no sistema do público ensino superior "a posteriori", obrigando a própria Ditadura Nacional a reconhecer que a universidade como uma federação, ainda hoje estatutariamente consagrada. Nunca fomos coisa napoleónica, suceptível de fundação de um qualquer artigo do decreto orçamental, jacobinamente engenheiral.

Como federalista que sou, mantenho assim a ideia antinapoleónica e antidecretina, mantendo a minha interpretação do que foram as sucessivas fundações de academias, desde a platónica àquilo que um antecessor meu praticou com a AICP, embora prefira fugir ao decretino, em nome da autonomia das pessoas e dos próprios grupos que elas constituem, a que alguns dão o nome de autonomia da sociedade civil , num momento em que importa praticar a liberdade de expressão de pensamento e a própria liberdade de investigação.

Daí não me apetecer comentar as notícias políticas de hoje, sobre as movimentações santanistas e porteiras e a consequente fragmentação dos partidos da chamada oposição. Nem sequer me espanto com as parangonas do jornal "Público" sobre a situação académica de José Sócrates, porque já tinha lido tudo, há muito tempo, na blogosfera, nomeadamente no Portugal Profundo, do antigo aluno do ISCSP, Balbino Caldeira que assim vê consagrado o pioneirismo investigativo. O resto não passa de espuma suja das marés vivas que periodicamente nos visitam.

20.3.07

Falido e modernizado, me confesso, em pleno salazarismo democrático...

Dizem os jornais que cada português deve ao estrangeiro cerca de 13 000 euros. Dado que tenho três filhos, ainda sem emprego permanente, a minha comunidade de dependentes deve mais de 50 000 euros, coisa que não tenho em numerário e que me faz um insolvente cívico, susceptível de penhora pelos credores globais do nosso desvario. Vale-nos que um antigo ministro das finanças, especialista no combate ao défice, vai aposentar-se no mês de Abril com uma pensão mensal de 9693,54 euros, de acordo com a listagem publicada pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) para o próximo mês. Segundo consta do respectivo curriculum, trata-se de um acrescento à actividade privada que também exerce.

Perante as circunstâncias, a maioria dos portugueses, se tivesse direito à indignação entrava em greve de zelo. Especialmente os funcionários públicos que assistem a festivais de demagogia de dirigentes e ministeriais figuras que agora os querem modernizar com a emissão de listagens de indisponíveis, supranumerários e despedíveis, onde antigos pirómanos, recolhem os restos da respectiva incapacidade, quando se assumem como tecnocráticos bombeiros da modernização administrativa, sem que haja uma efectiva lei da responsabilidade política que os possa qualificar como inimputáveis.

Por isso é que os recentes acontecimentos do CDS são um verdadeiro espelho da nação e uma verdadeira imagem prospectiva do que nos irá acontecer quando faltar o pão, ou o poder, e entrarmos todos em mútuos ralhetes, onde até os beirões não batem em mulheres, mas as mulheres se sentem agredidas. Entre castreiros e porteiros, já nem monteiros ou naraneiros lhes podem valer, numa coisa que deixou de ser um grupo de amigos que se odiavam cordialmente, agora que saltou a tampa das zangas de jet set e as comadres e os compadres quase chegaram às vias de facto, por causa dos apetites de um ex-ministro de Estado que também andava por aí e pensava que chegava um veni, vidi, vinci, com um mediático aperto de mão ao líder que pretendia usar e deitar fora.

Aliás, o mar acabou por galgar a costa, porque o que tem de ser tem muita força. Entretanto, em muitos segmentos do micro-autoritarismo subestatal, onde não há gestores profissionais nem hierarquias funcionais, os restos do PREC, pintados de situacionismo, vivem as delícias absolutistas, julgando que segmentos do Estado podem estar sujeitos ao regime do spoil system, como acontece num partideco, onde os despojos se distribuem pelos vencedores, transformados em conquistadores daquilo que pensam ser o poder, onde continua em vigor a formosa frase de Salazar, segundo a qual o essencial do poder é procurar manter-se...

