a Sobre o tempo que passa: Março 2008

Sobre o tempo que passa

Espremer, gota a gota, o escravo que mantemos escondido dentro de nós. Porque nós inventámos o Estado de Direito, para deixarmos de ter um dono, como dizia Plínio. Basta que não tenhamos medo, conforme o projecto de Étienne la Boétie: "n'ayez pas peur". Na "servitude volontaire" o grande ou pequeno tirano apenas têm o poder que se lhes dá...

31.3.08

O regime dos lambe botas


José Sócrates assumiu, no sábado, que tem estado a «disfarçar estados de alma» durante os três anos de governação, que apelidou de «muito difíceis». O primeiro-ministro acrescentou que um político tem de apresentar sempre «boa cara e ânimo». Entretanto, a Igreja Católica pede ao mesmo Sócrates que controle laicismo de alguns membros do PS, ao mesmo tempo que Jaime Gama elogia a "obra ímpar" e "vasto e notável progresso" do jardinismo. Por outras palavras, nesta "perestroika" em curso, contra a "glasnot", há sempre conspirações movidas pelo secretismo e regidas pelo "protocolo dos sábios do Sião".



Já António Borges observa que "em Portugal, ou por incapacidade ou por incompetência, os empresários e os accionistas privados acabam por se deixar com muita facilidade absorver pelo poder político". Até acrescenta "em 2005, fui ao Congresso do PSD e apresentei uma moção onde me disponibilizei para ajudar o PSD a ter uma oposição mais activa em relação ao Governo. O congresso teve lugar no fim-de-semana e na segunda-feira, logo de manhã, fui chamado ao gabinete do ministro Manuel Pinho, que me comunicou que todos os contratos com a GS estavam cancelados a partir daquele momento". Por outras palavras, o reino da consultadoria e das avenças movimenta substanciais verbas e discretos jogos de poder e de apoio que ficam nas cerimónias iniciáticas do Bloco Central. Só três anos depois é que se revelam factos que deveriam imediatamente ser comunicados ao povo.

O ministro reage com estado de alma e diz que os banqueiros costumam ser discretos, reconhecendo que tudo isto se passa por trás das cortinas, nos tais meandros onde há os que recebem e os que não recebem contratos, conforme a apreciação das condutas reservada ao supremo poder, segundo a lei vigente, para a qual quem se mete com o situacionismo leva, especialmente quando se perdem os estados individuais de alma.

Daí não percebermos a exaltação do PS da Madeira contra Jaime Gama. Jardim também é um situacionista e, para os altos dignitários do regime, tem razão quem vence, mesmo que seja Bokassa ou Mugabe .

29.3.08

"Todas as pessoas têm direito à liberdade de expressão ... esse direito compreende a liberdade de opinião".


Nunca li o livro de Leonel Azevedo, Os Jardins do Paço Episcopal de Castelo Branco, nem a nota de rodapé de página 101, onde se dizia, em 2001, que outras obras publicadas sobre a matéria "transpiravam mediocridade" e uma, em particular era "destituída de qualidades". Apenas anoto o que vem hoje no jornal Público. Um dos visados considerou-se alvo de difamação e processou o autor acabou condenado a 120 dias de multa, a uma taxa diária de dez euros, mas com pena suspensa.


O cidadão condenado foi para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o Estado Português perdeu tempo a dizer que as palavras de Azevedo constituíam "ofensas pessoais" que ultrapassavam o âmbito da "crítica científica"; e que a sanção era justificada mais ainda devido à "posição" da "pessoa visada pelas críticas", porque era uma "professora do ensino superior na reforma".


Por unanimidade, os juízes do TEDH deram razão a Azevedo. No seu acórdão, o tribunal considerou que o Estado português violou o artigo 10.º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos - artigo que estipula que "todas as pessoas têm direito à liberdade de expressão" e que "esse direito compreende a liberdade de opinião". O Estado português terá de pagar 10.447,65 euros ao investigador.


Apenas acrescento que as cinco vezes em que o Estado Português já foi condenado pela mesma instância, por ofensas à liberdade de expressão, terão, dentro de tempos, uma infinita multiplicação. Basta que os moscas, os formigas e os bufos continuem a ser promovidos a conselheiros e a executivos e que a cobardia da maioria se cale perante o crescendo de ostracismo. Basta que se juntem uns fascistas folclóricos com outros estalinistas não reciclados, em bate-palmas aos chefes, para que nos esqueçamos que o autoritarismo sem cor é igual aos autoritarismos de esquerda e de direita que nos têm inquisitorializado. Todos os dias assisto à cena.




28.3.08

E que tal o antes quebrar que torcer?


Ontem tive honroso convite para visitar um museu zoológico das engenharias do poder, onde vi uma múmia, tipo Ramiro Valadão, a exercer propagandismo sobre o situacionismo de esquerda, tentando imitar os elogios serôdios de Luís Delgado a Santana Lopes, no tempo da governação do mesmo. Reparei como um produto do velho estalinismo cunhalista conseguiu aliar-se a interventivos militantes do PSD e do PS, só porque, dizem, querem abafar uma manobra promovida por maçons e militantes do "Opus Dei".


Ontem, vi um líder da oposição, do partido de Sá Carneiro e de Snu Abecasis, criticar uma intenção PS sobre a lei do divórcio, só porque sabia que os jornais de hoje iam trazer que "divórcio abre Igreja e PS". Ontem, vi inúmeras confirmações sobre o vício generalizado que nos está a matar: a cobardia colectiva deste tacticismo, que os políticos vencedores difundiram por toda a sociedade.


Hoje confirmo que este não é o país de Sá de Miranda, do antes quebrar que torcer. O poder tanto pode fazer um discurso contra Talleyrand, num dia, como transformar o dito num paladino da pátria, só para tentar lixar o gajo que pretende abater. O poder vende-se por um convite para uma viagem transatlântica, por um discurso de graxa, por uma ilusão de vindicta no jogo politiqueiro do "divide et impera", gerindo a mesa do orçamento, para convidar os opositores de ontem a comensais da boda de hoje.


Na visita que fiz ao jardim zoológico, foi interessante ver restos da fauna pré-humanista, com torquemadas e bufaria, a discursarem sobre mentiras, para não contarem histórias reais de faca e alguidar que servem de pano de fundo para a movimentação dos que querem açambarcar os restos do banquete. Aliás, depois desta hiper-informação sobre os incidentes da escola do Porto, raros foram os que conseguiram compreender o fundo da questão: o nosso sistema educativo, filho do livro único pombalino, pretende continuar a criar pensamentos únicos e a punir todos os que se manifestam pela irreverência excêntrica do pensar pela própria cabeça. Não interiorizaram as lições de Sócrates e de Platão.


O nosso sistema educativo não sabe o essencial daquela pedagogia oriunda de Spencer e do pragramatismo de Dewey, segundo a qual vale a pena cultivar o universal pela diferença e promover a autonomia dos indivíduos, com respeito pelos grupos nascidos dessa autonomia. Todos os instalados do educacionês, do universitarês e do investigacionês, assentes na "dedução cronológica e analítica" e no "yes, minister", ou "yes, director", são bem mais atarracados do que os cultivadores da velha "ratio studiorum" que eu não defendo, dado que prefiro continuar a relembrar tanto António Sérgio como Leonardo Coimbra e aquele humanismo de Sá de Miranda, sem o qual não pode continuar Portugal. A não ser que nos queiram transformar numa sociedade de muitas "cortes de aldeia".

27.3.08

Enquanto o pau vai e vem folgam as costas...


Ontem no tradicional "Quadratura do Círculo" gostei de ouvir os comentários de Pacheco Pereira e Jorge Coelho, denunciarem a «tendência para o silêncio cúmplice» que pressiona os professores a não apresentar queixas sobre a a vérmica violência que afecta as escolas. É assim natural que as estatísticas oficiais sobre a matéria não sejam capaz de fotografar a realidade. Apenas acrescentaria que tal acontece não apenas com alunos problemáticos contra professores, mas também com muitos outros segmentos de violação do Estado de Direito em todo o tipo de escolas, nomeadamente no ensino universitário. Eu até já vi actuais e antigos responsáveis políticos e administrativos de certas escolas emitirem solenes declarações tipo "enquanto o pau vai e vem folgam as costas", e dizendo, sobre aqueles que se sentem violados nos seus direitos, para eles irem para os tribunais, porque enquanto estes, dentro de dez anos, ainda estarão a tentar julgar a coisa, já os gestores que gostavam de ser Almerindo Marques estarão a gozar as delícias da reforma, deixando na balbúrdia a coisa que quiseram reformar. Aliás, os donos do poder até recorrem a advogados pagos pelo orçamento que devia ser de todos, enquanto os queixosos têm que pagar a coisa do seu próprio bolso.


Garanto que o problema não é de estatísticas nem de falta de queixas. É de ausência de cultura de Estado de Direito. É de total vazio face ao sentido institucional. E tão violento é o acto da aluna a desobedecer fisicamente a uma professora, quanto os quotidianos actos do micro-autoritarismo subestatal, desertificando as autonomias da cidadania e dos grupos que esta pode gerar. E o milagre das avaliações pode ter o destino que tiveram as que foram experimentadas no ensino superior e que acabaram na gaveta.