19.3.07

Da direita que convém à esquerda ao policiamento caçafascista

Afinal o mar não galgou a costa, durante a madrugada. Ainda bem! Foi aqui que, há um par de anos, me escrevi em mar salgado, em pleno nascer da manhã, quando, descendo o monte, a palavra me deu música de apetecer ficar diante de mim, diante do mar. Aqui ainda há sítios ermos sem gente a fazer turismo de fim de semana. Aqui não encontraremos esses restos de mortos vivos, plenos de penduricalhos que correm o risco de morrer engasgados pelas comendas que assinalam a respectiva inutilidade semovente que vai expelindo os resquícios de suas ressacas alambicadas que nos vão poluindo em desvergonha.

Por isso, acordo com as notícias de uma reunião de duas centenas de pretensos notáveis em reunião num hotel de 5 estrelas que acaba com gritos e pateada, em tempos de sucessivas conspirações de alcatifa, com Maria José Nogueira Pinto a ameaçar abandonar o partido. Porque um antigo notável do CDS e distinto economista acaba de proclamar sobre o PSD que "se Santana avançar com outra força partidária, não vai levar ninguém do PSD consigo, só alguns amigos mais chegados". Porque um antigo presidente do PSD, que diz estar a reconstruir e a consolidar a sua vida profissional, replica: "não estou a preparar a minha saída. Estou é a dizer que não podemos ficar todos na mesma casa." Maria José chegou a ser membro de um governo do PSD contra o CDS. Ribeiro e Castro chegou a abandonar o CDS e a colaborar numa campanha eleitoral do PSD. Paulo Portas começou na JSD e só entrou para o partido com Manuel Monteiro que, depois, derrubou, assim comfirmando esta coerente confusão de narizes na direita a que chegámos.

Vale-nos que a PSP - do Comando de Lisboa e da Direcção Nacional - tem vindo a recolher informação sobre movimentações políticas. Para já, tem dados sobre o que considera a extrema direita e diz ao JN ter conhecimento do ambiente de tensão acrescida, mas mantém-se confiante. "A informação que temos a vindo a recolher aponta para esse esforço da Extrema-Direita no meio escolar, mas a situação tem vindo a ser controlada por nós". A PSP dá conta, aliás, de que a Extrema-Direita tem vindo a alterar gradualmente a sua conduta "Querem abandonar a imagem clássica do 'skinhead', violento e sempre disposto ao confronto, e assumir uma postura mais politicamente correcta, que lhes dê mais espaço de manobra".

Espera-se que nos informe sobre o que está a acontecer com a extrema-esquerda, o fundamentalismo religioso, incluindo o católico e o islâmico, informando-nos, naturalmente, sobre os critérios constitucionais que lhe permitem qualificar de forma politicamente legal esse tipo de investigações. Porque qualquer conceito de extrema-direita minimamente consensualizado pelos que pensam de forma racional e justa implica que se investigue todo o campo do pensamento em causa, isto é, abrangendo tanto estudantes como professores, tanto movimentações na rua como movimentações no pensamento, dos blogues aos jornais, dos livros às conversas de bar.

Eu pensava que, constitucionalmente falando, qualquer português pode ser da extrema-direita e até expressá-lo publicamente. Não pode é movimentar-se no âmbito de uma organização fascista, dentro do amplo conceito legal que abrange tanto racistas como separatistas. Logo, a PSP deve actuar imediatamente e investigar donde vêm os votos em Oliveira Salazar, num recente concurso televisivo e encerrar imediatamente a RTP que está assim a contribuir para que floresçam organizações constitucionalmente proibidas.

De qualquer maneira, acho extremamente perigoso que uma polícia repita comportamentos policiais do antigo regime. Julgo que foi com base em idênticos processos analíticos antifascistas que a polícia política do antigo regime fez uma limpeza dos nacionais-sindicalistas de Rolão Preto, para acabar com as camisas castanhas e ficarmos todos vestidos de camisas tipo feijão verde. E o mesmo método foi levado a cabo pela PIDE, fundada em 1945, que caçou todos os exilados nazis que por aqui estacionavam. Porque, em verdade, em verdade deve ser dito, Salazar foi um autêntico ditador anti-nazi e anti-fascistas italianos. Aliás, dizem os jornais, que ontem foi preso, num país governado pela esquerda e noutro continente, um antigo militante da extrema-esquerda italiana, com mandato de captura internacional. Porque os criminosos não têm cor e a direita e a e esquerda das extremas não são causas justificativas do crime.

18.3.07

Palavras para quê? São todos artistas portugueses...

Camionetas cheias de pessoas de vários pontos do País deslocaram-se até Lisboa para encher o auditório do Centro de Congressos. Ministros sem gravata e militantes, de idade avançada, até pediam licença para entrar numa sala apinhada para ouvir o líder do PS, que ontem subiu ao palco do Fórum Novas Fronteiras para fazer um balanço de Governo (Correio da Manhã).

Mas alguém pensa que os problemas de Marques Mendes e Ribeiro e Castro resultam das suas fragilidades? Essas dificuldades derivam de termos um Governo PS que está a implementar políticas de Direita iguais às que seriam seguidas por PSD e CDS/PP. A frase de Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP acabado de se recuperar de um problema de saúde, arrancou gargalhadas numa já inflamada plateia no Cinema Batalha, no Porto, que acolhia as comemorações do 86.º aniversário do partido (JN).

Luís Filipe Menezes apresentou, anteontem à noite, a sua disponibilidade para se candidatar à liderança do PSD. Portas enfrenta Ribeiro e Castro no primeiro combate de boxe verbal, diante da plateia do Conselho Nacional em Óbidos.

Palavras para quê? São todos artistas portugueses, segurando a cadeira nos dentes, em encenados palanques, à procura de boas poses para o telejornal, neste agravado regime dos emplastros, onde só os saudosistas usam pasta medicinal Couto. Porque nenhum deles alguma vez foi apoiado por Pinto da Costa ou Valentim Loureiro. Porque nenhum deles foi à romaria que assinalou o regresso de Andreia Elizabete ao lar que ainda não conhecia.

Todos os emplastros são postiços neste regime de amostragem de dentaduras à Albarran e de corpos sujeitos a dietas de imagem, onde Santana Lopes podia estar a enfrentar Sócrates diante do Conselho Nacional do CDS e Ribeiro e Castro, a ser aplaudido por Matilde Sousa Franco no encontro das novas fronteiras dos democratas-cristãos do PS, no palácio dos congressos na FIL. Onde a romaria da Andreia podia ser os estados-gerais da esquerda, no ensaio de festa do "Avante", enquanto os sindicalistas do CDS promoviam um comício na Quinta Grande da Marinha, ouvindo o grande educador do proletariado, Diogo Freitas do Amaral, agora dirigente máximo do Círculo Católico Operário D. Manuel Gonçalves Cerejeira, depois de ter substituído José Hermano Saraiva, como comissário do concurso das sete maravilhas de Portugal, danado com a TVI por o ter saneado como defensor de Cunhal na definição dos nove maiores portugueses de sempre, depois dele.

Aliás, Lisboa vai, em Abril, palco de uma reunião de movimentos nacionalistas de toda a Europa. Ainda sem local marcado mas com a antiga Feira Popular como ponto de encontro, a Juventude Nacionalista vai trazer a Portugal oradores da Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Roménia, Suíça e Suécia para partilhar opiniões e experiências de activismo político. Alberto João Jardim não será convidado, mas um conhecido hierarca socialista já foi sondado para o efeito por um seu aliado da frente universal anti-laica e anti-ateia para participar na bebedeira colectiva com que se encerrarão os trabalhos desses resistentes da defesa da civilização ocidental, onde os autênticos cavaleiros antiduartistas da associação secreta de São Miguel da Pala desfilarão, ao som do fado castiço, executado por deputados eleitos pelo PSD.