Ainda ontem recebi, finalmente, o resultado da avaliação de um pequeno centro de estudos que me foi dado constituir ainda no século XX e que, além de mim, doutorado, tinha apenas mais dois activistas, por acaso, dois estudantes de licenciatura, e o apoio de dois jovens assistentes. Claro que o centro, já extinto desde o ano 2000, teve "muito bom", não tendo mais porque aquilo que ainda hoje está na Net, naquilo que se chamou CEPP, não passou para "CDRom", conforme era nosso propósito.


Só que o inferno da burocracia não gosta dessas boas intenções e eu perdi toda a pachorra para aturar a engenharia das cunhas e da gestão de pressões e interesses naquilo a que chamava sistema geral e sistema local da engenharia investigativa que traduzimos em calão do universitarês e do investigacionês. Perdi as ilusões no próprio dia em que apresentei o meu projecto à FCT, dado que tive que aturar um painel presidido por um ilustre consultor administrativista de casinos, com que o Estadão julgou poder encabeçar uma área que sempre reduziu à dimensão das ciências ocultas, e, sobretudo, quando verifiquei como faltaram à formalidade todos os outros projectos que já estavam cunhados e com a certeza contratual do financiamento, porque estavam benzidos pela sacristia ou pelas castíferas cumplicidades orientais, com indirectos casinos...


Daí que não mais me tenha metido nestes meandros. Decidi pagar do meu próprio bolso a continuidade do projecto e entrar no beneditino sem convento, do tal que me leva ainda um par de horas quotidianas do prazer da profissão que se professa. Quando recebi a classificação nem sequer guardei a cópia, enviei-a formalmente, a título de testamento, para o órgão cimeiro daquilo que foi minha ideia de escola. Porque apenas me apetece o real exílio de uma qualquer lei de aposentação que me liberte deste jogo crepuscular de uma decadência hierarquista que vai sufocando a autoridade e o sonho da ciência. Já tenho quase trinta e três anos desta carreira, mas bem menos do que a idade cronológica do padrão legal. Ou, então, um qualquer sítio recatado de uma escola que queira ser escola, onde, estando no activo, não me chateiem e me deixem realizar aquilo que sei fazer: dar aulas, vender sonhos, produzir investigação e cumprir a minha missão, livre das golpadas politiqueiras e dos joguinhos de poder dos revolucionários frustrados que brincam à persiganga com os seus moscas, formigas, bufos e quejandos. E de nada valem gritos de revolta, mesmo quando são reduzidos a escrito e enviados institucionalmente a quem de direito, como ainda há dias o fiz ao meu reitor e que, por enquanto, calo. Manda quem, na semana passada, dizia que eram irresponsáveis os que pediam o abaixamento dos impostos para, logo a seguir, serem eles a virar o bico ao prego. Quando estes exemplos vêm de cima, todos praticam o enquanto o pau vai e vem folgam as costas...


PS: Fiquei satisfeito ao saber que a velha Guimarães ficou nas boas mãos do Paulo Teixeira Pinto se o Paulo for fiel ao Paulo que eu conheci como jovem pensador. Como também me emocionou ver o meu Presidente na Ilha de Moçambique. Ficaria ainda mais feliz se me ajudassem a encontrar um lugar onde, para poder continuar a ser homem livre em universidade livre. Dentro de minutos só poderei dar meia hora de aula, porque terei de ir a mais um douto conselho de doutos, um dos últimos a que terei a obrigação de assistir, dado que, felizmente, os próximos estatutos os deixarão aos que se querem candidatar ao dirigismo dos profissionais da representação e dos senhores da guerra, a que renuncio, com todo o prazer.

26.3.08

Na terra do leitinho com mel...


Pronto! Já saimos da encruzilhada e passámos a viver num oásis, neste país do leitinho com mel. Sócrates foi explícito: a crise orçamental de 2002, que voltou em 2005, está ultrapassada e os factores que a motivaram estão também resolvidos com as mudanças estruturais feitas no país. Um secretário de Estado da cinco de Outubro disse que a violência das escolas vem de fora para dentro, dos bairros para as salas de aula, desmentindo o PGR. Por seu lado, o director-geral de consumo clamou contra a DECO que, de forma alarmista, reconheceu que há cem mil famílias super-endividadas.


E todas as estatísticas mostram como a criminalidade diminuiu. Mesmo a Autoridade da Concorrência, que fez outro tipo de estatística, demonstrando como temos os combustíveis mais caros da Europa, já foi toda ela despedida e ainda não bem paga. Por outras palavras, uma frente de combate propagandística, liderada pelo chefe e glosada pelo sim-senhorismo dos "boys" postos em subchefes, nomeadamente como directores-gerais, depois da mobilização do comício nacional do Porto, saiu do sistema do pé-atrás e passou a um ostensivo sistema de pôr-se em bicos de pés, assim demonstrando como a esquizofrenia nos vai afogando entre o tudo do situacionismo e o nada do oposicionismo. Daí apreciar gestos simbólicos, nomeadamente a maneira ágil como o casal presidencial visitou Moçambique, com muito kanimbambo, assim combatendo alguma tugofobia que marca certas elites locais que não gostam de subir a coqueiros.


Com o Sporting e o Benfica em crise de falta de vitórias, com os dragões a verem o chefe a ir a julgamento, acusado de corrupção activa, e com a selecção nacional a ver-se grega, a falta de vertebração simbólica da república em torno da mobilização para o bem comum faz-nos descer de nível, conduzindo a um abaixamento de fins e, consequentemente, de níveis de controlo social, com o inevitável neofeudalismo, onde o povinho vai caindo no desespero do recurso aos expedientes caciqueiros e de encomendação. Basta que saibamos observar o país a partir do Minho profundo, compreendendo como ainda têm prestígio as lideranças locais das autarquias, da igreja e da partidocracia, dado que prestam efectivos serviços comunitários, nomeadamente de resistência contra o vazio de república.


Sócrates e o seu regime de secretários de estadão e directores-gerais talvez não tenham reparado que a macropolítica já não é o que era. E que a grande engenharia do controlo social talvez tenha perdido as suas medidas de análise. Não basta a ASAE, a DREN, a DGSaúde, a DGCI e o regime das viúvas em bate-palmas a George Clooney. Logo, os que auguram um desastre a Luís Filipe Menezes talvez não entendam que estamos numa encruzilhada, onde a federação das micropolíticas pode gerar um estado de esquizofrenia, com saídas imprevisíveis, não detectadas pelos mecanismos das sondagens.

25.3.08

Do controlo dos casórios ao 1,67 euros por multa, ou a necessidade de revisão da concordata e do estatuto da ordem dos advogados, neste "yes, we can"


O senhor fisco, que neste momento tem um qualquer santos como pseudónimo ministerial, decidiu atacar a festança dos casórios, pedindo aos noivos aquilo que a polícia estadual deveria investigar pelos seus próprios meios. Corremos assim o risco de todos os potenciais nubentes assumirem os nós de forma clandestina e que não se cumpra a Concordata no tocante à transcrição dos casamentos canónicos. A não ser que se faça mais uma revisão do tratado internacional de 1940, revisto em 1975, obrigando-se os senhores bispos, cónegos e párocos a uma denúncia à máquina fiscal, não apenas nos casamentos, mas também nos baptizados, nas festas das padroeiras e, sobretudo, nos funerais que tenham urnas, bem como comes e bebes.


Consta que jovens empresários de alto potencial imaginativo já trataram de contratar um navio do amor que, posto fora das águas territoriais, seja capaz de entrar em regime de “off shore”. Com efeito, não é através do direito das circulares e da gorda que se elimina a economia paralela entre empresários da restauração e organizadores de eventos. É simplesmente estúpido que a “longa manus” do Leviathan ameace incautos nubentes com nebulosas sanções, não tipificadas legalmente.

Não chega que um ajudante do pseudónimo ministerial venha, mui piamente, reconhecer alguns excessos de linguagem dos serviços regionais lá para o Norte Interior, desses que estão habituados ao pague primeiro, proteste depois, quando deveriam ser lembrados que já não vivemos em absolutismo, nem em ditadura das finanças. Aliás, até um secretário de Estado, que é o representante do povo junto do Estadão, nunca pode assumir-se pelo inverso, fingindo para o microfone, que é agente anónimo dos poderes estabelecidos por séculos de inquisitoriais inversões do ónus da prova. Entre o indivíduo e os poderes, apenas devo concluir que o justo não pode continuar a pagar pelo pecador.

Por outras palavras, seria melhor pensarmos em coisas bem mais sérias, nomeadamente nas consequências demográficas desta e doutras tolices. Nestes tempos de sondajocracia e de quotidianos estudos de opinião, seria bem útil repararmos que o pior da nossa crise não está apenas nas medidas do desemprego, mas na drástica diminuição dos nascimentos em certas zonas do Portugal profundo, nomeadamente no distrito bracarense.