16.3.07

Parabéns aos homens de sucesso!



Almoço, em solidão, em plena cidade, diante do sol, olhando as árvores e as rolas e sentindo a água correr, aqui nos Moinhos de Santana, para me olhar por dentro e esquecer os pequenos cabrais que continuam a instrumentalizar os nossos atavismos devoristas e inquisitoriais, gerindo os interstícios do poder com o manhoso jogo das promessas da habitual política de empregadagem, com que delambem os restos pútridos que caem da mesa do orçamento, onde não faltam os sempiternos intelectuários que se costumam manipular pela avença e a engenharia dos subsídios, a que agora chamam projectística e consultadoria.



A culpa está na circunstância de os homens livres serem um bem escasso, dado que poucos podem viver honestamente, praticando o que vão pensando, porque a chamada história dos homens de sucesso parece registar esse híbrido de fascista cobarde e de ébrio inimputável, sempre à espera do favor decretino, mas propagando pequenas cortes de seguradores de copo e de abridores de garrafa, em sucessivas tragicomédias. Os que, de tanto se submeterem para sobreviver, já nem sequer sabem lutar para continuarem a viver.



As gentes de antes quebrar que torcer, que homens e mulheres dessas cortes não podem, nem querem, ser, já nem sequer têm cais de partida, donde larguem naus de sonho que nos levaram para a busca do paraíso ou a ilha dos amores. Porque quem ama a ideia de Portugal e a quer servir como português à solta, libertando-se das amarras que nos acirram o desterro interno, já nem sequer pode usar o primeiro direito dos homens que é o ius ambulandi, neste cativeiro de homens-lapas, agarrados aos postos de vencimento.



A pátria está presa nas teias das manigâncias dos filhos, sobrinhos e primos de algo, esses vingativos e invejosos carreiristas que nos amarfanham, procurando controlar-nos de acordo com os procedimentos constantes do manual das velhacarias e vigarices dos inquisidores, moscas e bufos, mesmo quando rezam o terço todos os dias, editam santinhos e se ajoelham na dominical missinha. Apenas agradeço que continuem nessa apoplexia acumuladora de cargos e suplementos financeiros, para que possam explodir em verdade, deixando que se quebre o verniz e surja o caceteiro impiedoso e devorista que faz parte da sua natureza.

15.3.07

A caneta do século XXI, onde o hábito não faz o monge

Sim! Nada de novo debaixo do sol deste Março com quase manhãs de Verão. Apenas que minha caravana vai passando, neste quotidiana renda de bilros de investigador, a actualizar a sua lista da classe política portuguesa desde 1820 e os seus ciclos do Portugal Político, já disponíveis na rede, mas com muitas imperfeições, sobretudo para uso dos meus alunos de história da administração pública. Entretanto, à minha volta sinto que continuam tempestades de areia, neste deserto de ideias que nos vai sufocando.

Nos intervalos, vou comentando comentários, nesta minha missão de publicista, ao serviço de causas. Ainda ontem, o Manuel Acácio da TSF pedia-me que reflectisse em público por causa do blogue de António Costa/ José Magalhães. E lá tive que dizer que a tecla e o fio que nos liga a esta nova biblioteca de Alexandria que é a Internet, estarão para o século XXI, como a máquina de escrever esteve para o século XX e a caneta para o século XIX, mas não é por termos uma esferográfica que somos autores de livros.

Não é a posse do "hardware" que nos permite fazer o "software", não é o "continente" que gera o "conteúdo", mas antes a maneira como aprendemos a navegar, navegando, pela invenção e pela criatividade. E neste nosso tempo de propagandismos sobre os choques tecnológicos há muito provincianismo e imensa iliteracia.