Até lá, o Estado, influenciado pelas notícias norte-americanas que protestavam contra não-funcionários que consultaram os registos dos passaportes dos candidatos presidenciais, preferiu, para as multas de trânsito em risco de prescrição, aceitar 680 candidaturas da Ordem dos Advogados - em apenas seis dias -, escolhendo dois advogados coordenadores, 20 executores e 10 estagiários, por três meses renováveis, pagando à peça, isto é, se um jurista separar 1000 processos todos os dias ao longo de um mês (com 21 dias, excluindo fins-de-semana), ganha 1050 euros, isto é, 1,67 euros por cada multa
Esta coisa baratinha do "outsourcing", que, certamente, não vai prestigiar o nome da advocacia e da função pública, quase equivale ao trabalhinho concedido aos computadores portáteis da EMEL e das empresas subalugas que a mesma usa... Por outras palavras, lá regressamos aos tempos de antes do Mouzinho da Silveira, voltando aos romanos publicanos, só por causa do triunfo dos fariseus... Seria prudente recordarmos que as perseguições sociais aos judeus, na Idade Média, resultaram precisamente da circunstâncias de os reis alugarem a máquina de recuperação de impostos a tais cobradores de fraque. Esperemos que o bastonário da Ordem dos Advogados, em nome da luta contra o desemprego, não caia na asneira de permitir que tais recrutados pelas asneiras do PRACE usem o nome de uma classe que nunca se confundiu com a missão dos ditos publicanos. Desconfio até que tal missão não tem cobertura no Estatuto em vigor, por muito que custe aos remuneradíssimos gestores públicos da nova autoridade rodoviária que instrumentalizam o excesso de licenciados em direito que nos States nunca poderiam consultar tais processos, mas aqui vivem na tradução em calão do "yes, we can".

24.3.08

Rezar é pensar no sentido da vida



"O mundo contém uma problemática, a que chamamos o seu sentido. Ora, esse sentido não se encontra no mundo, mas fora dele. Ao sentido da vida, ou seja, ao sentido do mundo, poderemos chamar-lhe Deus. Rezar é pensar no sentido da vida" (Wittgenstein). Sim! Éramos às dezenas num desses quaisquer museus com longas e duráveis pedras de inaugurados por suas excelências o presidente, o primeiro, o ministro e o autarca, por patacas de um qualquer mecenas, só para terem o nome desafiando o fugaz do financiamento partidário ou os tostões dos caciques das redondezas e dos dirigentes da futebolítica.
Éramos às dezenas, num qualquer museu, diante de restos do passado que os actuais seleccionadores do bom gosto deceretaram como arte consagrada. Leio a frase de Wittgenstein: "O mundo contém uma problemática, a que chamamos o seu sentido. Ora, esse sentido não se encontra no mundo, mas fora dele. Ao sentido da vida, ou seja, ao sentido do mundo, poderemos chamar-lhe Deus. Rezar é pensar no sentido da vida". Releio.
Na vitrina da sala ao lado, uma página inteira do jornal português de maior circulação, na década de sessenta do século XX. Em duas colunas, perdidas na secção de sociedade, noticia-se que o agora artista consagrado foi notícia em Paris, porque, numa exposição fez uma adequada instalação de uma cadeira e de um caixote para a recolha do lixo, aquilo que os coimbrinhas chamavam "jacob", porque um tal autarca, doutorzinho com este nome, o tornou obrigatório e em metal pesado.
Nesse mesmo jornal, é notícia com direito a foto, o facto de estivadores alfacinhas decidirem não descarregar um navio sueco. Estocolmo era considerada inimiga de Portugal, pelo apoio dado aos terroristas. Mais abaixo, quase escondido, um comunicado das forças armadas dava a notícia da morte de um soldado, algures no Niassa. Vinha o nome dele e dos pais. "O mundo contém uma problemática, a que chamamos o seu sentido. Ora, esse sentido não se encontra no mundo, mas fora dele. Ao sentido da vida, ou seja, ao sentido do mundo, poderemos chamar-lhe Deus. Rezar é pensar no sentido da vida".
A história dos vencedores continua a vencer, tanto como os seleccionadores do gosto, nomeados pelos mecenas. Os mesmos que também financiam os autarcas e os partidos políticos, donde, com sorte, pode sair um primeiro-ministro ou um ministro. Os mesmos a quem poderemos conceder o direito a placa de pedra. O soldado morto não passa de anónimo, das malhas que o império tece. Eles, os que financiam, passaram da refinação da cana e do pitrol para os grandes investimentos da integração europeia, onde, por enquanto, não há malhas que o império teça, a não ser nas chatices do Iraque e do Kosovo. "Make war, not love".
O jornal de anteontem trazia a confissão do piloto alemão que abateu o caça de combate tricolor onde seguia Antoine Saint-Exupéry. E um artigo sobre a tugofobia em Moçambique. E outro sobre um assunto que ainda não comentei, o financiamento em mil contos de um candidato a autarca em Loures, por um ex-ministro das finanças do CDS, com quem também já almocei, mas em grupo alargado, sem ser para lhe meter cunha. Apenas o achei um gajo porreiro. "O mundo contém uma problemática, a que chamamos o seu sentido. Ora, esse sentido não se encontra no mundo, mas fora dele. Ao sentido da vida, ou seja, ao sentido do mundo, poderemos chamar-lhe Deus. Rezar é pensar no sentido da vida".

23.3.08

Longe da pequena pátria, nesta ilusão de exílio procurado

Vivendo a chegada da primavera, bem longe da pequena pátria, a que os capitaleiros reduziram o que foi a cabeça do reino, fico a saber, pelas notícias da net, que um qualquer "video" de telemóvel levou a que voltasse à discussão pública a autoridade do professor, coisa que já existia antes de Sócrates não querer remodelar a Professora Doutora Maria de Lurdes Rodrigues e antes de Renato não sei quantos organizar um comício de apoio à avaliação dos professores do pré-universitário e querere controlar os "piercings" e as tatuagens, bem como o encerramento de hipermercados em feriados da Páscoa, para que os turistas espanhóis possam percorrer o comécio tradicional.

Fiquei também a saber que os sadinos derrotaram a muita tranquilidade de Paulo Bento, que a Autoridade da Concorrência já é outra e que houve peixeirada num órgão de soberania, quando o respectivo dirigente máximo visitava as nossas tropas no Afeganistão.

Dei-me por feliz por poder ter a ilusão de haver um intervalo de exílio procurado, sem ter que me cruzar com as casinhas autárquicas "made by Socrates" e executadas por um qualquer agente técnico de engenharia civil recentemente nomeado director-regional de agricultura e pescas da Beira Interior, talvez para controlar as secas do ex-"fiel-amigo" das encostas da Gardunha, onde também há cerejas por cima do túnel. Espero apenas que o senhor Estadão, à boa maneira do António Bernardo da Costa Cabral, esteja disponível para controlar o acto de pôr brincos nas orelhas dos nossos bébés do sexo feminino...

18.3.08

O situacionismo, como uma ampla coligação da direita dos interesses com a pretensa esquerda moderna


Entretido que tenho andado com o estudo dos meandros das nossas guerras civis da Primeira Dinastia, com directa intervenção da Europa feudal e das estruturas eclesiásticas que o papa comandava à distância, apenas reparo como o partido dos fidalgos, ou partido senhorial, continua a subverter a autoridade pública. Noto também coincidências feudais dos esquemas caciqueiros da partidocracia com as velhas fraquezas lusitanas, plenas de encomendações, entre a Dona Maria da Cunha e o mais global processo da compra do poder, num tempo em que os barões já não são assinalados pelas missões de serviço público.


Sócrates e Menezes, donos de duas grandes federações de grupos de interesse e de grupos de pressão, infra-estrutura social em que se apoiam as duas secções nacionais de duas grandes multinacionais europeias, vão aquecendo os motores para a campanha eleitoral, fingindo que são homens comuns, numa série de entrevistas que a Raquel Alexandra da SIC excelentemente protagonizou, para nos fazer esquecer a maior crise bolsista desde a Segunda Guerra Mundial. E lá nos vamos entretendo com as questiúnculas palacianas dos adversários do senhor de Vila Nova de Gaia, ou com o mais recente apoio ao socratismo, vindo do grande advogado de negócios, Daniel Proença de Carvalho, o tal que Sá Carneiro chegou a qualificar como ministro da propaganda de um certo governo eanista, feito de dissidentes do PPD.


Curiosamente, as parangonas televisivas anunciavam-no como histórico do PSD, quando, segundo consta dos registos curriculares, ele foi do PCP e, depois de Abril, militante do PS, apesar de certos meios da CIP o insinuarem como potencial presidente do CDS, antes do regresso de Diogo Freitas do Amaral. O elogio que fez ao situacionismo apenas confirma como o dito cujo, liderado por Sócrates, se assume como uma ampla coligação da direita dos interesses com a esquerda moderna, o que pode constituir um excelente estímulo para o populismo do presente PSD se assumir como animal acossado e animal feroz, coisa que pode levar-nos a sair do cinzentismo, aumentando a necessária excitação do risco.

17.3.08

Quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar...


O homem é o único animal que discursa, tal como é o único animal que sabe rir... Dizia-se isto no tempo em que não havia teleponto, telemóvel e televisão, quando discurso ainda tinha a ver com a dimensão "logos", isto é, com a razão, com a palavra posta em comunicação, onde a complexidade dos músculos que permitem a gargalhada até levava Bergson a concluir que não há nada de cómico fora do que é propriamente humano. É que o cómico nasce quando os homens reunidos em grupo voltam a sua atenção para um deles, calando a sua sensibilidade e exercendo só a sua inteligência.


Assim, tenho de recordar José Ortega y Gasset, para quem quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar. Porque para falar tem que mentir. E o homem que aparece antes de mais entregue ao exercício intelectual não tem o direito de mentir.


Não, não estou a pensar no Dalai Lama e nos actos de policiamento dos chineses sobre o território tibetano, sob a soberania de Pequim. Não vou continuar a dizer que a "perestroika", que nos dá lojas de trezentos, jogos olímpicos, comércio, diplomacia, casinos e fundações do oriente, pode ser interrompida pelos incómodos da "glasnot".