Dizer que se faz um blogue ou que se tem uma página na Net faz parte da imagem da gente fina e, naturalmente, afecta a classe partidocrática. Mas basta notar como depois da ida de José Magalhães para o governo o sistema de blogues dos deputados ficou-se por alguns ratinhos. E não são raras as excelências ministeriais, deputáveis ou professorais que precisam do assessor, da secretária ou do assistente para que estes lhes abram os "mails" ou lhes fotocopiem os "blogues".

Um desses, por acaso das ciências exactas, estranhando que um homem das ciências humanas como eu andasse de computador à trela, muito desconfiado, cheio de manha, só depois de alguns anos ganhou coragem para lhe explicar como é que se podia usar o til ou meter a disquete. Outro chegou a adquirir o sistema "wireless" para a respectiva repartição, quando ele surgiu, mas deixou-o empacotado durante anos e anos.

Por isso desconfio de todos este planos da pólvora dos engenheirais lançadores de megaprojectos que não se preocupam com uma estratégia de criatividade e se deixam enredar no charlatanismo dos plagiadores e carreiristas, a quem em épocas vindouras apenas chamávamos vigaristas.

Nada disto tem a ver com a aventura de António Costa e de José Magalhães nos mundos da blogosfera oficiosa. Será sol de tanta dura quanto a interferência dos partidos ou das candidaturas partidárias neste domínios do ponto.come. Este espaço pertence aos indivíduos que quotidianamente se escrevem e comunicam com um público anónimo, mas fiel.

O que seria se alguns ministros e partidcoratas, todos os dias, se desnudassem em ideias, lançando-se na rede, mas sem a rede dos assessores de imagem? Apenas confirmaríamos que vivíamos num deserto de ideias, onde muitos cães ladram, mas onde a caravana de quem tem uma ideia de obra, respeito pelas regras processuais e manifestações de comunhão entre o respectivo público.

14.3.07

O regime dos emplastros



Dia a dia que passa, sem espaço de exílio externo, mas também sem causas cívicas que me mobilizem institucionalmente, vou sobrevivendo e submetendo-me a estas circunstâncias, cada vez mais desterrado na minha própria pátria. Mas, todos os dias, confirmo que não estou sozinho, aqui e agora, apesar de sentir que a maioria dos meus concidadãos, prefere a segurança e o bem-estar dos remediadamente conformistas, a qualquer aventura da liberdade.

Sinto-me um pouco naquele ambiente decadentista dos "anciens régimes" que, em Portugal, costumam durar décadas, como aconteceu no crepúsculo da monarquia liberal, nos anos vinte da república velha ou na fase pós-delgadista do salazarismo. Recordo-me até da primeira causa cívica que assumi em artigos de jornais, quando, adolescente, defendi, em carta assinada, no jornal da terra, o velho "Diário de Coimbra", uma mudança de horários contra os interesses de uma concessionária dos transportes públicos. Então, uma minha conhecida, cidadã de meia-idade, apoiante do regime, logo me veio admoestar porque muita sorte tinham os pobrezinhos de terem oferta de transportes públicos, em vez de andarem a pé ou de bicicleta...

Hoje, parafraseando Belmiro de Azevedo, quem não é por Cavaco ou por Sócrates ou é incompetente ou maluquinho. Logo, corre o risco de ir para a bolsa dos supranumerários ou de ser internado no pelourinho dos inconvenientes que não dizem "sim senhor" a estas ilustres vontades de modernização da pátria.

Pouco mudámos nesta servidão voluntária, desde que surgiram os profissionais da contestação ou os canalizadores do protesto institucional, a que chamam partidos da oposição, cheios de antigos ministros da mesma situação de um permanente bloco central de interesses, a que hoje se chama coabitação em regime de cooperação estratégica. Basta olharmos uma desssas visitas de presidente ou chefe de governo a inaugurações de província, mesmo que fiquem em plena capital.

Nada melhor, para confirmarmos como vivemos em regime de emplastros, que numa dessas imagens de telejornal, verificarmos o que acontece quando Cavaco ou Sócrates têm que mandar umas bocas para o país através da camâra e do microfone. É vermos o ridículo de ministros e outras figuras do estadão se empurarrem todos, para ver se cabem no écran, encostando as cabecinhas ao microfone do chefe, só para aparecerem no boneco. Porque em política o que aparece é o que é.

Somos cada vez mais um regime de emplastros, onde cada chefezinho e cada subchefe da mão longa do estadão decidiram copiar suas altezas, com um gabinete de relações públicas e um assessor de comunicação e imagem, normalmente um desses jornalistas desempregados que consegue colocar uma notícia ou uma entrevista numa dessas folhas de couve que ninguém lê, mas o gabinete fotocopia e distribui, dando cinco minutos de fama ao vaidoso emplastro.

É pena que alguns não tenham o dom da palavra ou da carantona televisionável. E pior ainda é quando, assumindo a função de emplastro, não reparam como são baixinhos, pançudos, carecas ou coxinhos, levando a que meio povo se questione sobre quem é aquela alimária que anda aos empurrões atrás de Sua Excelência, só para furar o telejornal. É que os assessores pagos ter-lhe-ão dito como gostaram de vê-lo nessa manifestação de massas desta permanente sociedade de corte e até os familiares e as secretárias de função acabaram por lhe afagar o ego, sem lhe dizerem da triste figura que ele fez.

Neste regime de emplastros parece agora ter chegado a moda de suas excelências ministeriais fazerem blogues, não por causa da blogosfera, mas para que os jornais do dia publiquem duas páginas de reportagem sobre a matéria, a fim de confirmarem que a dita personalidade sabe usar os efeitos do choque tecnológico, neste "big brother" de uma crescente gargalhada, onde os sábios gestores do poder vão, de sondagem crescente em sondagem crescente, até ao tabu, ao pantanal ou a um convite para funções mais importantes, deixando os "saloios" a ter que gramar os emplastros.

Basta que um qualquer chefe da grande Europa mostre, ao presidente ou ao primeiro-ministro, os relatórios sobre negociatas e as escandaleiras que os adidos das embaixadas elaboraram, quando descreveram os nossos meandros dos passos perdidos à beira do poder.

Por outras palavras, estou cada vez mais do contra. Contra os que estão e até contra os que dizem que são do contra, de Zés Ribeiros a Marques Mendes, ou de Portas e Monteiro a Pedro Santana Lopes, nesses bailados de bonzos, canhotos e endireitas, onde todos vão explorando a nossa revolta, para reforço dos micro-autoritarismos subestais que se alimentam das sociedades de corte e das servidões voluntárias. Infelizmente, já não há revistas de "Homens Livres", entre a "Seara Nova" e a "Nação Portuguesa", nem um qualquer "Album das Glórias" que nos retrate. Já não somos quem sempre fomos, à espera de uma revolução, de uma "maria da fonte" ou de um "vinte oito de maio".

Eu preferia fazer um golpe de Estado sem efusão de sangue, através de eleições, mas, infelizmente, não tenho partido onde militar. Já me enganei algumas vezes e tive que sair a tempo, para poder continuar a viver como penso, sem pensar muito como assim tenho de viver. Pior ainda, já nem na universidade posso dizer que há lugar para o pensamento livre, dado que o estadão, os emplastros e a partidocracia estão a dar cabo dela.

13.3.07

Entre Maquiavel, Nietzsche e Freud, lá vamos cantando e rindo...

Uma notável autarquia pública, detentora de cerca de cinquenta por cento de uma universidade dita privada, acaba de tentar descobrir a careca de uma ilustre personalidade, vice-presidente de um dos dois maiores partidos portugueses e esposa do presidente do principal banco português.