Os mil e duzentos metros quadrados do pavilhão bem ginasticado não são um salão do Portugal dos Pequeninos, onde se prometia a baixa dos impostos, a redução das prestações sociais, o aumento da carga fiscal. Abaixo os sindicalistas, os funcionários públicos, os professores, os magistrados, os farmacêuticos, os médicos, os notários, os enfermeiros. Estamos contra todos, mas não estaremos contra todos ao mesmo tempo, nem deixaremos de comprimir os chamados direitos adquiridos.


Prefiro convidar os portugueses a espreitar para o "hall" da minha casinha, que não foi desenhada quando eu apenas era desenhador na autarquia da serra da estrela. Esqueçam o espelho com moldura dourada, esqueçam que não vos apresentei os meus pais, os meus filhos e a minha namorada, como fez o outro. Nem sequer vos convido para se sentarem no sofá da sala. Apenas uma biquinha no café da esquina, que os meus assessores de comunicação hão-de pagar.


Não estou para aturar intelectuais que não aceitam reconhecer o Pinto Ribeiro como nomeador, os tais que recordam os actos de tirania dos mitificados príncipes perfeitos e que continuam a dizer que as luzes da iluminação especulativa não devem assentar na rotina do despotismo. O Charrua que se lixe. A tipa de Vieira do Minho que se esqueça, o Balbino que gaste o dinheirinho com o Zé Maria Martins. Um reformador como deve ser pode continuar a ter os muitos pés de barro dos muitos directores-regionais do Norte e do Sul, essses aparelhismos verbeteiros dos micro-autoritarismos sub-estatais, com direito a advogado e a avençado pago pelas verbas do orçamento de Estado contra os protestantes, huguenotes e quejandos.


Qualquer João Figueiredo sabe para que servem as meras rodas dentadas do anónimo mecanismo do Leviathan e do PRACE. O Estado é isto, meus senhores, a abstracção de um discurso de estadão, no tempo da "folle du logis" e da "teledemocracia". Os indivíduos, infelizmente, são meros elementos fungíveis de uma tabela estatística que suporta as regras das sondagens e dos estudos de opinião pública.


Aliás, quanto mais à esquerda se pensa o poder, mais ilusão têm os detentores do mesmo quanto à bondade dos meios que utilizam, dado que se deixam enlevar pela altitude dos fins que julgam prosseguir. Os tais instrumentos ditos inquisitoriais, com excessos ditos purgas, porque os chefes e engenheiros de almas, abrasados pelos fins dos superiores interesses do país, se desleixam das correias de transmissão e das rodas dentadas do Estado-Aparelho.


Se os chefes têm, com eles, a doutrina, nenhuma parcela da força do estadão lhes pode fugir, e todos os opositores que não queiram comer à mesa do orçamento passam à categoria de filhos das trevas. E este é o país do rigor, da competência, de mais qualidade, de mais qualificações, de modernização, onde, infelizmente, até nos acusam de irmos depressa demais. Quando o país estava atrasado demais, parado demais, sem compreender a urgência da mudança. O mundo está a mudar e os país tem de mudar com o mundo.


Nós, chefes, somos a força da modernização, o futuro que precisamos de construir e não somos dos que vão para onde sopra o vento, atrás de qualquer protesto. Nem sequer somos dos que alimentam a descrença e fomentam o pessimismo, como dizia Marcello Caetano, antes de ser metido na Chaimite. Somos o partido progressista de Portugal. Temos connosco o Jorge Coelho, que bem sabe fazer oposição à oposição, sem se comprometer com apoios à Maria de Lurdes. Temos o princeps Almeida Santos, que sempre apoiou a Ota por causa das pontes que podem ser dinamitadas por terroristas e que ainda é capaz de juntar cem mil pessoas na rua.


Nós somos o novo estado, o rigor, a modernidade, a Europa, o mundo, a competência, o aborto, a luta contra os berloques na língua, o Lemos de Castelo Branco, o Teixeira dos Santos, o Mariano Gago, o Santos Silva, mesmo que já não sejamos o Campos Cunha, a SEDES, o Freitas do Amaral. E até podemos vir a ser o Vital Moreira, o José Miguel Júdice e o Pedro Mexia. Somos como sempre fomos, o Costa Cabral, o Fontes Pereira de Melo, o Afonso Costa, o António de Oliveira, o Cavaco Silva, mesmo sem uma ideia de Portugal e sem uma ideia de Europa. Mesmo sem qualquer ideia de ideias.


Por mim, voltando a Ortega, apenas repito: reivindico inteiramente o direito de me manifestar tal como sou. Ingresso na política, mas sem abandonar um átomo da minha substância... Reclamo o pleno direito de se fazer uma política poética, filosófica, cordial e alegre. Outra coisa seria coarctar-me injustamente.

13.3.08

Este gajo é um anarquista e ainda diz que é de direita


Depois de muitos prós e contras sobre os prós e contras, que aqui naturalmente não transcrevo, porque, de narciso, se tenho algo, não é o espelho, apenas posso concluir que, nesta encruzilhada, continuamos sem lei nem rei. Por isso, registo, graças ao Estado Sentido, fiquei a saber que o meu querido Medeiros Ferreira me qualificou desta forma: "este gajo é um anarquista e ainda diz que é de direita". Ao contrário do que alguns, que não me conhecem no quotidiano, podem crer, adorei este carinho. E digo-o sem ironia. Que saudades, eu tenho da longa viagem que fizemos ao Brasil, para uma série de conferências sobre a memória dos impérios, em que houve dueto de unidade na diversidade, num profundo amor à pátria e à liberdade e, no fim da qual, me converti em admirador sincero deste ex-ministro dos estrangeiros.

Apenas me apetece acrescentar, como Salvador Dali, "anarquista, pero monarquico". Isto é, toda a liberdade para o indivíduo e para a sociedade civil se, na cúpula, existir a procura da chave da abóbada. Quanto a essa da direita e da esquerda, eu que gosto de fingir que estou naquela esquerda da direita que mais se afasta do centrão, prefiro o centro excêntrico dos radicais liberais e, no rescaldo do debate, apenas me apetece continuar a dizer, muito aristotelicamente, que a poesia é mais verdadeira do que a história...


Infelizmente, a guerra civil historiográfica e as suas sucessivas literaturas de justificação ainda mantêm um certo clima de guerrilha fria ideológica que não nos permite convergir em divergência, para atingirmos a necessária emergência... Como isto dava muito pano para outras tantas mangas, fica esta pequena anotação e uma fotografia com que quero provocar o meu colega politólogo com quem estive de costas voltadas, para podermos continuar unir o que anda disperso...


Já agora, concluo, aconteceram-me duas coisas que me encheram as medidas do orgulho académica. Um telefonema de um velho colega, retirado há quase uma década, o Políbio Valente de Almeida, e uma voz vinda do Brasil, outro mestre, António Paim. Daí que, sentado no meu gabinete, tenha verbalizado por escrito o que, dias antes tinha dito ao meu reitor e que na véspera tinha dito de viva voz a todos os estudantes, "a aula é mais importante do que o capítulo", o poder passa, a autoridade fica. Isto é, despedi-me de uma função que exercia, mas que nunca invoquei ter, nem aqui, neste blogue. Agora estou mais livre, porque, como dizia Pessoa, também eu faço parte daqueles portugueses que ficaram desempregados depois da descoberta da Índia.


Não vou revelar pormenores de um texto em que começo por dizer que "há cartas que têm de ser manuscritas, mesmo quando são oficiais, porque também estas não podem perder a alma" e que há actos que não são de protesto, mas de revolta, especialmente quando "cheguei à conclusão que não consigo continuar a viver institucionalmente como academicamente penso. E que, não podendo mudar as regras e as "policies" que me provocam objecção de consciência, prefiro continuar a missão de viver como penso sem pensar como vivo". Logo, concluo que "já não tenho disponibilidade para agravar o problema e já não creio que possa fazer parte da solução". Os pormenores são de cozinha doméstica, pouco adeuados à presente necessidade de celestial, porque quanto mais os pés se perdem na lama, mas apetece erguer os olhos para as estrelas, para que a metafísica dê alente a quem quer aquele mito que traz, para a terra de todos os dias, a força subversiva da justiça.



PS: A imagem fui roubá-la ao computador do meu filho Francisco Miguel... E nada explica sobre os meandros da relação da Associação Portuguesa de Ciência Política, de que fui um dos fundadores, com outro meu colega, também fundador, membro do grande conselho ducal e monárquico. Um dia contarei. O actual presidente, na foto, não foi fundador e, ao contrário do que pode parecer, é um grande companheiro. Os vermes são outros. São republicanos às segundas, monárquicos às terças, católicos às quartas, fingidos maçons às quintas, chineses às sextas, portugueses aos sábados, situacionistas, aos domingos e sempre. Daí que, nele e neles, trate de saudar os vencedores, os tais que não sabem que vencer é ser vencido.

12.3.08

Sem simbolismo e com muita ironia, voltemos à vaca fria...


Imagem picada em Vox populi


Voltando ao tempo que passa sem saudades de futuro, lá tenho de contabilizar Sócrates e dizer sobre o sistema o que, aqui, tenho vindo a dizer: que o PM corre o risco de ser uma espécie de coveiro do sistema, dado que se tem vindo a confundir o sistema com o regime, criando-se um modelo onde só há alternância dentro do bloqueio central da partidocracia, não havendo as alternativas necessárias, nomeadamente a alteração dos partidos, como fizerem, na última década, todos os nossos imediatos vizinhos territoriais e económicos da Europa Ocidental.


Podemos vir a ter uma espécie de democracia sem povo, dado que todos os militantes activos de todos os partidos nem metade dos professores manifestantes conseguiriam mobilizar. Não assumem que vivem um situacionismo de bonzos, canhotos e endireitas com sinais inequívocos de amplas zonas de ditadura da incompetência, como se dizia no crepúsculo da Primeira República, mas onde também já não há a saída da mudança de regime pelos enviados da cavalariça ou da sacristia.


Estamos entupidos, sem saídas para as colónias, como aconteceu nos tempos do regicídio ou do 5 de Outubro, ou o encontro com o D. Sebastião da integração europeia, como sucedeu depois de 1974. Isto é, temos de viver com aquilo que temos e não sabemos organizar o trabalho nacional pela meritocracia e pela justiça de tratar o desigual, desigualmente. E Sócrates, Menezes e Portas não são causas. São meras consequências que deveriam ser tratados como sintomas para a urgente regeneração de uma política, onde a maioria dos factores de poder já nem são nacionais.


Aliás, hoje, o JN traz pedaços do que há mais de uma semana declarei: se o primeiro-ministro adoptar "medidas de grande fulgor e não de penso-rápido, talvez ainda capte o um milhão de eleitores do centrão político ". Uma força de elite para o combate ao crime de colarinho branco para travar o sentimento de impunidade nos crimes de corrupção é um outro conselho deste especialista.


Se o primeiro-ministro adoptar "medidas de grande fulgor e não de penso-rápido, talvez ainda capte o um milhão de eleitores do centrão político ". Uma força de elite para o combate ao crime de colarinho branco para travar o sentimento de impunidade nos crimes de corrupção é um outro conselho deste especialista.


Até admito, ironicamente, que Sócrates faça um golpe de asa e proceda a uma remodelação 'in extremis', ainda antes de 2009, para conquistar o Centrão. Indo "arranjar alguns ministros de Direita", como fez com Freitas do Amaral em 2005. Maria José Nogueira Pinto ou José Miguel Júdice.
PS:
Um aluno meu decidiu, hoje, elaborar um manifesto e, do seu bolso e mãos, fotocopiou-o e distribuiu-o, até por "mail". Não vou transcrevê-lo aqui, porque ele é muito feito daquelas circunstâncias que, fora da endogamia do claustro, não são passíveis de descodificação, porque ninguém conhece certas espécies exóticas da botânica tribal. Mas não posso deixar de o saudar e de transcrever a última parte. Obrigado, Bruno!


Não me deixes dormir
Nem me deixes acordar
Deixa-me só
saber sonhar

Não o sonhar de quem foge
Não o sonhar de dormir
É o sonhar de querer hoje
Um mundo urgente a construir

Sonhando preparo
Preparando faço
O que há a fazer

Se não o plantarmos
Como o poderemos colher?

11.3.08

Muito republicanamente monárquico...



Bem me diziam ontem, em pleno debate, que eu corria o risco de ficar de mal com os republicanos, por amor ao rei, e de mal com os monárquicos, por amor à república, só porque manifestei publicamente a minha identidade de sempre, alcançada bem antes de Abril de 1974, quando nasci para a política militante do nacionalismo místico, em adesão à lista da CEM de 1969. Os primeiros embates vieram naturalmente de quem se esperava, de um "site" que se diz oficialmente associado ao Instituto da Democracia Portuguesa do meu amigo Mendo, só porque tive a ousadia de falar na utopia, dizem. Quando tudo foi um exercício de simbologia política, até nos sinais que usei para homenagear o 1 de Dezembro de 1640, o 24 de Agosto de 1820 e o 24 de Julho de 1833.

Por mim, confesso, quis falar no paradoxo, de forma mais ou menos maiêutica, assumindo a velha mas não antiquada tese de uma república com rei e salientando a necessidade de, em primeiro lugar, restaurarmos a república, usurpada que continua a ser pelo estadão, por certa teocracia e por muitos negócios, acabando transformada neste híbrido do estado a que chegámos. Recordei que os piores dos totalitarismos do século XX foram repúblicas e que as melhores repúblicas de hoje são monarquias democráticas, com duas delas a voltarem ao rei depois de terem sido repúblicas, como o Reino Unido, após a cromwellada, ou os Países Baixos.
Não falei na ética republicana de Kant, esse monárquico, mas preferi recordar a ideia de regime misto de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, esses adeptos da "polis" e da "ideia de reino". Por isso é que, para comentar o que ontem disse, vou repetir texto que publiquei ... em 1989, em homenagem a quem sabe discordar em concórdia.

"Muito ortodoxamente fui interpelado por alguns monárquicos que estranharam a circunstância de, muito heterodoxamente, me dizer "realista republicano". Com todo o pragmatismo de quem não perdeu o sentido da aventura, posso observar que, no actual quadro político, não existe um problema de vértice do regime, existe um problema quantos às fundações morais de qualquer possível regime.

Porque, se, formalmente, não vivemos em monarquia também substancialmente não temos um regime republicano, segundo os ideais dos revolucionários da Rotunda.

Julgo pertencer ao grupo dos portugueses que, apesar de nunca se ter desligado da tradição monárquica, subscreve a exigência constitucional da "forma republicana de governo".

Com efeito, talvez seja capaz de dizer, com todo o cuidado literal e doutrinário, que foi alguém de formação monárquica que inspirou esse agregado de palavras. Aliás, julgo não poder haver nenhum doutrinador monárquico, dos clássicos aos contemporâneos, incluindo os próprios integralistas, que não defenda a monarquia como forma republicana de governo.

Em abono desta afirmação, poderia, aliás, começar por invocar Francisco Suarez e depois passar aos clássicos do tradicionalismo contra-revolucionário e anti-absolutista, dado que todos eles assentaram as suas crenças consensualistas no pacto de associação e na consequente origem popular do poder.

Diria até que, para poder ser profundamente constitucionalista, teria que começar por reverenciar a matriz de todos os constitucionalismos modernos, que é o muito "res publicano" constitucionalismo da monarquia britânica, um constitucionalismo que nunca precisou do conceito de Estado nem do conceito de Constituição para ser a matriz de todos os Estados de Direito Democráticos dos nossos tempos contemporâneos.

E mesmo na nossa história portuguesa, talvez convenha dizer que, antes de haver as constituições monárquico-liberais escritas, nós já tínhamos sido, até à recepção do iluminismo absolutista, com o seu despotismo ministerial, um Estado Constitucional e, desse modelo de Constituição Histórica, ainda hoje poderíamos extrair muitas lições de consensualismo para alguns desvios absolutizantes do nosso tempo.

Até tivemos uma monarquia e uma constituição, as nossas tão esquecidas leis fundamentais, antes de se terem elaborado os conceitos de Estado Moderno e de soberania, nos séculos XV e XVI. Isto é, a organização política dos portugueses tinha não só uma espécie de Estado pré-estadualista como também um género de constituição pré-constitucionalista.

O facto de a Primeira República ter sido caricaturalmente parlamentarista e partidocrática, transformando o Presidente da República num simples instrumento do partido dominante , eleito pela "classe política" num colégio eleitoral, apenas provocou um vazio na simbologia máxima do Estado.

A partir do 28 de Maio e, muito principalmente, com a institucionalização do Estado Novo, através da Constituição de 1933, gerou-se um formal presidencialismo bicéfalo, onde efectivamente imperava o Presidente do Conselho de Ministros que, mesmo depois de abandonar a titularidade da "ditadura das Finanças", continuou a ser o efectivo "Princeps". O salazarismo, com efeito, liquidou em Portugal o dilema Monarquia/República, gerando um hibridismo que a dita III República, posterior ao 25 de Abril, ainda não conseguiu superar.

Com efeito, o estilo salazarista de chefia do Estado foi particularmente acirrado com o General Ramalho Eanes que, apesar de legitimado pelo voto popular, nunca se libertou de uma outra superior legitimidade: a de ser militar, a de pertencer a uma entidade que a si mesma se considera diversa da "sociedade civil".

Só com a eleição de Mário Soares se deu uma efectiva restauração da República a nível da chefia do Estado, uma restauração que, contudo, não foi feita contra os monárquicos nem marcada por sucedâneos cesaristas e que levou o próprio Duque de Bragança a qualificar a actuação de Soares como a de um verdadeiro monarca.

A monarquia em Portugal não foi derrubada pelo 5 de Outubro. A monarquia já tinha sido derrubada muito antes, tanto com o absolutismo como com o revolucionarismo de inspiração jacobina, e continuou a ser derrubada depois dessa data, com as subserviências face ao cesarismo e às ditaduras.

Porque a monarquia, como instituição de direito natural, apenas existe quando a instituição tem efectiva legitimidade, isto é, quando ninguém a discute e todas a praticam como instituição viva, tão natural como o ar que se respira ou a nação que todos os dias se plebiscita.

Com efeito, não haveria monarquia em Portugal, nos termos da legitimidade das velhas leis fundamentais, se, por exemplo, através de um referendo, a maioria absoluta ou a maioria qualificada da população optasse pela monarquia.