A universidade responde que a senhora auferiu, a título de honorários por serviços de assessoria jurídica e de mandato judicial prestados em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007 (...), respectivamente as importâncias de 1.200.000$00 [seis mil euros], 37 409,85 euros, 27 433,88 euros, 44 318 euros, 10 mil euros 12 500 e 2000 euros, tendo emitido os competentes recibos verdes, o que perfaz um total de 139 410 euros. Ouvida a senhora, esta disse estranhar a iniciativa: não tenho nenhum vínculo [àquela entidade], sou advogada, estou no mercado.

Foi há uns anos que a mesma autarquia aí colocou, como supremo mandador, outro ilustríssimo jurista, por acaso, o presidente da assembleia-geral da autarquia, e, também por acaso, o actual presidente do segundo partido português, o qual logo recorreu aos serviços jurídicos da visada, não indo, naturalmente, ao dito mercado. Aliás, até a viria a colocar a mesma, sua antiga adjunta, como sua número dois, de acordo com as tais nomeações supremas com que a partidocracia costuma desfigurar a lei da oferta e da procura e a concorrência leal. Neste caso, além do mercado, a vítima também foi uma certa ideia de universidade e uma certa ideia de democracia.

Julgo que, se colocássemos o taxímetro das horas e dos honorários a funcionar, se verificaria como os serviços autarco-juridico-partidocráticos sempre foram melhor pagos do que aqueles com que se remunerava um professor. Aliás, taxímetro por taxímetro, também seria interessante conhecer quanto recebia, directa ou indirectamente, o actual presidente do principal partido da oposição, nessas tarefas. Nesta quinta, os animais são todos iguais mas há sempre alguns que são mais iguais do que outros.

Nessas zonas mistas do público autárquico com o universitário de mercado, com patos bravos à mistura e formas indirectas de financiamento partidário, as chamadas universidades privadas foram, e são, um excelente laboratório, onde cada partido usufruiu dos laços de convívio íntimo com a sua universidadezinha. E também seria interessante fazermos cruzamentos com as principais construtoras civis, em vez de entrarmos nas habituais teorias da conspiração e dos relatórios dos serviços secretos, entre comércio de diamantes e tráfico de armas. Porque logo chegaríamos à conclusão que o principal problema do ensino superior não passa de uma questão de assoalhadas, lombas, rotundas e parques de estacionamento.

E a coisa passou do superior privado para o superior público e concordatário, dado que os mesmos agentes coincidem em sucessivas falências, mas sempre com excelentes discursos de música celestial, fazendo chorar as pedras da calçada. Aliás, a nietzschiana vontade de poder e os recônditos freudianos podem explicar as movimentações de alguns actores universariantes que se pensam donos das suas vaidades, mas não passam de meras peças de xadrez, movimentáveis pelo processo da facturação, ou ansiando por suplementos de vencimento e, até há pouco, complementos de reforma, ou até acumulações de aposentações, a que costuma acrescer a glória de poderem mandar nos contínuos e nos motoristas, com direito a secretária de carne e mesa de escritório de torcidos e pau-preto, com telefone pago e Mercedes à espera.

Contudo, a recompensa suprema dos candidatos a mandadores, neste arquipélago de micro-autoritarismos subestatais, continua a ser a chamada subversão a partir do vértice dos aparelhos, para glória das pequenas vinganças dos políticos desempregados e dos políticos frustrados, que pensam poder manipular a fábrica de chouriços doutorais, onde o chefe e o subchefe podem finalmente ser citados e o serviço de relações públicas da coisa consegue, finalmente, cinco minutos de tempo de antena, com entrevistas e belas fotografias no jornal da região, cujas fotocópias são depois afixadas no átrio da instituição, ou metidas nos cacifos dos serviçais.