Enquanto a ideia monárquica continuar factor de divisão entre os portugueses, enquanto continuar vivo, mesmo que minoritário, um partido republicano, a monarquia nunca poderá conquistar a legitimidade. A monarquia não existe se depender da obediência e não do respeito. Só existe monarquia se o rei for tão natural como a família, sem estar dependente dos factores da conjuntura. Por isso é que a existência de partidos que se qualificam como monárquicos continua a ser um dos principais atentados contra a própria ideia monárquica em Portugal.

Do mesmo modo, será impossível qualquer instauracionismo monárquico se persistir na opinião pública a confusão entre a ideia monárquica e o aristocratismo, muito principalmente daquele que continua a ser ostentado por certos aristocretinos da nossa praça, maioritariamente descendendentes da falsa fidalguia do baronato devorista, que usurparam os títulos através da especulação financeira e dos golpes partidocráticos.

Na verdade, qualquer instauracionismo monárquico só seria viável se a política portuguesa voltasse de novo a ter aquela necessária temperatura espiritual geradora de efectiva legitimidade e de democráticos consensos populares. Enquanto a política que temos continuar a traduzir em calão os discípulos de Maquiavel, o monarquismo corre o risco de não passar de emblema para certas castas falsamente monárquicas e que são as verdadeiras responsáveis pela efectiva não popularidade da ideia de poder real em Portugal.

Diria, pois, à maneira de Fernando Pessoa que, apesar de sempre ter sido monárquico, se houvesse, agora, um referendo sobre a questão, teria que optar pela República para defender os verdadeiros princípios monárquicos".

10.3.08

Dos carneiros feitos deuses, à arte de governar pela persuasão e pelo consentimento, dita arte política, quando já ninguém lê Platão


Belos tempos eram aqueles quando este rebanho de carneiros tinha um deus-pastor que nos guiava a todos e até nem precisávamos da arte política, desta coisa que apenas surgiu quando os homens começaram a ter que tomar conta deles próprios, vivendo um tempo de desordens e de injustiças, até porque os pastores governamentais e presidenciais já não são deuses, mas da mesmíssima espécie que o resto do rebanho. Por outras palavras, Maria de Lurdes é tão da raça rebanhal quantos os cem mil membros da classe que, contra as políticas que ela personifica, se manifestaram, comigo à mistura, porque há sempre alguém que resiste, porque há sempre alguém que diz não, nem que seja na rua, depois de o ter dito pela pena. Coitada da Maria de Lurdes, que é tão ovelha quanto Sócrates é carneiro, da mesma espécie de dois terços de uma classe que tem a força dos números, mas, segundo o grão-pastor, tão carneiro quanto os outros carneiros, não possui o "dossier" que lhe dá a força da razão.

Voltando ao Politikos de Platão, que estamos a reproduzir, neste interregno posterior ao despedimento de Camacho, se é possível o governo pela violência e pela opressão, como é timbre da tirania, também pode optar-se pela ordem e pela justiça, mais próximas daquilo que foram as nossas origens democráticas, utilizando a arte de governar pela persuasão e pelo consentimento, aquilo que o mesmo Platão qualifica como arte política. Uma arte de conciliar contrários, semelhante à do tecelão, onde reinar é fazer juntar e convergir grupos opostos de seres humanos e até qualidades contrárias, como a bravura e a doçura.

Aliás, se passarmos para outra obra de Platão, Nomoi, poderemos concluir que a política tem a ver com a tensão existente no comando que emerge de todas as leis, com essa forma mista que procura conciliar a coerção com a persuasão, onde se mistura a tirania própria dos escravos, na sanção, com a democracia, coisa própria dos homens livres, como acontece na exposição das razões constante do preâmbulo das leis. Porque só o governo das leis, desses comandos da recta razão, é que permite a paz, aproximando os homens do governo dos deuses.

Outro deve ser o conceito de razão do senhor ministro da propaganda nacional, com intervalos na relação com o parlamento, o ex-trotskista Silva que não esteve na Alameda, mas que disse ter sido tão antifascista que já não precisa de receber lições de liberdade de mais ninguém. Por outras palavras, segue aquela lei que levou o socialista Mussolini a fundar o fascismo, ou o socialista Laval a aliar-se, de forma colaboracionista, com os nazis, dado que estes também eram socialistas. Todos sabem que quem tem o poder tem o monopólio da palavra e daquele ilusionismo vocabular que faz os ministros, que têm a força do estadão, serem os donos de um cajado que confundem com a razão. Como se a razão da força alguma vez coincidisse com a força da razão. Como se apenas pudesse ter razão quem vence numericamente, até numa eleição, donde pode resultar uma maioria absoluta, tão aritmética quanto a de dois terços de uma classe numa manifestação, manifestando o seu direito à indignação.

Sócrates prefere as novas oportunidades de agências de "casting", distribuindo computadores, e já perdeu a paixão pela educação do governo Guterres, onde era ministro daquela co-incineração que ainda não ardeu. Logo, eles, os donos do poder, continuam a fazer maquiavélicos cálculos, típicos de todas as pequenas criaturas, desses pigmeus que não compreendem que só existem porque tomaram posse dos altos lugares do estadão.

E lá volto a Platão. Porque, a cada um dos regimes políticos, corresponde um certo tipo de homem. E todos eles apenas ocorrem dentro de cada um de nós, a partir da tensão entre a parte da alma que é dotada de razão e a outra a parte, a animal e selvagem. Porque existe, em cada um de nós, uma espécie de desejos terrível, selvagem e sem leis, mesmo nos poucos, de entre nós, que parecem comedidos.
Logo, há que fazer coincidir cada regime com o tipo de homem, porque o homem tirânico é feito à semelhança da polis tirânica, o democrático, da democracia e os restantes, do mesmo modo. Só pode, portanto, avaliar-se um regime como se avalia um homem, isto é, em pensamento. E só deve avaliá-los quem, em pensamento, for capaz de penetrar no carácter de um homem e ver claro nele.

Haveria assim três espécies de homens, o filósofo, o ambicioso, o interesseiro, movidos, respectivamente, pelo saber, pelo prazer das honrarias e pelo lucro. E dessa fricção é que surgiria a dinâmica dos regimes. Aqui, o padrão é o ministro Silva, palavra que, aliás, vem daquela selva onde os bons selvagens fazem parte das espécies em extinção... Prefiro ler Rousseau, porque este, ao menos, sempre traduziu em francês helvético, a carta do achamento dos índios, de Pêro Vaz de Caminha que Cavaco, feito D. João VI, anda relendo por terras da Guanabara, para dentro de dias regressar a um sítio onde há um governo de esquerda que pensa ter razão só porque tem mentalidade de direita...
PS: Logo, recebi convite para ir aos "prós e contras". Vou para a plateia, sentar-me do lado dos republicanos, para dizer que continuo monárquico, azul e branco, mas que só posso instaurar o reino, com rei eleito, como era típico das nossas leis fundamentais, se antes restaurarmos a república, dado que aquilo que temos, é o poder à solta, sem autoridade, a que damos o nome de estadão, ou de estado a que chegámos, tudo em minúsculas...

7.3.08

Sócrates tem de perceber que corre o risco de ser o coveiro do regime...


Ontem, depois da cotovelada do Cardozo, passei para a RTP1, onde a Judite navegava em grande entrevista com a Maria de Lurdes, numa conversa geracional bem interessante, de que não saí porque o Mantorras só mandou a bola para o fundo das redes da esperança nos últimos minutos. Adorei o respeito ministerial pelos professores seniores, mas, infelizmente, apenas posso opinar com base no conhecimento e com a pequena grande força do pensamento de homem livre, a quem não permitem a acção participativa na cidadania. Porque estou farto das endogamias vigentes neste deserto de ideias em que continuamos a degenerar.

A partidocracia dominante, com os seus sargentos verbeteiros, quando fazem requentados discursos contra os anteriores autoritarismos, começam a olhar-se ao espelho, porque, infelizmente, está a difundir-se uma espécie de ditadura da incompetência, contra a qual apenas se erguem algumas vozes tribunícias. Por mim, não passo de um simples analista opinativo, com falta de jeito para esta água mole do maquiavelismo...


Prefiro assinalar que, avaliação por avaliação, fui também ontem elevado à categoria de avaliador pela revista "Visão", tendo como avaliado o próprio governo, a quem dei a nota de 13 valores, no plano da estratégia política.

Mas acrescentei que ele tinha mais quatro valores do que o anterior governo, mas também menos quatro do que aquilo que precisávamos. A revista em papel apenas transcreve parte das observações que fiz, aliás com honroso destaque. Mas, porque mais disse, aqui deixo o resto.

"A medida mais emblemática, foi a da imagem de luta contra o défice, com a consequente encenação de reformador do Estado e da governança, procurando subliminarmente captar o ilusionismo macro-económico do cavaquismo, certa ditadura das finanças do salazarismo e o tradicional gnosticismo da herança pombalista, agora em versão "simplex".

A mais polémica tem a ver com o falhanço da luta contra o desemprego, dado que gerámos um proletariado intelectual (cerca de cinquenta mil licenciados desempregados e a geração dos recibos verdes) e a pouco revelada emigração de cérebros, através de um insensível processo de terceiromundialização.

A promessa por cumprir mais gritante foi a do não referendo sobre a alteração constitucional do tratado europeu, só porque o Tratado do Mar da Palha não se chama Tratado Constitucional.


Para tentar conquistar uma nova maioria absoluta, tarefa que se me afigura quase impossível, o essencial está em deixar de ser comandado pela sondajocracia e a tecnocracia dos estudos de opinião e refazer a confiança pública nos governantes. As actuais democracias contemporâneas, nomeadamente a portuguesa, estão sitiadas pelos inimigos do indiferentismo e pelo processo neofeudal da compra do poder, a que damos o nome de corrupção.

O governo precisa de uma rápida e profunda alteração psicológica, assumindo-se como campeão da luta contra a corrupção, para poder convencer os indecisos do centrão sociológico que vale a pena ainda votarem. Para tanto, importa que a médio prazo, a seis meses do acto eleitoral, lance uma remodelação que capte personalidades do PS que estão na última fila do parlamento e dos congressos, ao estilo de um Medeiros Ferreira, bem como direitistas independentes, ao estilo de um José Miguel Júdice, bem como "socratistas" como Vital Moreira ou Gomes Canotilho.
Em terceiro lugar, tem que continuar a alimentar este modelo de oposição de direita que convém à esquerda governamental, mantendo a dialéctica com o PSD de Menezes e o CDS de Portas, os inimigos convenientes.

Por outras palavras, num país onde as decadências duram décadas (a monarquia liberal desde o Ultimatum; a Primeira República desde o assassinato de Sidónio; o salazarismo desde as eleições de delgado), Sócrates tem de perceber que corre o risco de ser o coveiro do regime se não compreender que todos os nossos regimes não caem por causa das oposições, mas porque apodrecem por dentro. Logo, tem que dar a imagem que é capaz de renascer destas cinzas e dar sinais de fazer o exacto contrário daquilo que os comentadores instalados prognosticam. Tem que ser imprevisto e admitir um pouco de imaginação ao poder".


6.3.08

Continua a ser necessário, para a felicidade da política, que os filósofos sejam reis e que os reis sejam filósofos


Hoje estava para escrever sobre mais algumas das desventuras da Bielochina, o tal tempo sem ucronia e o tal lugar sem utopia, onde apenas podem ser cientistas os que são da academia bielochinesa das ciências e onde apenas podem ser de outro carimbo qualquer, os membros da "intelligentsia" que meterem cunha para participação nos estados generalistas do grupelho do sindicato das citações mútuas que os arrebanha, corporativamente, em bate palmas decretino, mesmo que as camionetas de reformados lhes encham as plateias, para imagem num minuto de telejornal. Contudo, depois de consultar a lista das notabilidades que ornam a classe dos inteligentes e homens de letras de tais oficiosidades, cheguei à conclusão que prefiro o clássico conceito epistémico, dos que ascendem ao céu dos princípios pelo esforço individual que fazem na procura da verdade que vislumbram nos reflexos da caverna e que, como tal, são reconhecidos pela silenciosa comunidade dos que pensam de forma racional e justa, independentemente do sectarismo das campanhas eleitorais, do pagamento de favores aos listeiros, do amiguismo, do clientelismo, do nepotismo e dos assassinatos de carácter, formas pelas quais se costuma manifestar a corrupção, ou compra de poder, entre aqueles que deviam seguir os ditames da "docta ignorantia" com os pés na lama do caminho, onde o mesmo caminho se faz caminhando por palavras e obras.


Ainda ontem tentava comunicar aos alunos que tudo começou com um pensamento exageradamente cosmológico, quando se fazia uma distinção absoluta entre o natural e o positivo, onde a natureza era perspectivada como um transcendente, como algo que se contrapunha a uma ordem criada por acção do homem, àquilo que o homem acrescenta à natureza, entendida como uma ordem confeccionada, exógena, artificial, como o puro resultado de uma construção.

Neste sentido, o natural não correspondia ao mero naturalístico, àquela natureza que os sentidos nos dão, configurando-se como uma ideia abstracta, como uma representação da realidade, esse algo de supra-sensível que Jürgen Habermas qualifica como uma suposição ontológica fundamental de um mundo estruturado em si.


Depois, vieram os sofistas, cerca de cinco séculos antes de Cristo, quando se deu uma viragem no sentido antropológico, reagindo-se contra os anteriores excessos metafísicos, mas caindo-se num excesso de sinal contrário, quando se negou a possibilidade do transcendente, muito em especial de uma justiça superior.

Também na Bielochina, há muitos que ensinam os rudimentos da lógica e da retórica, mas aceitando recompensas monetárias para fazerem discursos. Se reagem contra o pensamento cosmológico e fingem que são os representantes do pensamento antropológico, ao considerarem que o homem é a medida de todas as coisas, para utilizarmos palavras de Protágoras, ainda estão no sincretismo genético e acabam carregados de cepticismo. Exagerando na retórica, degeneram pelo abuso da chicana, passando a sustentar qualquer opinião, desde lhes paguem para discursar. Mais do que isso: cultivam a demagogia, sabendo que conquistar a palavra pode ser conquistar o poder.


Por mim, preferia que chegasse a urgente correcção ao cepticismo sofista, formulando-se a dialéctica natureza-positividade, com a distinção entre as leis da cidade e as leis não escritas, as tais que são estabelecidas pelos deuses e que vivem na consciência dos homens, aquelas mesmas leis que Antígona reclamava contra as ordens do tirano, no drama de Sófocles.

Porque o bom cidadão deve respeitar todas as leis escritas da cidade, incluindo as leis más, para que os maus cidadãos não sejam estimulados para o desrespeito das leis boas. Embora seja melhor, pela cidadania, lutarmos por leis menos más, mesmo que se mude de política e de ministro, porque, segundo a história, mantendo-se o sofismo, os sofistas e os sofismos, aquele paradoxo, infelizmente, só pode ser resolvido com o sacrifício do dissidente e do homem revoltado, como devem ser os professores. Os tais que têm que submeter-se às injustas penas de morte que lhes sejam impostas pelos criados dos donos do poder, porque aprenderam a justificar tal atitude com a consideração que mais vale sofrer uma injustiça do que praticar uma injustiça.

Mas seria bem melhor que a "polis" passasse a existir no próprio interior do homem, quando cada um procurasse o sem poder do quase-pária. Porque os da "intelligentsia" situacionista são marcados pelo triunfalismo, enquanto os sem-poder continuam a viver no crepúsculo dos vencidos da vida, entre mochos e corujas. Os tais que não são homens de sucesso, porque sabem que nada sabem e que vencer é ser vencido (Fernando Pessoa). A "polis" e a lei que a comanda têm que interiorizar‑se e que ascender a um valor de vida insuperável. Isto é, o superior deve poder ser determinado a partir do interior de cada um.


Atenienses, agradeço-vos e amo-vos, mas obedecerei antes aos deuses do que a vós. Enquanto possuir um sopro de vida, enquanto for capaz, não conteis que eu deixe de filosofar, de vos exortar e de vos ensinar. A cada um daqueles que eu encontrar direi o que habitualmente digo ‘Como é que tu, excelente homem, que és ateniense e cidadão da maior cidade do mundo e da mais famosa pela sabedoria e poder, como é que não tens vergonha de pôr os teus cuidados em amealhar dinheiro o mais possível e em buscar a fama e as honrarias, ao passo que não tomas qualquer cuidado ou preocupação com o teu pensamento, com a verdade da tua alma?’ (Platão, Apologia de Sócrates). Porque continua a ser necessário, para a felicidade da política, que os filósofos sejam reis e que os reis sejam filósofos (Platão). É por isso que, sendo insindicalizado e insindicalizável, irei à manifestação dos professores, dado que esta não consta que se realize no palco da feira das vaidades.

5.3.08

Contra nossos sociologistas profissionais, filhos das modas tecnocráticas e desse conúbio da sacristia com a cavalariça




Esta confederação geracional que nos governa e subdirige, neta do papão salazar e com euforias libertacionistas do maio 68 e do senhor prec, tem, sobre ela a carga dos colectivismos morais do catequista catolaico, entre retiros e acampamentos, e do esquerdo-comuna, baladeiro e cheguevarista. Ficou assim marcada por um desviacionismo do social e, portanto, incapaz de compreender a anomia do individual e, sobretudo, a multidão solitária. Logo, nem sequer tem asas para a imaginação sociológica e, sobretudo, para a imaginação politicamente científica, como nos provocava o ilustre sociólogo Gilberto Freyre...


Por exemplo, face a esta onda de criminalidade espectacular, a primeira conclusão que procura atingir é a de que não estamos perante uma qualquer criminalidade organizada, não reparando que estamos bem pior. Estamos perante o imprevisto de uma série de criminosos que actuam como indivíduos e que nem sequer estão socializados no crime por uma rede hierarquizada. E não há securitário da velha tropa que tenha estudado a criminologia que ensinava Eduardo Correia, com os seus devaneios sobre a culpa na formação da personalidade e a necessidade de reinserção social em vez de Guantanamo. Tal como na educação, quando falam em reformas e em avaliações, escolas e ministros, não compreendem que o essencial destes processos está na relação pessoa a pessoa e na procura da formação individual, sem retiros espirituais dos guerrilheiros congregacionistas, mas com alguma ratio studiorum.