Os filhos, os sobrinhos e as primas podem finalmente ver como o chefe ficou bem na fotografia e até é possível que o serviço de edições da mesma coisa publique as entrevistas completas e os discursos de sua excelência, nomeadamente os das comemorações do aniversário da inauguração da impressora a cores, do balcão do bar ou da missa de acção de graças. Em qualquer dos casos, convém que, em cada momento institucional, se contrate o serviço de croquetes do restaurante da vizinhança, com tudo bem regado por uísque velhote, onde sempre se pode embebedar um dos institucionais mais susceptível, aproveitando-se os excessos de o ver cair de trombas, especialmente no dia em que ele deu uma bofetada num qualquer incauto e, depois, foi transportado aos ombros, para risada geral face ao inimputável de uma tal coisa, feita de comunismo burocrático, onde a culpa morre sempre solteira e os cemitérios estão cheios de insubstituíveis.

Entre Maquiavel, Nietzsche e Freud, lá vamos cantando e rindo, neste vira o disco e toca o mesmo e com os mesmos...



12.3.07

Os bonzos, os endireitas e os canhotos desta ditadura da incompetência

Neste segundo aniversário de uma governação que não é carne nem peixe, mas “action man” do bloco central de interesses, em luta contra o défice, em regime de pilotagem automática, conforme a ameaça de défice, para uso da comissão europeia, depois das congratulações na Quinta das Lágrimas com a eleição de Cavaco e da manifestação de vontade de regresso de Paulo Portas, precisávamos que outros dois endireitas, no desemprego mediático, Santana Lopes e Manuel Monteiro, viessem aos holofotes dos telejornais.

O pretexto chamou-se “estados gerais da direita”, organizados pelo partido registado em nome de Monteiro. O local foi o eterno seminário dos sucessivos regimes, uma Faculdade de Direito, sob o patrocínio do Professor Catedrático Doutor Paulo Otero. As ideias não foram nenhumas, a não ser a ameaça do ex-primeiro-ministro quanto à necessária reorganização do espaço dito do centro-direita, com insinuações sobre a ineficiência de Marques Mendes, enquanto Monteiro, assumindo a sua obsessão antiportista, acrescentou umas notas-pé-de-página sobre a permanecente crise do CDS/PP. O povo ouviu e continuou a seguir as comemorações do meio século de vida da RTP.

Eu não ouvi, já ando a ouvir, há muito, esses restos de música celestial, com os constantes bailados da tal direita que convém à esquerda. E, na prática, tais notícias são não-notícias. São meros factos políticos de criadores e criaturas. Pouco interessa que Marcelo se tenha posto contra Santana e os "gatos pingados" de Monteiro e Otero (Profe comentador dixit), recordando a anterior ameaça santanista de um Partido Social Liberal.

De pouco vale que Júdice tenha entrado na liça, atacando o amigo Marcelo. Ou que Marques Mendes apareça, denunciando o projecto pessoal de poder de Sócrates. Cavaco vai mesmo celebrar a energia limpa, vinda da ventania. E António Vitorino vai substituir Vasco Vieira de Almeida na presidência da assembleia-geral da Brisa. Está farto de partidos.

Desejo apenas votos de boa saúde a Jerónimo de Sousa, que foi visitar um hospital no Centro-Norte e acabou internado em Lisboa, enquanto os jornais anunciam que há 150 000 funcionários públicos em risco, que o governo fez 2 373 nomeações na área livre para a partidocracia e que o Estado a que chegámos, com tanta obesidade, sem músculo forte nem osso calcificado, se fica assim pelo dinamismo da propaganda e das sucessivas reformas administrativas, desde que Marcello Caetano criou a moda, na segunda parte da década de cinquenta do século XX.


Na prática, hoje, não há mesmo notícias. Mas apenas comentários sobre os comentários da vida política, feitos pelos eternos bonzos da situacionismo, onde também querem entrar os endireitas e os canhotos, neste crescente ditadura da incompetência que nos rege.