Por mais bem elaboradas fichas que os especialistas em planeamento e objectivos consigam elaborar, nenhum esquema destes, susceptível de quantificação, é capaz de captar a realidade sem intuição divinatória, sem aquela ideia clássica de Verstehen que os neokantianos recuperaram do clássico processo da tópica. Os planeamentistas e sociólogos das organizações de marca neopositivista, bem precisavam de meia dúzia de inputs do cláasico perspectivismo que fundou a academia de Platão e o liceu de Aristóteles, desse peripatético que andava à volta de problemas, tirando-lhe o retrato de vários lugares, sem o estúpido manual de programação que tem a mania de conseguir o pré-capto em que se enreda o conceito, porque, desta maneira, os programadores irão transformar os instrumentos que deviam servir de meros remos para a embarcação do espírito em preceitos de um decreto hierárquico.

A educação só devia ter conceitos que escapassem à tentação dos preceitos. Ela devia assentar, sobretudo, nesse compreender, que sempre foi cum mais prendere. Porque compreender, em sentido etimológico, sempre foi apreender o conjunto, uma coisa com outra coisa e cada uma com o todo. A compreensão não é uma capacidade misteriosa do espírito de se confundir, por assim dizer, com outro espírito, de se projectar por um acto de intuição divinatória nos sentimentos de um outro. A metodologia da investigação submete-se às regras do rigor e da prova em todas as disciplinas que se pretendem científicas (Raymond Aron).

Até há uma sociologia compreensiva. Vem do velho Max Weber, quando tentou introduzir, nas ciências sociais, a chamada sociologia compreensiva, coisa que aqui nunca aconteceu como vaga de fundo. Porque compreender um facto social é mais do que explicá-lo. Passa pelo caso particular e pela média, mas também impõe a construção do tipo ideal e do caso puro. A compreensão ultrapassa, assim, a mera explicação causal.

Também Hannah Arendt distinguiu a compreensão da cognição. Se a compreensão, enquanto pensamento, procura o sentido e o significado dos objectos, já a cognição, enquanto conhecimento, tem como fim a verdade. Se o conhecimento procura a coisa em si, como salienta Kant, preocupando-se com o que algo é, já o pensamento preocupa-se com o que significa o facto de aquele algo ser. Pensar é repensar a experiência de um fenómeno e o verdadeiro pensamento não pode ser provado.

Será que os nossos sociologistas profissionais, filhos das modas tecnocráticas e desse conúbio da sacristia com a cavalariça vão voltar a assaltar a máquina educativa, reeditando essas manias do veiga-simonismo e do roberto-carneirismo, agora pintados da modernidade frustrada? Seria melhor relerem João de Barros, com o seu povo feito pátria, António Sérgio, com o velho Kant misturado no pragamatismo de Dewey, ou Leonardo Coimbra, com o seu Bergson aberto à complexidade spenceriana, antes de se transformarem em cobaias coreanas de certo reaccionarismo pós-moderno...

4.3.08

Notícias da Bielochina, uma ilha com lugar, governada pelos bastardos da utopia


Tenho um amigo que ainda tem de sobreviver na ilha da Bielochina, esse frondoso pedaço de mundo, que, desde o século XVI, foi povoado por galaico-portugueses e que se tornou independente do império otomano, depois das turbulências do fim da Grande Guerra, só alcançando a democracia, como região autónoma, nos anos posteriores ao fim da história da queda do muro. Coitado dele, que aceitou ser docente na universidade da coisa, dado que "todos temos as nossas apreciações sobre os tempos que passaram e os tempos que vivemos hoje. O mais importante é o tempo que nos espera."


Tenho um amigo que precisa de um espaço de exílio para poder continuar a lutar para viver. E ele não gosta de ilhas sem lugar, no não-espaço da utopia. Os ministros e directores da Bielochina, porque têm o monopólio da mesa do orçamento, sabem que assim podem comprar, um a um, todos os dissidentes e opositores. Aprenderam com a técnica do raposa, Rodrigo da Fonseca.
Mesmo na Grande Universidade da Bielochina, se o director, além de chefe dos contínuos, também é único director do único centro de investigação, ele tem, com ele, toda a burocracia e todos os intelectuais estadualizados pelos departamentos estaduais da chamada investigação científica, colocando devidamente os seus apoiantes no grande palco dos colóquios e no grande trabalho da doutrina publicada, depois de prévia autorização da estadual mesa censória.
Os outros, os que não se submetem, se ainda não estão no index dos livros proibidos, não são convidados para os grandes colóquios dos grandes anfiteatros e correm o risco de escrever para a gaveta. Até conheço um que, por ser académico de número, nem sequer recebe os convites a que têm direito os correspondentes, assim se oficializando a velha técnica do ostracismo, dado que o apedrejamento está proibido e já não se usam chagunços para a limpeza de corpos. Bastam sucessivos assassinatos de carácter, porque vale a pena o menti, menti, que, da mentira, alguma coisa fica...


Na grande universidade da Bielochina, a investigação depende dos burocratas, a avaliação depende dos burocratas, o livro do ponto depende dos burocratas, o controlo dos videos do "big brother" depende dos burocratas, e a lei é aplicada, com rigor, aos adversários e não aplicada aos apoiantes do chefe, conforme os ditames do totalitarismo doce e do governo dos espertos que até pode gerir a parecerística e os serviços forenses, pagos pela mesma mesa do orçamento. Porque o grande pequeno líder tem o monopólio da ciência possibilitada e o monopólio da palavra dos discursos públicos. Porque os camaradas todos passaram a comensais e esperam que também a eles se aplique a regra segundo a qual, na Bielochina, o importante não é ser ministro, é tê-lo sido.
Os cogumelos da Bielochina são o exacto contrário da academia de Platão, do liceu de Aristóteles e da corporação de mestres e alunos do século XIII. Ficam-se pela edição de bolso da dedução cronológica e analítica, a tal que proíbe o ensino dos repúblicos e monarcómacos, que são todos os que não gostam da monarquia pura. E apesar do anterior marquês já ter caído, o Zé Seabra, autor da dedução, passou para ministro do reino da viradeira e aliou-se ao intendente, essa caridosa figura que instaurou oficialmente a compaixão através da casa pia. O candidato a novo intendente vai teorizar dentro de dias sobre os novos caminhos do "Zeitgeist". E se morrer o dissidente, o comité central, para suprema humilhação do silenciado, até mandará o respectivo inquisidor produzir-lhe o elogio fúnebre, com tiradas sobre a luta contra a droga e colóquios camarários, de camaral escuridão. Porque o camarada deixou de ser homem livre e passou a cadáver, com as obras eternamente na gaveta.


Não é preciso nenhum recurso à teoria da conspiração no reino da Bielochina, inventando-se a conjugação de maçons, jesuítas, opistas e outros que tais, porque basta um relatório com carimbo em inglês, mui pretensamente científico, para que o combate ao terrorismo continue, através do terrorismo de Estado. Porque o Estado de Direito é fórmula que justifica o Estado de Legalidade, até porque a lei se reduz ao mero regulamento, onde todas as letras manuscritas se confundem com os caprichos e os fantasmas do príncipe, o tal que reprime porque tem medo e desconfia do prozac. Porque ali, na ilha do aqui e agora, é lei tudo o que o príncipe diz, e o príncipe não está sujeito à lei que ele pode editar em despacho. A ilha da Bielochina é um tédio e nem sequer nos dão direito a Vale de Lobos. É por isso que vou à manifestação de sábado, apesar de reconhecer que a Maria de Lurdes Rodrigues nada tem a ver com a ilha que hoje inventei. Vou apenas contra os intendentes, as viradeiras e as deduções cronológico-analíticas que, na Bielochina, pensam que são agentes da tal Maria de Lurdes que Sócrates tem, vibrando com a respectiva teimosia que vão traduzindo em calão autoritário, pelo poder vibratório do mau exemplo que congrega adeptos da República de Saló e dos kampucheas de Pol Pot.

3.3.08

Todos estes insignes ficantes do tempo que passa continuam a não ser causas, mas meros sintomas deste interregno



Vi ontem o documentário "Zeitgeist", depois de saber os resultados das eleições russas, que antes de o ser já o eram. Achei graça à renovação da teoria da conspiração, acrescentada com umas pitadas de gnosticismo de trazer por casa, sempre à procura de certezas tipo "Protocolo dos Sábios do Sião", só porque os acontecimentos da política internacional são complexos e imprevisíveis, neste sistema de governança sem governo, com muitas pilotagens automáticas nos pequenos e médios Estados, dependentes do directório das potências e gerindo interdependências.




Prefiro recordar como a ministra da avaliação recebeu uma filigrana gondomarense e um banho de elogios de Valentim, quando decidiu brincar ao "agenda setting" e descer a uma encenação de povo, com o apoio do representante corporativo dos pais lusitanos e não sei se das famílias ditas numerosas. Decidi esquecer, porque daqui a um pedacinho vou começar as minhas aulinhas do segundo semestre e tenho de cumprir o meu dever, não para com as avaliações, os livros de ponto ou os "videos" de vigilância instalados na minha escola, mas para com a comunidade que me paga para eu poder ajudar gerações sucessivas a pensar individualmente, talvez com alguma imaginação politicamente científica.


A senhora ministra, os senhores autarcas, os senhores directores e todos estes insignes ficantes do tempo que passa continuam a não ser causas, mas meros sintomas deste interregno. Não sabem de onde vêm, nem por onde, ou para onde, vão. Infelizmente, servem de instrumento para aqueles que ousam destruir as instituições da sociedade civil que, até agora, não tinham sido estadualizadas, especialmente quando o aparelho de Estado se vai transformando em agente de um vago processo de colonização imperial, onde têm que ser condicionadas as resitências individuais e dos grupos a que a cidadania dava vida.